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Lembranças de 1950 e pressão por vitória assombram Seleção

Atualizado em  11 de junho, 2013 - 08:44 (Brasília) 11:44 GMT
Schiaffino chuta por cima do goleiro Barbosa e marca o primeiro gol do Uruguai em 16 de julho de 1950 (AFP/Getty)

Schiaffino chuta por cima do goleiro Barbosa em 16 de julho de 1950

Um dos meus bens mais valiosos é uma cópia autografada da autobiografia de Zizinho, ídolo do jovem Pelé e um dos maiores jogadores que o Brasil já teve.

Se eu pudesse voltar no tempo e tivesse a chance de assistir a algum jogador do passado, o "Mestre Ziza" seria provavelmente o primeiro da lista. Mas o lugar dele no panteão foi, sem dúvida, abalado por um jogo – ou, para ser mais preciso, pelos últimos 25 minutos de um jogo.

"Ainda hoje os pais me param na rua", escreveu, "e dizem a seus filhos: 'Este é o Zizinho, que jogou na Copa de 50'. Joguei 19 anos, tenho alguns títulos e sou lembrado como os demais jogadores daquela campanha como um perdedor."

Aquela derrota por 2 a 1 para o Uruguai deixou cicatrizes profundas. Cerca de 15 anos atrás, tive a sorte de conhecer, além de Zizinho, o seu também talentoso companheiro de 1950 Jair Rosa Pinto e Flávio Costa, o técnico daquela Seleção.

Quase meio século depois, era evidente que os três nunca conseguiram esquecer aquela tarde fatídica. Com diferentes níveis de amargura, eles carregavam o 16 de julho de 1950 com eles desde então.

Tragédia ou farsa?

Sem dúvida, chegou a hora de o Brasil revisitar aquela Copa do Mundo. Certamente, há muito o que festejar. O torneio descentralizou o esporte - estendendo-se ao Recife no Nordeste e a Curitiba e Porto Alegre no Sul, abrindo caminho para um campeonato genuinamente nacional que seria lançado 21 anos depois.

E, em campo, o Brasil pode não ter conquistado o troféu, mas consolidou e aprimorou a impressão positiva deixada na Copa de 1938, e jogou um futebol de uma beleza sinuosa, que os visitantes europeus nunca haviam visto.

Mas as conotações são sempre negativas. Alguns meses atrás, tive a chance de entrevistar o ministro do Esporte, Aldo Rebelo. Quando ele se referiu à Copa de 1950 como "uma tragédia", eu me lembrei de Marx, que estudei muitos anos atrás. "Isso significa", perguntei, "que a Copa de 2014 será uma farsa?"

Como era de se esperar de qualquer ministro do Partido Comunista do Brasil, Rebelo reconheceu a citação ("A história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa"). Ele sorriu. "De jeito nenhum", afirmou.

Bem, tivemos alguns elementos de farsa no vaivém da ameaça de suspensão do jogo contra a Inglaterra no Maracanã. E nas cenas de duas semanas atrás, em Salvador, na Arena Fonte Nova, onde parte da cobertura cedeu por causa das chuvas e, como crianças à beira do mar, funcionários usaram pequenos baldes para remover o excesso de água.

Mas o objetivo da Copa das Confederações é resolver os problemas técnicos e de organização.

E quanto à atuação do Brasil em campo, Rebelo certamente tem razão. Há muito pouca chance de a campanha dos anfitriões ser considerada uma farsa. Pelo contrário, será julgada como um triunfo (vencendo) ou um desastre (no caso de qualquer outro resultado).

Antes de 1950, Uruguai e Itália conseguiram vencer a Copa do Mundo em casa. Desde então, o feito foi repetido por Inglaterra, Alemanha, Argentina e França. O Brasil pode ter levado o troféu de cinco países em quatro continentes, mas agora a segunda chance de vencer na frente de seus torcedores chega com uma enorme pressão.

Exposição

Pouco mais de 60 anos atrás, a Seleção Brasileira ficava concentrada na então isolada região da Barra da Tijuca, no Rio. Zizinho e Jair argumentavam que tudo começou a dar errado antes da final, quando eles se mudaram para o estádio de São Januário.

Treino da Seleção Brasileira antes do amistoso de domingo (AFP/Getty)

Seleção brasileira de 2014 terá menos privacidade e isolamento que a de 1950

No meio de uma campanha eleitoral, o quartel-general da equipe se tornou o centro da política nacional. Candidatos foram fazer visitas, havia muitas mãos para apertar e discursos para ouvir e, diziam os dois antigos jogadores, o foco da equipe foi afetado.

"A nossa distração na concentração era fazer balão", escreveu Zizinho em seu livro de 1985, "pois era o mês das festas juninas... Nos dias que antecederam a partida contra o Uruguai, havia tanta gente dentro do nosso dormitório que não tínhamos local para estender umas folhas no chão para fazer um balão…. O Castilho (goleiro reserva) ainda hoje reclama que perdemos a Copa porque não fizemos o balão. Ele tem razão. Se tivéssemos tido um espaço para fazer um, era porque nós realmente estávamos concentrados."

Os jogadores de hoje, é claro, não têm escolha. Eles vão passar o mês da Copa do Mundo em um aquário, com até mesmo os treinamentos sendo transmitidos pela televisão e analisados pela imprensa 24 horas por dia.

E se Zizinho e companhia tinham uma nação de cerca de 50 milhões exigindo vitória, esse número multiplicado por quatro estará esperando pelo sucesso em 2014. Força mental será fundamental. Considerando a velocidade e a crueldade com que os torcedores brasileiros podem se voltar contra a Seleção, muito poucas equipes na história das Copas do Mundo enfrentaram o tipo de pressão que os anfitriões vão encarar no ano que vem.

E isso em um momento confuso para o futebol brasileiro. Há o problema óbvio da entressafra: a geração de Kaká e Ronaldinho Gaúcho está em declínio enquanto a de Neymar e Oscar ainda está se estabelecendo.

Há também preocupações mais profundas e conceituais. O futebol brasileiro dos últimos anos, dominado pelo contra-ataque, é considerado por muitos obsoleto, ultrapassado pelo estilo baseado na posse de bola da Espanha. E de qualquer forma, com o Brasil jogando em casa, poucos adversários vão dar à equipe de Scolari a chance de um contra-ataque.

Mas o Brasil pode ter a equipe perfeita e as táticas mais avançadas, e ainda assim não vencer a Copa do Mundo. O torneio pode ser uma competição cruel. Não é preciso necessariamente um jogo ruim, ou mesmo metade de um jogo, para acabar com o sonho.

Alguns minutos ruins podem ser o suficiente – como aconteceu com a equipe de Dunga na última Copa e com Zizinho e companhia em 1950.

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