Objetivos e abordagem das ONGs seduzem doadores no Brasil

  • 8 julho 2013
Claudia Stocco. Crédito: Rafael Gomez/BBC Brasil
Claudia diz que decidiu doar devido à causa da ONG e à abordagem na rua

"Oi, tudo bem? Você quer casar comigo?", ouve uma jovem apressada de um agente da ONG Fundação Abrinq - Save the Children perto da entrada da estação de metrô Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, numa noite fria de quinta-feira.

Como resposta, ela dá uma risada e segue ainda mais rapidamente para a estação, sem sequer olhar para seu pretendente.

Sem desanimar, o agente muda sua abordagem para seu próximo alvo. "Você tem um minuto para conhecer o nosso trabalho?", pergunta ele a Claudia Stocco, uma jovem analista de recursos humanos. Ela decide parar e, dez minutos depois, está preenchendo um formulário em que se compromete a fazer uma doação mensal à ONG.

"Decidi ajudar por causa da área de atuação deles. Criança mexe muito com a gente, pelo menos comigo, é uma coisa que me toca", explica Claudia. "Na verdade, é uma mistura das duas coisas: a causa e a abordagem dele, que explicou os dados e não foi agressivo."

Um dos três agentes trabalhando em frente à estação, Daniel Henrique Coutinho, diz que aborda cerca de 200 pessoas por dia. "Param para conversar entre 50 e 100 e, dessas, geralmente só umas três topam doar. Muitos são desconfiados", explica.

"Mas hoje, tivemos muita sorte. Já fizemos dez cadastros!", comemora, antes de partir para mais uma abordagem.

Identificação

O chamado face to face, ou a abordagem direta nas ruas, tem sido uma arma cada vez mais comum das ONGs internacionais que atuam no Brasil na hora de buscar novos doadores nas grandes cidades brasileiras.

Algumas ONGs, como é o caso da Fundação Abrinq - Save the Children, tem usado com frequência esse tipo de estratégia. Outras, como propagandas na TV, telemarketing e a mensagens pela internet também têm sido empregadas pelas organizações nessa "caça" aos doadores.

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Ouvidos pela BBC Brasil, pessoas que doam regularmente para ONGs internacionais são unânimes em afirmar que o que as motiva é acima de tudo uma identificação com o projeto da organização.

Gustavo Thron, que trabalha como coordenador de precificação, destina cerca de R$ 55 por mês à ONG Kiva, que descobriu em um vídeo que assistiu na internet.

A ONG utiliza o dinheiro que capta para realizar empréstimos sem juros a pessoas carentes de vários países. Depois de algum tempo, o credor devolve o dinheiro ao doador, que pode então doá-lo novamente para outra pessoa se quiser.

Gustavo Thron. Crédito: arquivo pessoal
Para Thron, a ONG Kiva faz 'segundo passo' com pessoas que recebem o dinheiro

Ele diz que a proposta da Kiva o atraiu porque ela possibilita aos que recebem o dinheiro "ganhar autoconfiança e desenvolver sua autonomia financeira e emocional". "Acredito que existem muitas ONGs fazendo o trabalho de base e uma quantidade menor delas ajudando neste 'segundo passo'", explica.

De forma semelhante, Gabriela Bini, uma agente de viagens que colabora regularmente com o Greenpeace e a ONG Médicos sem Fronteiras, diz que o que a motiva é perceber que as organizações que ajuda têm um impacto positivo.

"Às vezes vejo pessoas do Greenpeace falarem nos jornais sobre problemas ambientais, e comentários de alguém da Médicos Sem Fronteiras sobre crises na África ou Haiti e percebo que contribuo para organizações que fazem a diferença," diz.

Abordagem

Um outro fator citado pelos doadores para contribuir é simplesmente o destino.

Gabriela disse que começou a dar dinheiro ao Greenpeace porque conhecia uma pessoa que trabalhava para a organização, e para a Médicos sem Fronteiras porque sua filha é doadora e a convenceu a fazer o mesmo.

Leia mais: Brasil ainda doa pouco comparado com outros países

Doadora do WWF desde 2010, a internacionalista Natália Muto lembra que o momento em que foi abordada por um agente da ONG teve importância crucial na sua decisão de ajudar.

"Na época (em 2010) eu estava com essa vontade de ajudar, de me envolver mais com o meio ambiente. E bem nesse momento, essa pessoa me abordou na rua. Foi a circunstância. Foi uma combinação de duas coisas, a vontade de ajudar e a pessoa me abordar", explica.

Igualmente importante nesse tipo de situação é a capacidade do representante da ONG de "vender" a organização, como sustenta Claudia Stocco.

"A pessoa que está abordando precisa ser informada e te passar as informações, e você precisa sentir uma segurança, porque você acaba passando seus dados pessoais."

Internacional x brasileira

A segurança é uma preocupação recorrente dos doadores, e muitos confessam enxergar o fato de as ONG com as quais contribuem serem internacionais como uma garantia de que seu dinheiro será bem utilizado.

"O fato de ser uma ONG estrangeira me dá a tranquilidade de que ela vai ser auditada e estará sendo observada por jornalistas do mundo todo", diz Gustavo Thron.

Natália Muto. Crédito: arquivo pessoal
Natália acredita que ONGs internacionais são mais organizadas

Por sua vez, Gabriela Bini e Natália Muto acreditam que muitas ONGs sem raízes no exterior ainda não operam com a mesma eficiência das internacionais.

"Creio que falta estrutura às ONGs nacionais para fazer o trabalho que as ONGs internacionais fazem, até mesmo de captação de doações. Há exceções", diz Gabriela.

Para Natália, "tem muita ONG que não está fazendo nada, fica se matando para sobreviver e o trabalho não tem impacto". "Eu procurei uma organização que eu sei que é consolidada, em que acredito que meu dinheiro está sendo bem utilizado."

'Cultura acomodada'

Mas nem todos compartilham dessa visão. A arquiteta Claudia de Paula colabora com ONGs nacionais, mas não internacionais.

Ela diz se incomodar com o fato de, segundo ela, o trabalho dessas organizações não "acontecer bem em frente" de seus olhos.

"Prefiro muito mais ajudar a campanha de arrecadação financeira para compra de brinquedos do Dia das Crianças da igreja que minha mãe frequenta do que depositar para a WWF, pois eu posso ir até a igreja ver os brinquedos", diz.

Claudia também acredita que as ONGs internacionais podem criar condições para uma "cultura acomodada do 'eu deposito R$ 50 por mês para o Greenpeace e estou ajudando a salvar o planeta'.

"Ajudar estas ONGs é para aqueles que querem 'ajudar o planeta' e não sabem como - por isso essas ONGs são importantes, pois elas são uma 'porta de entrada' para muitas pessoas que, por exemplo, são alienadas do 3° setor. Elas também são importantes para quem quer atuar profissionalmente como ativista e mesmo para quem quer se engajar mais fortemente numa causa", completa Claudia.

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