Efeito eleitoral dos protestos é imprevisível, dizem analistas

  • 20 junho 2013
Torcedores protestam na arquibancada da Arena Pernambuco durante jogo Itália x Japão

A ausência de líderes entre os manifestantes que têm promovido uma onda de protestos no Brasil e a insatisfação que muitos expressam com os partidos políticos tradicionais tornam imprevisíveis os efeitos do movimento nas eleições presidenciais de 2014, segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil.

Nesse cenário, dizem, todos os políticos no poder – na Presidência ou nos Estados e municípios onde ocorrem manifestações – tendem a sofrer desgastes. Eles avaliam que é cedo, porém, para saber se eventuais lideranças que venham a emergir dos protestos ou políticos fora do poder, como a presidenciável Marina Silva, conseguirão canalizar as frustrações em seu favor na próxima votação.

Segundo o Datafolha, 84% das pessoas que foram ao protesto em São Paulo na segunda-feira não têm preferência partidária. A postura parece se aplicar também aos manifestantes nas outras cidades, onde tanto a petista Dilma Rousseff quanto congressistas, governadores e prefeitos de outros partidos (da base aliada ou oposição) têm sido hostilizados.

Mais ainda: o movimento, segundo analistas, tem no apartidarismo e na crítica ao sistema político vigente um de seus principais pilares. Alguns militantes de partidos esquerdistas foram forçados a recolher suas bandeiras nos atos, e muitos participantes têm rejeitado acenos de políticos e veículos jornalísticos simpáticos à oposição que, segundo eles, estariam tentando agregar ao movimento bandeiras contra o PT, como a punição aos réus do mensalão.

Neutralidade e elogios

À medida que os protestos ganhavam corpo pelo país, os prováveis candidatos à próxima eleição presidencial passaram a tratá-lo de forma neutra ou até elogiosa.

Dilma disse que "a grandeza das manifestações de ontem (segunda-feira) comprova a energia da nossa democracia, a força da voz da rua, o civismo da nossa população".

Para o senador Aécio Neves (PSDB-MG), o movimento "é um alerta para todos os governantes de todos os níveis".

O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), que após os primeiros protestos em São Paulo defendeu que autoridades garantissem o direito de ir e vir dos moradores afetados, anunciou na terça-feira a redução do preço do ônibus na região metropolitana do Recife. O gesto ocorreu a dois dias de um protesto agendado na cidade.

Na quarta-feira, o governador paulista, Geraldo Alckmin (PSDB), e o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), também baixaram a tarifa do transporte público na capital do Estado, que voltou a R$ 3. O aumento também foi revogado no Rio.

"Os políticos são seres que se dedicam à sua sobrevivência permanente e não vão se confrontar com um movimento que leva cem mil pessoas às ruas", diz Marco Aurélio Nogueira, professor de ciência política da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Apesar da postura, segundo ele, as manifestações desgastaram os líderes no poder. Para Nogueira e os outros analistas entrevistados pela BBC Brasil, dentre os atuais presidenciáveis, somente a ex-senadora Marina Silva talvez possa se beneficiar das manifestações.

Marina gravou recentemente um vídeo em que diz ter antevisto a eclosão dos protestos. "Sempre dizia que era um erro tratar esses movimentos como se fossem movimentos virtuais na internet e dizia, em várias palestras, que era só questão de tempo para que transbordassem do virtual para o presencial".

Segundo ela, as pessoas que participam das manifestações "não querem ser apenas espectadoras: querem ser mobilizadoras, protagonistas dos processos de transformação".

Horizontalidade

O partido que Marina tenta criar para concorrer às próximas eleições, a Rede Sustentabilidade, diz se ancorar em algumas das demandas dos manifestantes, como maior participação da sociedade nas decisões políticas ("maior horizontalidade").

A defesa do meio ambiente e da sustentabilidade, porém, tidas como grandes bandeiras de Marina, não figuram entre as principais reivindicações dos movimentos nas ruas.

Para Francisco Teixeira da Silva, professor de história moderna e contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ainda que possa vir a ser favorecida pelas manifestações, Marina não tem conseguido dialogar com o movimento. "É notório que ela não sabe fazê-lo."

Teixeira afirma que, com o início de negociações entre governantes e manifestantes, "é muito possível que se formem líderes expressivos e exteriores a partidos atuais".

Sem líderes

Porém, para o professor de ciência política da Universidade de Brasília David Fleischer, não há sinais de que o movimento se permitirá ser guiado por líderes. "Eles não seguem liderança, são movimentos que podem ser considerados anárquicos."

Ele rejeita comparações entre a mobilização atual e o movimento dos caras-pintadas, em 1992, que viu a ascensão do hoje senador Lindbergh Farias (PT-RJ). O movimento, que buscava o impeachment do presidente Fernando Collor, era liderado pela UNE (União Nacional dos Estudantes), então presidida por Lindbergh.

Já a principal organização por trás das atuais manifestações, o Movimento Passe Livre, não tem qualquer hierarquia.

Para Marco Aurélio Nogueira, da Unesp, embora expliquem a grande adesão ao movimento, a ausência de líderes ou partidos políticos por trás das manifestações poderá dificultar seu sucesso.

"Uma hora alguém tem que colocar o guizo no gato, transformar a agitação em decisão política, em lei." Segundo ele, se o movimento continuar a rechaçar os partidos, "poderá abrir espaço para o surgimento de um salvador da pátria".

E num momento em que Dilma vê sua popularidade cair e, segundo o professor, enfrenta uma resistência silenciosa no próprio PT, o partido poderá resgatar seu principal líder para fazer frente ao cenário desfavorável: o ex-presidente Lula.

Atento aos desdobramentos, Lula disse no Facebook que "ninguém em sã consciência pode ser contra manifestações da sociedade civil porque a democracia não é um pacto de silêncio, mas sim a sociedade em movimentação em busca de novas conquistas".

E na terça-feira, em mais um sinal do poder que ainda exerce no governo, o ex-presidente se encontrou com Dilma para aconselhá-la sobre como responder às ações.

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