A era do dinheiro barato está acabando?

  • 13 junho 2013

O nervosismo dos mercados globais dá sinais concretos de que chegou com força aos emergentes nesta semana.

Um índice que compila a média de desempenho das bolsas de valores nesses países registrou queda de 10% desde seu pico, em maio. A bolsa brasileira já caiu 20% no acumulado do ano.

A fuga de dólares vem se refletindo na cotação das moedas dos emergentes ante a divisa americana.

A rúpia indiana, por exemplo, caiu nesta semana para o menor valor do ano frente ao dólar. Já as moedas sul-africana (rand) e brasileira (real) também registraram forte desvalorização em relação à divisa dos Estados Unidos, ao atingirem a cotação mais baixa em quatro anos, patamar semelhante ao que estavam durante a crise financeira de 2008.

Por sua vez, os títulos do governo americano não estão em seus melhores dias. Na semana passada, investidores se desfizeram de um valor recorde de títulos mundiais, dos quais dois terços provinham dos Estados Unidos. Os emergentes também não ficaram imunes à essa venda.

Impacto

Mas qual é a conexão entre a venda dos títulos do governo americano e dos emergentes?

A resposta está no nervosismo dos mercados sobre um possível fim da era do dinheiro barato.

Nesta semana, o impacto está sendo mais perceptível nas economias emergentes, que vêm verificando uma forte fuga de capitais.

Após a crise financeira de 2008, esses países receberam uma enxurrada de dólares vindos dos mercados desenvolvidos.

Por trás desse movimento, havia investidores sedentos por retornos mais altos para suas aplicações.

Isso porque, em um cenário de juros próximo a zero, com a Europa em recessão e o excesso de liquidez nos Estados Unidos, decorrência das medidas de estímulo monetário tomadas pelo governo americano, eles buscaram mercados onde pudessem obter um melhor rendimento para seu dinheiro.

O alvo escolhido foram os emergentes, que sentiram menos os efeitos da crise financeira e mantinham boas perspectivas de crescimento, além de oferecerem taxas de juros mais altas.

Naquele momento, algumas nações menos desenvolvidas, como o Brasil, também se beneficiaram de um aumento no preço internacional das commodities, atraindo mais dólares para suas economias.

Como resultado da combinação de tais fatores, as moedas dos emergentes apresentaram forte valorização.

Agora a situação é diferente. O mercado sabia que a era do dinheiro barato não duraria para sempre.

Mas a forma como a torneira de dinheiro “vai fechar” dependerá de como os bancos centrais dos principais países do mundo vão abdicar da política de afrouxamento monetário.

Perigo

Os investidores descreveram a fuga de dólares das economias emergentes como “violenta”. O banco central da Indonésia, assim como o do Brasil, viu-se obrigado a agir rapidamente para tentar estabilizar o fluxo de capitais.

Na semana passada, o governo brasileiro, por exemplo, zerou a alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para investimentos em renda fixa.

Na última quarta-feira, foi a vez de eliminar o tributo para as operações no mercado futuro do dólar (derivativos). O objetivo era conter a valorização da moeda americana em relação ao real.

O problema é que quando muito dinheiro entra e sai de uma economia, ela tende a se desestabilizar – e os resultados são amplamente conhecidos.

As circunstâncias guardam semelhança ao que resultou na crise asiática de 1998. Naquele ano, houve uma reviravolta no fluxo de capitais de curto prazo, conhecido como “dinheiro quente”, na Tailândia, o que produziu um efeito-dominó pelo Sudeste Asiático e pelo mundo emergente.

Houve uma fuga de dólares não só da Ásia, quanto da Rússia, Turquia e América Latina, embora à época tais mercados não estivessem tão interligados quanto atualmente.

Agora, há o temor de que a mesma situação aconteça novamente. Em outras palavras: a quantidade extraordinária de dinheiro barato no mundo pode transformar a “Grande Recessão” na “Grande Reversão”.

Desde a crise financeira de 2008, bancos centrais injetaram mais de US$ 12 trilhões (R$ 26 trilhões) na economia mundial.

