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'Repressão brutal' da PM em SP foi 'desvio perigoso', diz Repórteres Sem Fronteiras

Atualizado em  14 de junho, 2013 - 11:32 (Brasília) 14:32 GMT
Polícia lançou gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral contra manifestantes (AP)

Polícia lançou gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral contra manifestantes

A "repressão brutal" de jornalistas nos recentes protestos em São Paulo contra o aumento das tarifas do transporte público representa, na avaliação da ONG Repórteres Sem Fronteiras, "um desvio repressivo perigoso" e também uma ameaça à liberdade de informação.

A Polícia Militar reagiu às manifestação desta quinta-feira no centro da capital paulista com bombas de efeito moral e balas de borracha. Vários jornalistas, cinegrafistas e fotógrafos foram atingidos pelos disparos ou levaram golpes de cassetete; alguns deles chegaram a ser presos.

"Vamos pedir à Secretaria dos Direitos Humanos e às autoridades brasileiras para realizarem uma investigação sobre as violências cometidas", disse à BBC Brasil Benoît Hervieu, responsável pelas Américas da Repórteres Sem Fronteiras, com sede em Paris, acrescentando que as autoridades precisarão explicar como a polícia chegou ao ponto de "realizar uma repressão tão brutal".

"A prefeitura e o governo de São Paulo e também o comando da Polícia Militar deverão prestar contas em relação às ordens transmitidas aos policiais", diz o porta-voz. "A Constituição brasileira está sendo desrespeitada. Além da brutalidade dos policiais, as acusações contra os jornalistas não têm fundamento."

A Secretaria de Segurança Pública do Estado anunciou a abertura de uma investigação para esclarecer as alegações de abuso policial na manifestação, e tanto o prefeito, Fernando Haddad, quanto o governador, Geraldo Alckmin, pediram uma apuração rigorosa dos fatos.

Prisões 'escandalosas'

Em um comunicado que seria divulgado nesta tarde, a ONG, que defende a liberdade de imprensa e luta contra a repressão a jornalistas, também pede a libertação do jornalista Pedro Ribeiro Nogueira, do Portal Aprendiz, detido sob a acusação de "formação de quadrilha".

"Essa acusação de formação de quadrilha é uma loucura", diz Hervieu, ressaltando que na França não ocorrem prisões de jornalistas que estão trabalhando na cobertura de manifestações nas ruas.

Repórteres como Marina Novaes, do portal Terra, Leandro Machado, do jornal Folha de S. Paulo, e Piero Locatelli, da revista Carta Capital, foram presos enquanto faziam a cobertura das manifestações e liberados depois.

"Na França, houve um trabalho de formação dos policiais, nos anos 80, sobre como lidar com o trabalho da imprensa durante protestos nas ruas. Os policiais recebem a orientação de respeitar o trabalho dos jornalistas."

Benoît Hervieu, responsável do setor de Américas da Repórteres sem Fronteiras

Para Hervieu, essas prisões de jornalistas em São Paulo são "particularmente escandalosas".

"Na França, houve um trabalho de formação dos policiais, nos anos 80, sobre como lidar com o trabalho da imprensa durante protestos nas ruas. Os policiais recebem a orientação de respeitar o trabalho dos jornalistas", afirma Hervieu.

"No Brasil, a violência da Polícia Militar é algo mais sistemático e é uma violação à liberdade de informação. Isso lembra a época do AI-5 (Ato Institucional número 5 da ditadura militar, que instituiu a censura)", embora não sejam os mesmos métodos, diz o representante da ONG.

"No Brasil, falta formação para os policiais. Falta sensibilização em relação ao princípio democrático de se manifestar", afirma Hervieu.

Outro lado

Em declaração publicada pela Folha de S. Paulo, o Secretário de Segurança Pública do Estado, Fernando Grella, lamentou os episódios de violência policial na noite desta quinta-feira e afirmou que eles serão apurados.

Grella qualificou de “inadmissível” a violência contra jornalistas. “Se ficar caracterizado que o ataque foi deliberado, vai haver responsabilização.”

O pedido de investigação foi enviado à Corregedoria da Polícia Militar.

O prefeito Haddad destacou que, nos protestos desta quinta-feira, “a imagem que ficou foi a da violência policial” e disse ser correta a decisão de Grella de abrir “um inquérito para apuração rigorosa dos fatos”.

Por sua vez, o governador Alckmin disse que o governo "não tem nenhum compromisso com erro, de nenhum lado". "O possível abuso policial já está sendo apurado, e será com rigor", disse.

De acordo com o jornal O Estado de S. Paulo, na quinta-feira a Polícia Militar de São Paulo não se pronunciou sobre a conduta dos policiais durante o protesto, mas adiantou também que as denúncias de abusos serão investigadas.

Contatada pela BBC nesta sexta-feira, a Polícia Militar do Estado ainda não havia comentado sobre o assunto até o fechamento desta reportagem.

*Com colaboração da redação da BBC Brasil em São Paulo

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