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Mesmo ilegal, álcool é problema crescente no Paquistão

Atualizado em  16 de setembro, 2013 - 07:26 (Brasília) 10:26 GMT
garrafas de bebida | Getty Images

Consumo de álcool é cada vez mais comum no Paquistão, apesar de proibição

O alcoolismo está se tornando um problema crescente no Paquistão apesar de ser ilegal beber no país de maioria muçulmana.

O repórter da BBC Charles Haviland conversou com pessoas que quase tiveram suas vidas arruinadas pelo álcool e grupos de terapia que estão tentando derrubar o tabu que existe em torno do tema.

É tarde da noite e a batida da música vinda de um dos andares mais altos de um prédio nos subúrbios de uma cidade paquistanesa pode ser ouvida do lado de fora.

Dentro do apartamento, a música pulsa na pista de dança. No bar há várias opções de bebidas alcoólicas e coquetéis. Sob luzes estroboscópicas, dezenas de pessoas dançam, riem e curtem suas bebidas.

Este é um tipo de festa que vem se tornando comum nas grandes cidades do país, mas são altamente discretas.

As bebidas alcoólicas são compradas ilegalmente de contrabandistas ou de lojas registradas que deveriam vender álcool apenas para minorias com uma licença, mas que também vendem para grandes números de muçulmanos.

O Paquistão tem até suas próprias cervejarias que oficialmente produzem apenas para o público não muçulmano ou para exportação.

Escape

A subcultura do consumo de álcool contradiz o status oficial do Paquistão de país "seco", onde a população não bebe. Ou seja, 96% dos paquistaneses que, de acordo com as estatísticas oficiais são muçulmanos, não deveriam beber.

A punição para quem for pego consumindo álcool é de 80 chicotadas, mas a lei raramente é aplicada.

Autoridades que não quiseram ser identificadas disseram à BBC que doenças decorrentes do álcool aumentaram ao menos 10% nos últimos cinco anos.

Tahir Ahmed, ex-alcoólatra que hoje comanda o centro de reabilitação Therapy Works, detecta uma tendência crescente. Há seis anos, quando iniciou o trabalho, ele recebia jovens na faixa etária dos 20 anos. Hoje eles chegam aos 14.

Alguns também estão viciados em drogas.

Tahir Ahmed | BBC

Ex-alcoólatra, Tahir Ahmed criou centro de reabilitação

Ahmed diz que quando os paquistaneses bebem, geralmente consomem grandes quantidades. Uma resposta, segundo ele, a grandes pressões sociais , incluindo a ameaça de violência política a altas taxas de desemprego.

"Infelizmente, no Paquistão não se bebe socialmente. O ato é muito mais escapista e uma forma de buscar conforto, o que significa beber até esvaziar a garrafa", avalia.

Hoje com 65 anos, era isso que Ahmed fazia na juventude. Dois de seus amigos morreram de cirrose e ele próprio quase morreu.

Ele decidiu parar de beber e sofreu de depressão durante um ano até recebeu terapia e decidiu abrir seu próprio centro de reabilitação.

Tabu para mulheres

O hábito de beber álcool é particularmente perceptível entre pessoas mais afluentes da sociedade paquistanesa. Correm rumores de que alguns políticos bebem e a bebida corre solta em festas, mesmo que nunca diante das câmeras.

Mas o problema afeta a todos. No mês passado, ao menos 12 pessoas morreram em Karachi depois de ingerir bebidas alcoólicas fabricadas em casa.

Em Lahore, segunda maior cidade do Paquistão, Sara (nome fictício), conta seu drama.

Há cinco anos, com 33 anos e dois filhos adolescentes, ela se divorciou e mergulhou no álcool.

"Eu acordava e não lembrava dos últimos dois ou três dias da minha vida porque estava tão intoxicada. Tive muito medo."

Quando ela começou a se tornar um constrangimento para seus filhos, Sara decidiu procurar ajuda, mas o fato de ser mulher foi um problema.

"Alguns homens podem admitir que bebem e precisam de ajuda, mas para mulheres isso é um tabu. Uma mulher nunca vai ter coragem de dizer 'eu tenho um problema e preciso de ajuda'. Isto não é aceitável."

Há nove meses, ela finalmente conseguiu assistência da Therapy Works e está se recuperando.

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