Rita Santos, a ‘baiana do acarajé’ que venceu a Fifa

  • 20 junho 2013
A Fifa permitiu que seis baianas, apoiadas por uma equipe que totaliza mais de 20 pessoas, entre ajudantes e operadoras de caixa, vendessem acarajé no interior do estádio

Antes mesmo de conhecer o resultado do jogo entre Nigéria e Uruguai, nesta quinta-feira, o primeiro da Copa das Confederações na Arena Fonte Nova, em Salvador, a carioca Rita Santos, de 56 anos, já sabe de quem é a vitória.

A conquista é dela mesma: após oito meses de reivindicação balizada por amplo apoio popular, especialmente nas redes sociais, Rita convenceu a Fifa a franquear às baianas que vendem acarajé o acesso ao interior do estádio Fonte Nova, em Salvador, para a Copa das Confederações.

A carioca, radicada na capital baiana há mais de duas décadas, é presidente da ABAM, Associação das Baianas de Acarajé, Mingaus, Receptivos e Similares do Estado da Bahia.

A queda de braço entre Rita e a entidade esportiva começou em outubro do ano passado.

"Estava no aeroporto do Rio de Janeiro quando um jornalista de Salvador me perguntou se as baianas haviam sido contempladas na praça de alimentação do estádio. Fiquei atônita e disse que não", afirma ela à BBC Brasil.

A partir do telefonema, Rita mobilizou-se a favor de uma tradição que há décadas se confunde com a própria história do Fonte Nova: a venda de acarajés por baianas no interior do estádio.

"Após a reinauguração, baianas que há 60 anos trabalham no local não teriam mais de onde tirar seu sustento", afirma.

Para reverter a decisão da Fifa em prol de sua comunidade, ela conversou com políticos e lideranças locais, além de recorrer às redes sociais.

Rita conseguiu acesso ao Fonte Nova para vender acarajé

Mas o ponto de inflexão ocorreu ao ser contatada pela equipe brasileira da Change, uma plataforma de petições virtuais sediada nos Estados Unidos e internacionalmente conhecida por dar amplitude aos mais diferentes tipos de causas, desde a fabricação de sutiãs para mulheres mastectomizadas ao reconhecimento da Palestina como estado-membro da ONU.

Juntos, decidiram lançar um abaixo-assinado online sobre o pleito. À reivindicação na web, seguiram-se inúmeras reuniões táticas para angariar maior apoio popular.

A investida deu certo. Em abril deste ano, durante a inauguração oficial do Fonte Nova, que contou com a presença de grandes figurões da política nacional, Santos e outras 80 baianas distribuíram gratuitamente acarajés nas imediações do estádio e entregaram a petição assinada por mais de 17 mil pessoas a um assessor próximo da presidente Dilma Rousseff, também presente no evento.

No início de junho, veio a vitória. A Fifa permitiu que seis baianas, apoiadas por uma equipe que totaliza mais de 20 pessoas, entre ajudantes e operadoras de caixa, vendessem acarajé no interior do estádio.

"O perfil ativista de Rita, que sempre demonstrou muita garra, certamente foi um fator preponderante para o sucesso do pleito", afirmou Lucas Pretti, coordenador de campanhas da Change no Brasil.

Rita, entretanto, quer mais. A Prefeitura de Salvador ainda não permitiu a venda de acarajé pelas baianas nas imediações do estádio.

"Queríamos a autorização para que dez de nós pudessem vender acarajé do lado de fora", diz ela.

"Além disso, ainda não sabemos se poderemos vender dentro do Fonte Nova durante a Copa de 2014".

Garra

Amigos e familiares de Rita dizem não ter se surpreendido com as inúmeras noites passadas em claro durante a batalha pelo acesso das baianas ao Fonte Nova.

"Minha mãe sempre correu atrás do que quis. Antes de se tornar presidente da associação das baianas, ela vendia acarajés na praia", diz Ana Caroline.

Rita também é mãe de outros cinco filhos, um deles o atual goleiro do Flamengo, Felipe.

Ela chegou a Salvador em 1986, acompanhando o marido, Jorge, militar da Aeronáutica e controlador de tráfego aéreo, que havia sido transferido do Rio de Janeiro em meio à inauguração do aeroporto internacional da capital baiana.

"Ele veio dar cursos de capacitação para os jovens recrutas e por aqui ficou", relembra.

Rita, que pediu demissão do banco em que trabalhava como gerente para viver na cidade, diz acreditar que seu destino "já estava traçado" na terra enaltecida pelo escritor Jorge Amado.

"Quando fiquei noiva, ganhei de presente da minha sogra dois quadros. Um de um preto velho e o outro de uma baiana. O cenário em que essa baiana foi pintada é justamente onde hoje se localiza a nossa sede, o Memorial das Baianas", conta.

"Foi amor à primeira vista", acrescenta.

Acarajé

Mas a relação de amor de Rita com os bolinhos fritos de feijão-fradinho é mais recente. Foi em 2001 que ela aprendeu a fazer os quitutes para logo depois aderir à associação da qual se tornaria presidente oito anos depois.

À frente da ABAM desde 2009, a carioca-baiana reelegeu-se por chapa única em abril para um novo mandato que termina em 2017.

"Sempre gostei muito de cozinhar. Minha mãe e meu pai vendiam comida para os operários que construíram a estação de metrô do Catete (na zona sul do Rio de Janeiro). Mas foi num samba de roda em um terreiro que eu me apaixonei pelo acarajé e pela associação. No dia seguinte, já estava vestida lá como baiana."

Além de defender os interesses da associação, Rita também divide seu tempo entre dar aulas de capacitação para novas baianas e o curso de Administração de Empresas à distância.

Os amigos não duvidam de que ela dará conta de tudo.

"Rita não para e está sempre disposta a defender a nossa classe para que nossas tradições passem para nossos filhos e netos", diz Angelice Batista dos Santos, baiana e diretora estadual da associação.

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