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Egito busca reiniciar revolução de 2011, mas resultado é incerto

Atualizado em  5 de julho, 2013 - 05:25 (Brasília) 08:25 GMT
Protesto pró-Morsi no Egito (Getty)

Tensões entre simpatizantes e críticos de Morsi pode crescer

As cenas de forte cunho emocional vistas nos últimos dias na praça Tahrir, no Cairo, remetem a imagens de dois anos e meio atrás, quando a revolução egípcia depôs o regime de três décadas de Hosni Mubarak.

Em fevereiro de 2011, fogos de artifício surgiam no céu e multidões agitavam bandeiras do Egito celebrando a queda de Mubarak, após 18 dias de protestos consecutivos - e sem precedentes no país.

Em seguida, houve um turbulento período sob um regime militar, até as eleições livres e democráticas do ano passado, que elegeram o islamista Mohammed Morsi com 51,7% dos votos.

Agora, bastaram quatro dias de manifestações em massa para depor Morsi, depois de crescer a rejeição contra o presidente e de as Forças Armadas terem deixado de apoiá-lo - da mesma forma como fizeram com Mubarak.

Será, então, que a deposição à força de Morsi e a tomada de poder por parte do Exército darão uma chance para o Egito refazer sua revolução - ou será que a crise atual resultará em mais divisões internas e violência?

Manobras militares

Quando o comandante militar Abdul Fattah al-Sisi anunciou a suspensão da Constituição (tida por muitos como muito favorável aos islâmicos) e anunciou um plano para um retorno ao regime democrático, ele tomou o cuidado de não repetir o erro de seu antecessor.

Ao contrário de Hussein Tantawi, que fora ministro da Defesa de Mubarak e temporariamente o substituiu após a revolução, Sisi nomeou o presidente da Corte Suprema Constitucional, Adli Mansour, como líder interino do país.

Sisi afirmou que um governo tecnocrata dará assistência a Mansour até as próximas eleições presidenciais e parlamentares.

Seu anúncio, transmitido ao vivo pela TV, contou com a presença simbólica de importantes líderes políticos e religiosos. E o líder da igreja cristã Copta também apoiou o Exército, algo significativo em meio às ondas de violência sectária alvejando cristãos no Egito.

Por sua vez, Mohammed ElBaradei, líder da oposição liberal, disse que as demandas da população haviam sido escutadas e que a revolução de 2011 tem de ser relançada.

Tensões

O número de manifestantes pró-Morsi, reunidos na praça Rabaa al-Adawiya, em Nasr, não é tão grande quanto o de críticos do presidente aglomerados no centro do Cairo. Mas evidencia as crescentes tensões no país.

Entre simpatizantes de Morsi há um forte sentimento de indignação pela repentina mudança de rumo do país e pelo que veem como um claro golpe militar que vai contra a experiência democrática do Egito.

A Irmandade Muçulmana, partido de Morsi, é a maior e mais antiga organização islamita existente e continua sendo o grupo político mais forte do Egito. Desde que o grupo foi posto autorizado a se organizar legalmente como um partido político, em 2011, provou ser capaz de mobilizar simpatizantes e eleger seus candidatos à Presidência e ao Legislativo.

Ainda que haja desconfiança entre a Irmandade e as demais forças políticas, seria um erro tentar excluí-la do cenário político.

Precedentes preocupantes

Alguns analistas lembram os preocupantes precedentes já abertos em outros países da região que foram alvo de intervenção militar.

Apesar de ter recentemente se afastado da política, as Forças Armadas da Turquia já removeram quatro governos eleitos no país.

Na Argélia, mais de 150 mil pessoas foram mortas em um brutal confronto civil depois que militares anularam os resultados das eleições de 1992, vencidas por um partido islâmico.

Os desdobramentos recentes no Cairo servem de recordação de que o Exército é a instituição mais forte do Egito e guardião dos valores seculares do país.

Os próximos acontecimentos dependerão muito da capacidade dos militares em restaurar a ordem sem causar derramamento de sangue, bem como de cumprir a promessa de construir um governo inclusivo e coeso que seja capaz de conduzir o país durante tempos difíceis.

A primeira tarefa do próximo governo será lidar com uma grave crise econômica: os investimentos e o turismo têm sido devastados pelos constantes distúrbios e pelos problemas administrativos. A inflação disparou, e há constantes apagões e racionamento de combustível.

O eventual fracasso em enfrentar esses problemas levará a mais insatisfação e pode criar um círculo ininterrupto de protestos.

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