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Lucas Mendes: Vitória na cabeça

Atualizado em  12 de setembro, 2013 - 06:24 (Brasília) 09:24 GMT

Um candidato pode ganhar ou perder uma eleição por dezenas de motivos, mas Bill de Blasio, candidato a prefeito de Nova York, é o primeiro a ganhar por uma cabeleira afro que nem é dele. É do filho Dante, de 15 anos, simpático e esperto.

Papai de Blasio é descendente de italianos, branco, alto e boa pinta. Ele esteve 14 pontos na frente do segundo colocado, Bill Thompson, o único negro entre os nove candidatos que disputavam as eleições primárias democratas de terça-feira, mas o italiano, com seu filho afro, ganhou até entre os eleitores negros.

Em Nova York, o candidato precisa de 40% dos votos nas primárias do partido para evitar um segundo turno entre os dois primeiros colocados, e a contagem final só vai sair na próxima semana porque as máquinas quebraram. Ele passou dos 40%, com menos de mil votos, diríamos, por um punhado de fios.

Um vexame, mas vamos ao milagre afro. Papai de Blasio estava no distante quarto lugar quando os marqueteiros decidiram que um endosso do filho poderia trazer um punhado de votos da comunidade negra, entre jovens e liberais. A primeira opção era a mulher, Chirlane McCray, uma negra jamaicana bonita, poeta, ex-lésbica declarada, mas decidiram que o apelo do filho, produto de uma família racial e sexualmente integrada, podia ter mais impacto. Acertaram na cabeça.

O comercial do filho, com seu afro momumental, bombou. Antes de entrar no ar, teve 200 mil acessos na internet e, em quatro semanas, o pai estava entre os primeiros nas pesquisas.

Di Blasio com mulher e o filho celebram resultado da primária

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Bill de Blasio é o atual public advocate da cidade, cargo eletivo, uma espécie de ombusdman dos novaiorquinos. Quem está infeliz com os serviços da cidade bate na porta do advogado público.

Ele fez uma campanha pró 99% e anti 1%, liberal e populista. Uma das promessas de Blasio é aumentar os impostos dos ricos para pagar pelos cursos pré-primários.

Bateu de frente com o stop and frisk, "pare e apalpe", peça-chave do combate ao crime do prefeito Michael Bloomberg que permite a polícia abordar e apalpar qualquer pessoa por qualquer motivo. Mais de 90% dos apalpados são negros e latinos. Apesar da grande redução do crime em Nova York, em parte atribuída ao "pare e apalpe", uma juíza considerou a prática racista e ilegal. O processo corre em tribunais superiores.

Desde 1989, com David Dinkins, o primeiro e único prefeito negro, um candidato democrata não se elege prefeito em Nova York. Nos últimos 20 anos, a cidade foi governada oito anos pelo conservador Rudolph Giuliani e 12 anos pelo bilionário sem partido firme Michael Bloombeg.

Nova York é politicamente tribal, esquizofrênica e imprevisível. Dos 51 vereadores, 46 são democratas, mas, para prefeito, os democratas perdem desde 1993. E a proporção de eleitores na cidade é de seis democratas para um republicano.

A cidade nunca foi tão segura, limpa e próspera, a população reconhece e agradece ao prefeito, mas Bill de Blasio conseguiu pintar Bloomberg como o homem das bicicletas, praças, dietas, das futilidades, de Manhattan, dos ricos, em resumo "o prefeito das vaidades". Bill de Blasio é do Brooklyn.

O candidato republicano é Joe Lhota, um burocrata que trabalhou com Giuliani e dirigiu o MTA, Metropolitan Transit Authority, o sistema de transportes públicos de Nova York. Lhota é zero em eloquência e dez em tédio, sem dinheiro e sem ideias novas.

Nem por isso está derrotado. O 1% acordou. A mensagem de Blasio é inspirada no presidente Woodrow Wilson, que governou o país no período de maior desigualdade econômica dos últimos cem anos, exatamente igual à atual. Dez por cento dos ricos recebem 50% da renda, 1% tem 20%. Wilson amumentou os impostos dos ricos, eliminou tarifas protecionistas, criou o Banco Central e tomou o controle da economia de J.P. Morgan e dos banqueiros.

Wilson é o presidente mais odiado pelos conservadores americanos. No dia 3 de fevereiro, Rush Limbaugh, o radialista com a maior audiência do país, toma champanha no programa para comemorar a morte do "presidente mais filho da puta da história dos Estados Unidos".

Fazer campanha contra os ricos tem seus riscos. As cidades e Estados vizinhos esperam por eles de braços abertos. Mas quantos estão dispostos a trocar Manhattan por Nova Jersey, Pensilvânia e Connecticut?

A cabeça do Lhota está pronta para o afro.

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