Cenário econômico acumula novo revés com crise de empresa de Eike Batista

  • 2 julho 2013
Bovespa, em foto de arquivo (AFP)
Índice da Bovespa (acima, em foto de arquivo) caiu contaminado por queda nas empresas de Eike

Más notícias envolvendo o grupo EBX, de Eike Batista, reforçaram nesta terça-feira os temores do mercado quanto à capacidade de as companhias do biolionário brasileiro honrarem suas dívidas.

Na última segunda-feira, a petroleira OGX anunciou que não vai mais investir no aumento da produção nos poços do Campo de Tubarão Azul (na bacia de Campos), que podem cessar sua produção ao longo de 2014.

O revés de Eike não deve ter efeito direto sobre a economia brasileira, segundo analistas consultados pela BBC Brasil, mas já causa queda na bolsa, pode favorecer a fuga de capitais estrangeiros e deixa nova marca negativa num cenário macroeconômico já pouco favorável.

A reação ao anúncio da OGX veio com a queda do preço das ações da empresa e, nesta terça-feira, a agência S&P rebaixou a classificação de risco da empresa para um nível próximo ao de situação de moratória. Ao mesmo tempo, o jornal Financial Times titulou que "crescem os temores de default da dívida do magnata brasileiro".

A assessoria de imprensa da OGX diz, porém, que a empresa não entrou em recuperação judicial, ainda que não tenha detalhes sobre como as dívidas serão honradas.

Levantamento feito recentemente pela Folha de S. Paulo estima que as dívidas de curto prazo (que têm de ser pagas em mais ou menos um ano) do "grupo X" cheguem a R$ 7,9 bilhões, segundo o balanço das empresas no primeiro trimestre.

Bolsa em queda

Ainda nesta terça, o Ibovespa caiu 4,24% - desempenho bem pior que o das bolsas internacionais -, influenciado, segundo analistas, pela queda das ações das empresas de Eike, mas também por outras más notícias macroeconômicas.

A produção industrial brasileira sofreu queda de 2% entre abril e maio, informou o IBGE nesta terça. A isso se somam as baixas expectativas de crescimento econômico do país, o persistente temor com a inflação elevada e a saída de capitais estrangeiros rumo aos EUA – que, diante de sinais de melhora de sua economia, têm atraído mais aplicações.

"(A crise nas empresas de Eike) ocorre em um momento péssimo para o governo brasileiro", avalia Samuel Aguirre, da consultoria FTI em São Paulo, citando também a onda de protestos e a dificuldade política em dar respostas às demandas populares.

"Não acredito que os negócios (do grupo X) afetem diretamente o PIB brasileiro, mas são mais uma marca negra dentro de um contexto econômico ruim. Dependendo do cenário, podem estimular a fuga de capitais não no longo prazo, mas sim no curto."

Pedro Galdi, economista-chefe da corretora SLW, não acredita, por sua vez, que a piora do cenário para Eike Batista provoque grande fuga de investimentos do Brasil, mas eleva o nervosismo do mercado financeiro.

"Sua recuperação vai depender de ele conseguir transformar seus ativos em dinheiro (em referência aos bens que estão sendo vendidos para quitar dívidas)", opina.

"Havia uma confiança do mercado na capacidade empreendedora (de Eike). Tudo isso acabou quando empresas como a OGX acabaram não entregando os resultados", opina Sérgio Lazzarini, professor do Insper.

"(Mas) acho que é um caso particular. Os problemas da economia brasileira são mais gerais que isso - por exemplo, baixa produtividade, incerteza regulatória e intervenção excessiva do governo. Esses problemas estão prejudicando mais a economia do que o caso Eike em si."

Investimentos em petróleo

Para Adriano Pires, da consultoria energética Centro Brasileiro de Infraestrutura, o grupo de Eike "também foi vítima de uma política equivocada do governo, que ficou cinco anos sem fazer leilões (de áreas de exploração de petróleo)".

Mas, com o bem-sucedido leilão realizado em maio e boas expectativas para o leilão previsto para o segundo semestre, Pires não acredita que investidores serão desestimulados pelo mau momento do grupo X.

"A crise é mais uma questão de gestão. Se o governo continuar com os leilões, não comprometerá a credibilidade (do setor)."