Para se ter uma ideia de quanto esse valor representa em escala global, há no mundo apenas 15 países cujo Produto Interno Bruto (PIB), ou a soma de riquezas produzidas por uma nação, supera US$ 1 trilhão (R$ 2,15 trilhões).

A questão é saber se os emergentes estão, dessa vez, mais preparados para lidar com essa fuga em massa de capitais.

Alguns deles realmente estão – ampliaram suas reservas internacionais que podem ser usadas para conter a valorização excessiva do dólar se necessário. Além disso, a regulação financeira melhorou, um resultado das lições aprendidas durante a crise asiática.

Fim do dinheiro barato?

Não há indicações concretas de que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) planeje subir os juros nos próximos meses, nem de que o Banco do Japão dê um novo empurrão à economia do país.

O Banco Central europeu recentemente cortou as taxas de juros para a mínima histórica e inúmeros integrantes do Banco da Inglaterra votaram por maiores injeções de dinheiro na economia.

Mas há uma preocupação crescente de que os Estados Unidos vão começar a fechar a torneira de dinheiro barato pela qual vinham irrigando a economia mundial.

Nessa hipótese, os bancos centrais estariam contemplando o que já chamam de “estratégias de saída”.

A “saída” refere-se à reversão, por parte dos bancos centrais, dos estímulos monetários, ao se desfazerem de trilhões de ativos em dólar (títulos de governo e outros investimentos) de suas balanças de pagamento.

No auge da crise financeira, as autoridades monetárias compraram tais ativos para injetarem dinheiro em suas economias.

Além disso, as taxas de juros subiriam de 0% para níveis baixos, nas grande economias desenvolvidas.

Uma indicação de que os investidores estão preocupados é a elevação na taxa de rendimento dos títulos do governo americano.

Essa é a taxa de juros pela qual o governo americano remunera o dinheiro que pega emprestado, que, atualmente, está próximo a zero, em parte porque o Fed é uma grande comprador no mercado.

Na prática, os juros vinham sendo mantidos mais baixos para estimular a economia.

Mas, agora, a taxa de retorno para títulos do governo americano com vencimento em dez anos aumentou de menos de 2% para cerca de 2,3% nas últimas semanas.

Ainda que a taxa ainda esteja baixa, reflete uma perspectiva de que os juros vão subir no futuro. Em outras palavras, trata-se de uma aposta de que a era do dinheiro a juro zero acabará.

Saída

Para viabilizar sua estratégia de saída, um banco central deve subir os juros e vender seus ativos (títulos de governo e outros investimentos) para reabsorver o dinheiro que a própria autoridade monetária irrigou a economia.

Por exemplo, o Fed (banco central americano) pode decidir subir os juros e gradualmente vender os títulos de dívida do governo americano que possui.

Mas, a partir do momento em que o Fed começar a vender os títulos, aumenta a oferta desse tipo de investimento, o que tende a puxar o preço para baixo.

Como resultado, tanto os títulos nas mãos da autoridade monetária quanto aqueles detidos por investidores podem valer menos.

É por essa razão que alguns investidores querem se desfazer desses títulos custe o que custar, o que se refletiu na venda maciça da semana passada.

É claro que, por outro lado, os bancos centrais não querem desestabilizar os mercados, e devem agir moderamente e especificando qual será sua “estratégia de saída”.

Mas há aqueles que se preocupam em como as autoridades monetárias vão “tomar de volta” os US$ 12 trilhões (R$ 26 trilhões), equivalente a um sexto do PIB mundial, que injetaram na economia.

Cinco anos depois da crise financeira de 2008, talvez não cause tanta surpresa que os investidores acreditem que os bancos centrais começariam a contemplar como realizaram suas “estratégias de saída”.

Mas, em um cenário em que a economia mundial ainda não se recuperou, com elevada taxa de desemprego nos países desenvolvidos, a última coisa que as autoridades monetárias querem é desestabilizar novamente os mercados e, na pior das hipóteses, gerarem uma nova crise.

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