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Como um ataque à Síria deve afetar os países vizinhos

Atualizado em  10 de setembro, 2013 - 16:31 (Brasília) 19:31 GMT
Bandeira da Síria (Reuters)

Vizinhos da Síria devem sofrer efeitos distintos em uma possível ofensiva

Um possível ataque americano à Síria deve ter repercussões distintas em cada um dos países vizinhos, gerando em alguns deles o risco de intensificação da violência sectária, segundo analistas da região ouvidos pela BBC Brasil.

Segundo eles, enquanto os governos da Turquia e Jordânia já calcularam os riscos e veem poucas consequências práticas, países como o Líbano e Iraque temem que seus territórios se transformem em campos de batalha entre diferentes grupos pró e contra o presidente sírio, Bashar al-Assad.

"Diferentemente dos turcos e jordanianos, o Líbano e o Iraque têm sociedades mais complexas, sectárias e sofrem com as divisões internas e a influência iraniana", disse o professor Imad Salamey, da Universidade Libanesa Americana em Beirute.

Para outro analista, Hassan Jouni, da Universidade Libanesa, os grupos pró-Assad devem retaliar de forma limitada, mas o suficiente para causar incidentes e violência entre libaneses e iraquianos.

"Os turcos temem menos as repercussões porque possuem grande poder militar, e o regime em Damasco não pensaria em provocar uma reação da Turquia", afirmou Jouni.

Para o jordaniano Mahjoob Zweiri, especializado em política do Oriente Médio e Irã na Universidade do Catar, um ataque dos Estados Unidos não provocará uma reação imediata do Irã contra países aliados dos americanos.

"O Irã deve usar seus aliados regionais, como o Hezbollah e outros grupos militantes menores, para causar distúrbios no Líbano, na Jordânia e Iraque, desafiando líderes locais aliados dos americanos."

Confira a situação de cada país, segundo os analistas:

Turquia

De todos os vizinhos dos sírios, a Turquia é quem mais se posicionou contra o regime de Assad desde o início do levante popular, há mais de dois anos. Além de aliado dos Estados Unidos e um importante membro da Otan, os turcos estão entre os países que mais apoiam uma intervenção militar na Síria.

Para o analista independente Semih Idiz, a Turquia já enfrentou os piores cenários com a crise na Síria, e pouco teme em relação a uma eventual retaliação do governo sírio: "A Turquia dispõe de amplos recursos para se defender militarmente e conta com um amplo apoio da Otan".

De acordo com o analista, a crise humanitária já afetou o país e pouco mudará se um maior número de refugiados cruzar suas fronteiras.

"O grande número de refugiados sírios já levou à exaustão os recursos da região no sul da Turquia, e o governo já vem lidando com a crise humanitária há muito mais tempo", afirmou.

"O maior medo dos turcos seria que a derrota de Assad inspirasse uma revolta de separatistas curdos dentro de seu território. A Turquia certamente está em um jogo perigoso, e é por isso que nos últimos meses tenta um acordo de paz com os partidos políticos curdos."


Jordânia

Embora tenha declarado que prefere uma solução política para o conflito na Síria, o governo jordaniano também não se opõe a uma intervenção militar americana.

Como a Turquia, o país sentiu o peso de um grande fluxo de refugiados sírios em seu território, como no campo de refugiados de Zaatari, uma cidade de tendas e que abriga mais de 120 mil pessoas.

"A presença de sírios no país já afeta a oferta de trabalho, em que sírios competem com imigrantes egípcios por um salário menor, afetando o próprio Egito, um país que já tem seus próprios problemas econômicos", disse o analista jordaniano Mahjoob Zweiri, da Universidade do Catar.

Zweiri explicou também que o sistema de saneamento e distribuição de água no norte da Jordânia tem sofrido interrupções com a maior demanda por conta da presença de sírios.

"A Jordânia não tem os recursos para receber ainda mais refugiados, sua economia não tem condições de absorver um fluxo maior."

