Fuga de ex-técnico da CIA acirra tensões diplomáticas

  • 24 junho 2013
Painel com rosto de Snowden em Hong Kong (Foto AP)
Detalhe técnico em pedido de extradição permitiu ida de Edward Snowden de Hong Kong à Rússia

A cada parada que Edward Snowden faz tentando escapar de autoridades americanas, abre uma potencial frente de tensões diplomáticas com os Estados Unidos.

Ex-funcionário da CIA - onde trabalhou como técnico em segurança digital- Snowden delatou um sistema secreto de monitoramento de informações pessoais nos quais agentes da Agência Nacional de Segurança americana (NSA, na sigla em inglês) teriam acesso direto a servidores de nove grandes empresas de internet, incluindo Google, Microsoft, Facebook, Yahoo, Skype e Apple.

Para escapar de um processo, no início de maio Snowden fugiu do Havaí, onde morava, para Hong Kong - de onde teria denunciado o esquema de espionagem para o jornal britânico The Guardian e o americano Washington Post.

Há alguns dias, o ex-funcionário da CIA permitiu que o Guardian revelasse sua identidade, o que permitiu que uma investigação criminal fosse aberta contra ele na Justiça americana.

Os Estados Unidos oficializaram, então, um pedido de extradição contra Snowden, mas ele conseguiu viajar para Moscou na manhã de domingo e, nesta segunda-feira, o chanceler equatoriano Ricardo Patiño confirmou que teria pedido asilo a seu país.

Trajeto

Ainda não está claro quais serão as consequências das viagens do técnico em segurança para as relações diplomáticas entre os EUA e a China, a Rússia e o Equador.

De acordo com analistas, Hong Kong permitiu que Snowden deixasse seu território aproveitando uma brecha técnica da formulação do pedido de extradição. A solicitação foi feita sem que um mandado de captura internacional fosse entregue à Interpol.

Autoridades de Hong Kong pediram a Washington mais detalhes sobre as acusações contra Snowden e, nesse meio tempo, ele viajou para a Rússia.

Segundo a agência de notícias Reuters, nesta segunda-feira a Casa Branca expressou "fortes objeções" a Hong Kong e à China por deixarem Snowden escapar.

Hong Kong tem o status de Região Administrativa Especial da China desde 1997 e detém certa autonomia administrativa e econômica.

Pequim responde por sua política externa e de defesa, mas parece ter deixado para a ex-colônia britânica e seu sistema legal o ônus da decisão sobre o ex-funcionário da CIA, no que analistas interpretaram como uma tentativa de evitar o confronto direto com os EUA.

Rússia

No caso da Rússia, até a manhã desta segunda-feira, o governo não havia respondido oficialmente às pressões de Washington pela captura do americano.

"Esperamos que o governo russo olhe para todas as opções disponíveis para extraditar Snowden para os EUA, onde ele deve responder na Justiça pelos crimes dos quais é acusado", pediu Caitlin Hayden, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional americano.

As relações bilaterais entre Washington e Moscou já estão tensionadas por causa das diferenças sobre como proceder em relação ao conflito sírio.

Por isso, não é surpresa que autoridades russas tenham feito declarações indicando uma falta de disposição em colaborar nesse caso, nas quais também citaram a recente aprovação da chamada lei Magnitsky - que congela os ativos de russos acusados de violações aos direitos humanos.

"Os laços (entre os Estados Unidos e a Rússia) estão em um estágio complicado e numa fase como essa, em que um país está tomando medidas hostis em relação ao outro, porque os EUA esperariam qualquer entendimento por parte da Rússia?", disse, segundo a Reuters, Alexei Pushkov, presidente do comitê de política exterior da câmara baixa do Parlamento russo.

Equador

Aparentemente, o plano inicial de Snowden seria chegar ao Equador passando por Cuba e Venezuela.

Ele teria chegado a comprar um bilhete para o voo SU150 que sairia de Moscou para Havana nesta segunda-feira. No entanto, segundo a agência de notícias Associated Press (que atribuiu a informação a um representante da companhia aérea Aeroflot), quando o avião para Havana decolou, o assento do americano estava vazio.

No início da tarde, a agência de notícias russa Interfax divulgou que, segundo uma fonte "familiar com a situação", o ex-funcionário da CIA já teria deixado a Rússia em outro avião. A informação, porém, não foi confirmada.

Ao revelar o esquema de espionagem da NSA - para quem prestava serviços - Snowden justificou-se dizendo estar defendendo a "liberdade das pessoas em todo o mundo" e lutando contra a "opressão".

Ele alega que é um "perseguido político" e provavelmente decidiu pedir asilo ao Equador porque, embora o país tenha um tratado de extradição com os EUA, ele não se aplica no caso de perseguições políticas.

O governo do Equador mantém uma forte retórica anti-imperialista e já concedeu asilo ao criador do site WikiLeaks, Júlio Assange, que atualmente se encontra refugiado na embaixada equatoriana em Londres.

Uma eventual concessão de asilo também a Snowden azedaria ainda mais as relações bilaterais entre Quito e Washington.