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Como sobreviver a fenômenos extremos?

Atualizado em  31 de julho, 2013 - 20:03 (Brasília) 23:03 GMT
Acidente de trem na Espanha | Foto: AFP

Corpo humano libera hormônios para amenizar ferimentos graves

As possibilidades são remotas, mas podem acontecer. Uma pessoa é capaz de sobreviver à queda de um edifício de 15 andares ou à intensidade de um raio.

Em junho deste ano, o inglês Tom Stilwel caiu da varanda de um edifício de 15 andares em Auckland, a maior cidade da Nova Zelândia. Um mês depois, a americana Kendra Villanueva foi atingida por um raio no Estado do Novo México, nos Estados Unidos. Ela estava grávida e deu à luz um bebê saudável logo depois do acidente.

São eventos pouco comuns que podem causar no corpo ferimentos similares aos causados por incidentes mais frequentes, como atropelamentos, explosões ou terremotos.

Os cientistas explicam que se uma pessoa é atingida por um raio, a descarga elétrica que ela recebe passa pelo coração, causando uma imediata parada cardíaca, o que leva normalmente à morte da vítima. Caso ela sobreviva, pode ficar com lesões internas graves, além de queimaduras que vão desde o ponto de entrada ao de saída do relâmpago.

No caso de uma queda de uma grande altura ou de um terremoto, os ferimentos costumam estar relacionados à fratura dos ossos ou à falta de circulação sanguínea.

Por exemplo, pessoas que ficam presas debaixo de escombros têm problemas com o sistema circulatório. O peso das estruturas pressiona o corpo da vítima e, por essa razão, pode produzir um coágulo nas artérias, o que no pior dos casos leva à amputação da extremidade afetada.

As lesões podem variar dependendo do tipo de acidente que o indivíduo tenha sofrido, mas a reação do organismo costuma ser a mesma.

Ativação do instinto

Quando o corpo está submetido a uma situação de stress, o sistema nervoso simpático é acionado. Através de uma série de mecanismos biológicos e fisiológicos, como o aumento das pulsações ou da respiração superficial, o corpo humano começa a tentar preservar o funcionamento de órgãos vitais, como o coração e o cérebro.

"É um instinto de sobrevivência e de preservação que, dependendo da gravidade dos ferimentos, pode ter resultados positivos", explicou à BBC o médico Juan González Armengol, presidente da Sociedade Espanhola de Medicina de Urgências e Emergências.

Segundo Octavio Ávila, médico e vice-diretor da Cruz Vermelha no México, a liberação de hormônios em uma situação de tensão, seja psicológica ou física, é fundamental para o organismo porque o prepara para lidar com essa circunstância.

Cirurgia / BBC

Tempo de resgate influencia na sobrevivência do ferido

"O primeiro hormônio a ser liberado é a adrenalina que, entre outras coisas, fortalece os músculos, o que ajuda a diminuir a sensação de dor. Há casos nos quais uma pessoa pode correr mesmo tendo uma fratura na perna".

Ávila também diz que os processos metabólicos de resposta ao trauma acontecem em cadeia no corpo.

"Em linhas muito gerais, poderíamos dizer que a primeira etapa é hormonal, certas glândulas secretam substâncias como o cortisol ou os hormônios da tireóide. A segunda etapa é celular ─ ali se ativam os glóbulos brancos e os leucócitos, entre outros. Neste cenário, as substâncias pró-inflamatórias e as contra-inflamatórias também têm um papel importante. Deste equilíbrio, depende muito a evolução do paciente".

Entre a vida e a morte

Ambos os especialistas concordam que a quantidade visível de sangue não é um indicativo da gravidade dos ferimentos. Isso porque alguém pode chegar à sala de emergência de um hospital absolutamente coberto de sangue, mas com feridas superficiais. Por outro lado, outra vítima chega caminhando, aparentemente bem, e seu baço poderia estar a pronto de se romper.

Um exemplo desse último caso poderia ser de uma pessoa que caiu de uma varanda de um edifício, como o inglês Tom Stilwel.

Neste sentido, é importante estar preparado para possibilidade de que haja complicações. Desta maneira, diminui-se o risco de morte e o desenvolvimento de lesões posteriores.

"No caso de politraumatismos severos, deve-se seguir o protocolo Programa Avançado de Apoio Vital em Trauma (ATLS, na sigla em inglês)", diz o médico espanhol.

Este programa de atenção traumatológica, utilizado em vários países, é composto por cinco fases que devem ser repetidas constantemente:

  • O primeiro passo é observar se há alguma obstrução que impeça o paciente de respirar.
  • O segundo é auscultar o tórax para determinar se há feridas internas que possam dificultar a respiração.
  • Em seguida, se analisa a circulação para prevenir hemorragias.
  • Depois disso se descartam possíveis problemas neurológicos.
  • E, finalmente, deve-se manter o ferido sem roupa, mas com cobertas, para evitar que sofra de hipotermia.

Hora H

"Há uma 'hora H' justamente depois do acidente, e já está demonstrado que se a equipe médica atua neste momento, o paciente pode sobreviver."

Juan González Armengol, presidente da Sociedade Espanhola de Medicina de Urgências e Emergências

Para González Amengol, as circunstâncias que originaram as lesões são fundamentais na possibilidade de sobrevivência de alguém que tenha sofrido um acidente muito grave.

Em um acidente de automóvel, por exemplo, tem influência se a colisão foi por trás ou pelo lado do carro ou se alguém perdeu a vida.

Ávila acrescentou que a evolução do paciente depende de muitos fatores. "Alguns deles são a condição de saúde do paciente antes do acidente ─ uma pessoa com diabetes ou alguma doença degenerativa tem um quadro mais complicado ─ ,a resistência dos órgãos e a gravidade do trauma".

Outro elemento fundamental, na opinião do vice-diretor da Cruz Vermelha no México, é que o paciente seja transferido para uma unidade especializada em traumas. Em alguns casos, segundo ele, a vítima é encaminhada a uma maternidade ou a um centro de outra especialidade, o que diminui as possibilidades de estabilizar sua condição.

A rapidez com que essa transferência é realizada também tem um peso muito importante na possibilidade de recuperação de uma pessoa com ferimentos internos graves.

"Há uma 'hora H' justamente depois do acidente e já está comprovado que se a equipe médica atua neste momento, o paciente pode sobreviver. Claro, isso não vale para situações extremas, como o rompimento da aorta (a maior artéria do corpo humano, que leva sangue do coração para o restante do corpo) ou a perda de massa encefálica. Neste cenário, é muito provável que o paciente morra em mais ou menos 15 minutos", afirmou Amengol.

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