O analista também alertou para o risco de uma retaliação de Assad contra o país, incluindo, mesmo que isso seja improvável, armas químicas. "Tudo pode acontecer se o regime de Damasco, impulsionado por pedidos de vingança de seus apoiadores, resolver retaliar contra os países aliados dos EUA."

Líbano

O pequeno país do leste do Mediterrâneo seria o que mais teria a perder com os ataques americanos à Síria, na opinião do analista libanês Imad Salamey, da Universidade Americana Libanesa.

Segundo ele, a relação entre Líbano e Síria é muito forte, com laços políticos e econômicos. E, por isso, são justamente esses dois setores que vêm sofrendo com a guerra civil síria.

A economia libanesa sofre com poucos turistas, receosos pelos confrontos sectários quase que constantes, sequestros e ataques com foguetes por grupos militantes desconhecidos. Atentados a bomba já ocorreram em áreas sunitas e xiitas, elevando a rivalidade sectária.

"A profunda divisão entre partidos políticos levou a uma estagnação do governo, com um primeiro-ministro nomeado que não consegue formar um gabinete há meses. Além disso, a guerra vizinha chegou ao território libanês, onde a maioria dos sunitas apoia os rebeldes sírios e a maioria dos xiitas está ao lado de Assad", explicou.

Em Trípoli, segunda maior cidade do país, há constantes confrontos armados entre as comunidades sunita e alauíta, o grupo ao qual pertence o presidente sírio.

Mas a maior consequência para o Líbano de possíveis ataques dos EUA contra a Síria seria uma retaliação militar do grupo militante Hezbollah contra Israel. O grupo libanês é um forte aliado da Síria e do Irã e, por meses, vem enviando soldados ao território sírio para combater ao lado das tropas de Assad.

"O maior medo da população libanesa seria o Hezbollah lançar foguetes como represália dos ataques americanos, e o governo israelense responder com uma ofensiva militar devastadora para o Líbano", afirmou Salamey.

Outro analista, Hassan Jouni, da Universidade Libanesa, lembrou que Israel por várias vezes alertou o governo libanês de que seria responsabilizado por um ataque do Hezbollah contra seu território.

"Uma resposta de Israel não seria contra o Hezbollah, mas contra todo o Líbano, e teria consequências mais catastróficas para os libaneses do que a guerra de 2006."

Para ele, um confronto entre o Hezbollah e Israel levaria a um conflito interno, em que sunitas e outros grupos poderiam entrar em confronto armado contra o Hezbollah, caso enxerguem um enfraquecimento do grupo.


Iraque

O governo iraquiano tem tentado manter uma neutralidade em relação à guerra na Síria. No entanto, o primeiro-ministro Nouri al-Malaki declarou que o conflito era responsável pelo aumento da violência em seu país. Ele também se opôs a uma intervenção americana.

O Iraque, assim como o Líbano, possui uma população heterogênea e frágil, com sunitas, pró-rebeldes sírios, e xiitas, fortemente influenciados pelo Irã.

"Nos últimos anos, o Iraque se aproximou muito do Irã, garantindo aos iranianos o acesso de seu espaço aéreo para entregas de armamentos e soldados a Assad", explicou Mahjoob Zweiri.

Segundo ele, o governo iraquiano não consegue controlar sua fronteira oeste coma Síria, região de maioria sunita e que seria também o ponto de entrada de militantes islâmicos e simpatizantes da Al Qaeda, que se juntaram aos rebeldes sírios em sua luta contra o governo.

"É fácil adivinhar que um ataque americano poderá levar a um aumento de militantes extremistas cruzando a fronteira do Iraque em direção à Síria. Uma intervenção maior do governo iraquiano pode ser vista como uma ação contra os sunitas do país, elevando a tensão sectária."

O analista também aponta uma ação do Irã, que não retaliaria de forma direta, mas poderia incentivar miltiantes xiitas no Iraque a atacarem seus rivais sunitas no país.

"O Irã se sentiria ameaçado. Um enfraquecimento de Assad, e pior do que isso, uma queda do governante sírio, seria um golpe fatal para o Irã. Para os iranianos, há muito em jogo", completou Zweiri.

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