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Democracia ou desordem? As quatro lições da Primavera Árabe

Atualizado em  11 de julho, 2013 - 21:18 (Brasília) 00:18 GMT

Alguns analistas estão dizendo que tudo não passou de uma ilusão, que a Primavera Árabe - que parecia ser o prenúncio da democracia – não trouxe nada além de desordem.

Outros vão ainda mais longe e argumentam que árabes, ou muçulmanos, estão presos ao sectarianismo e à intolerância e que, por isso, são incapazes de promover a democracia.

Nenhum dos dois argumentos, no entanto, sobrevivem diante de uma análise mais criteriosa dos fatos.

É evidente que aqueles dias empolgantes de 2011 – quando os árabes tomaram as ruas e depuseram três ditadores – se transformaram agora em uma memória distante.

Muitos dos que participaram dos protestos há dois anos agora estão profundamente desiludidos. Suas vidas não melhoraram e, em muitos casos, pioraram.

Mas é necessário questionar o que deu errado, e tirar as lições corretas.

1. Nunca será fácil e rápido


A primeira lição é que a Primavera Árabe é um processo, e não um evento. Nunca ninguém poderia imaginar que os governantes árabes, e as elites que os sustentavam, um dia cairiam ou morreriam.

O papel do Ocidente sempre foi ambivalente. Ele sempre esteve nos dois lados – ansioso por encorajar as novas democracias, mas sem derrubar as velhas autocracias.

Em sociedades em que os movimentos democráticos eram suprimidos há muito tempo, não se pode esperar que a tolerância, o pluralismo e os direitos humanos aflorem do dia para noite.

Isso sempre será, nessa região, um longa luta geracional.

2. Não há um padrão único

A segunda lição - bastante óbvia mediante um rápido retrospecto - é que circunstâncias diferentes produzem resultados diferentes.

Na Tunísia, as forças armadas abandonaram o ditador - e, em seguida, saíram do cenário político.

No Egito, ocorreu o oposto. Por duas vezes, após protestos em massa, o Exército interveio e retirou um ditador do poder.

Mas ao assumirem o controle do país, os militares foram inábeis. A noção de que as Forças Armadas poderiam ser um instrumento para a democracia sempre foi suspeita.

Na Líbia – até agora um caso excepcional -, foi uma intervenção do Ocidente que virou o jogo, selando o destino do ditador Muammar Kadhafi.

Na Síria, o Ocidente está – com razão – relutante a agir, deixando para as forças locais e regionais resolver o conflito.

Não há um padrão fixo e, por isso, não há resultados uniformes.

3. Os muçulmanos estão em uma encruzilhada

Em toda a região, os muçulmanos puderam experimentar o que é ter poder, mas o usaram de formas diferentes.

Na Tunísia, eles entenderam que não poderiam governar sozinhos.

Já os muçulmanos egípcios cometeram o erro de se livrar brutalmente de seus oponentes.

Por outro lado, incapazes de se livrarem de uma paranoia enraizada, eles tendem a ver todos os opositores como conspiradores.

E, fatalmente, subestimaram o poder dos militares.

Mas é um erro achar que, regionalmente, os muçulmanos estão recuando. Eles estão na defensiva, mas longe de serem vencidos.

A questão é qual lição eles vão tirar dos eventos recentes.

Alguns muçulmanos egípcios podem chegar à conclusão de que não podem culpar os outros pelo próprio destino: afinal, tiveram sua chance de exercer o poder, mas perderam essa oportunidade.

Outros, no Egito, na Síria ou em outros locais, podem argumentar que a democracia não leva a nada, e que apenas por meio da violência podem alcançar a utopia islâmica.

4. O poder do povo não é suficiente

Por último, as revoltas árabes mostraram o poder, e também as limitações, dos protestos em massa.

A ideia do empoderamento popular criou raízes, alimentada pela TV por satélite e pelas mídias sociais. E nenhum país está imune a isso.

A Primavera Árabe pode não ter alterado o balanço de poder regional, mas derrubou as expectativas populares.

É uma revolução na mente.

Mas a dura lição é que, por si só, o poder popular não é suficiente.

O desafio a longo prazo é traduzir o protesto popular e o ódio do povo em uma mudança real e duradoura.

Se isso não acontecer, a promessa da Primavera Árabe não será concretizada.

* Roger Hardy é autor do livro 'A Revolta Muçulmana: uma Jornada pelo Islã Político' (2010). Ele é professor associado nas universidades London School of Economics e King's College, em Londres.

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