Rússia apresenta plano e reforça protagonismo na Síria

  • 11 setembro 2013
O presidente da Rússia, Vladimir Putin (AFP)

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, costuma ser acusado de sabotar os esforços da diplomacia internacional.

Mas, se a iniciativa da Rússia em relação à Síria for bem-sucedida, essa poderia ser uma grande vitória para o líder do Kremlin.

Nesta quarta-feira, o governo russo apresentou aos Estados Unidos o plano que prevê que o arsenal de armas químicas da Síria seja transferido ao controle internacional.

Embaixadores dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (além dos Estados Unidos e da Rússia, França, Grã-Bretanha e China) se reuniriam no mesmo dia para discutir a proposta.

Conseguir evitar uma ação militar dos Estados Unidos contra um de seus aliados-chave no Oriente Médio e, de quebra, neutralizar o perigo representado pelas armas químicas do presidente sírio, Bashar al-Assad: esse seria um triunfo incrível para Moscou.

De acordo com diversos jornais russos desta quarta-feira, a iniciativa também evitaria que o presidente americano, Barack Obama, vivesse uma situação constrangedora, tornando desnecessária uma ação militar que não agrada a maioria dos americanos.

No tocante à Síria, a Rússia parece ter se mantido um passo à frente dos Estados Unidos.

Enquanto os Estados Unidos vêm sendo acusados de indefinição e idas e vindas, de desenhar "linhas vermelhas" e de reagir com lentidão a elas, o presidente Putin tem se mostrado sólido e inabalável como os muros do Kremlin: consistentemente se opondo a um ataque americano.

E não é só. A Rússia acredita que sua mensagem foi transmitida, e sua posição firme ajudou a diluir o apoio internacional a uma ação militar dos Estados Unidos.

Na semana que vem, a ONU, a União Europeia e o Vaticano expressaram seu apoio a uma solução pacífica.

Até se a iniciativa russa no final for abandonada em meio à paralisia e a discussão de detalhes sem importância dentro do Conselho de Segurança da ONU, Moscou ainda pode argumentar que pelo menos tentou uma solução pacífica.

O problema nos detalhes

Mas qual é a chance de que a iniciativa seja bem-sucedida?

Não será fácil. Os russos podem ter preparado uma proposta – eles podem até mesmo ter convencido Damasco a aceitá-la. Mas, ainda assim, não há um plano concreto. Não ainda, pelo menos.

A Rússia precisa apresentar detalhes de como acredita que funcionaria o processo de desarmamento da Síria no meio de sua guerra civil; como o arsenal sírio seria verificado; onde as armas seriam guardadas e qual seria o cronograma para que tudo isso ocorresse.

Além disso, há sinais de discordâncias entre russos e sírios sobre se as armas químicas devem ou não ser destruídas. A expectativa é de que a Síria acabe cedendo e permita a eliminação de seu arsenal químico diante da provável argumentação da Rússia de que essa é a única maneira de conseguir um apoio amplo à proposta.

Em um encontro nesta quinta-feira em Genebra, o secretário de Estado americano, John Kerry, espera que o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, forneça mais detalhes.

O maior problema em potencial é a ameaça de uso da força.

Putin disse que a iniciativa de Moscou pode funcionar apenas se os Estados Unidos e seus aliados descartarem uma ação militar contra Damasco. Mas Obama deixou claro que acredita que apenas a ameaça do uso da força tornou uma solução diplomática possível.

No Conselho de Segurança, é difícil imaginar os Estados Unidos, a França e o Reino Unido concordando com uma resolução não-vinculante que não contenha uma ameaça de sérias consequências contra Assad caso ele não cumpra o plano estipulado.

Mas, mesmo que um consenso e uma solução diplomática sejam alcançados, isso não vai levar ao fim da violência no país árabe.

De acordo com a edição desta quarta-feira do diário russo Vedomosti, a proposta russa "se refere apenas a armas químicas e à 'linha vermelha' de Obama, não ao conflito na Síria como um todo, que irá continuar".