Copa no Brasil provoca misto de empolgação e ceticismo na 4ª divisão

  • 10 junho 2013
Jogadores do Paragominas (Foto: Daniel Gallas/BBC Brasil)
Realidade para a maioria dos jogadores da última divisão é de salários baixos e insegurança

A um ano do começo da Copa do Mundo no Brasil, os jogadores, técnicos e dirigentes que atuam na quarta e última divisão do Campeonato Brasileiro estão animados com a perspectiva de o país sediar o maior torneio de futebol do mundo.

No entanto, depois de tantos investimentos em infraestrutura e mudanças, eles afirmam que ainda não perceberam diferenças nas suas vidas. Para a maioria, salários baixos, pouco público nos estádios, insegurança no emprego são a realidade que sempre viveram, e que não mudou com a proximidade do torneio bilionário a ser realizado no Brasil.

No fim de semana, a BBC Brasil conversou com jogadores que atuam nas na Série D do Campeonato Brasileiro, em jogos do grupo A1, que são realizados no Norte do Brasil.

"Eu gostaria que (a Copa do Mundo) mudasse as coisas. Muita gente acha que a Copa do Mundo não vai trazer benefícios para o país. Eu acho que vai. Só que eu queria que chegasse até a gente (na série D)", afirma Cacaio, técnico do Paragominas, e que atuou como jogador e treinador em todas as séries do Brasileirão.

"Mas eu acho que não vai chegar. Eu acho que essa Copa do Mundo será boa para os Estados que tiverem seus estádios renovados e para os clubes do grande centro – no caso, o Sul e o Sudeste."

Um problema importante é a falta de público nos jogos da Série D. A primeira rodada da quarta divisão, realizada no primeiro fim de semana do mês, teve média de público de 361 pessoas nos estádios. No Norte do Brasil, o problema ainda é mais acentuado, e para quem trabalha nesta região não pode ser resolvido nem com a construção de novos estádios para a Copa.

"Pegue o exemplo lá de Manaus, onde estão fazendo um estádio de 40 mil a 50 mil pessoas (para a Copa). Se você olhar os jogos regionais deles lá, o público é de três mil, quatro mil pessoas no campo", diz o técnico do Paragominas.

O lateral direito do Paragominas, Magno, reclama que apenas a Série A está se beneficiando das mudanças recentes no futebol brasileiro.

"Eu queria que todos clubes do Brasil – não só os da Série A – tivessem mais apoio, mais estrutura, porque consequentemente nós teríamos uma condição melhor de trabalho. Com a vinda da Copa do Mundo, muitas melhorias e obras estão por vir", afirma.

"Mas o que eu queria que acontecesse é muito difícil acontecer. As pessoas que estão envolvidas nisso estão muito voltadas para a Série A. Consequentemente eles estão ganhando estádios novos, novas sedes, demoliram seus estádios antigos e fizeram outros estádios, e isso é muito importante. O Brasil estava precisando disso e chegou em boa hora. Mas se pudessem fazer isso em todas as capitais, era para se fazer. Mas infelizmente não aconteceu."

Salários e calendário

Jogadores do Paragominas (Foto: Daniel Gallas/BBC Brasil)
Para alguns jogadores, Copa só será boa 'para os clubes do grande centro'

Outro problema constante para os jogadores de futebol na Série D são os salários pouco competitivos. A folha salarial mensal do Genus, representante de Rondônia, é de R$ 50 mil. A quantia é um décimo do valor pago mensalmente a apenas um jogador de ponta em um dos clubes de ponta da Série A, como Grêmio ou Cruzeiro, que nos últimos anos têm conseguido pagar salários melhores e atrair craques internacionais.

"Nós precisamos ter alguma ajuda, algum tipo de cota mínima junto à CBF, para despesas, sobretudo com folha de pagamento", diz Evaldo Silva, que é fundador do Genus. "Aqui na periferia do futebol brasileiro, o dirigente tira dinheiro do bolso para arcar com isso. Aqui é preciso fazer por amor, não por dinheiro."

De acordo com os jogadores do Genus, o salário dos atletas do clube pode chegar a R$ 6 mil mensais, mas há quem ganhe até R$ 1 mil – menos de dois salários mínimos.

Para jogadores, os baixos salários são agravados ainda mais pelo difícil calendário que enfrentam. Com o final do torneio estadual, muitos jogadores que atuam em clubes que não estão disputando a série A, B, C ou D ficam sem emprego ou perspectivas.

O zagueiro Vagner Leonardelli, de 28 anos, já atuou na seleção brasileira sub-18, ao lado de jogadores como Diego Tardelli e Renan, hoje na Série A. Como zagueiro do Genus, Vagner estava desempregado até terça-feira passada, quando recebeu a notícia de que seu clube havia herdado a vaga na Série D, por desistência de outros dois clubes que não tinham dinheiro.

Vagner já estava se preparando para viajar ao Sudeste do Brasil, em busca de outro trabalho. Para os momentos de desemprego, ele conta com a renda de uma Lan House que abriu com o irmão em Porto Velho.

Mais organizado

O atacante Aleílson, jogador que já passou por todas as divisões do futebol brasileiro e agora está na Série D, é mais otimista em relação à Copa do Mundo. Para ele, nos últimos anos o Brasil está mais organizado, até mesmo nas divisões inferiores do campeonato.

Ele acredita que desde 2011, quando a Confederação Brasileira de Futebol passou a custear passagens e traslado para todos os clubes da Série D, as divisões inferiores começaram a ter estrutura melhor para trabalhar.

No entanto, ele acredita que o futebol brasileiro ainda precisa de estádios melhores fora do eixo Sul-Sudeste, e mesmo os novos que foram construídos precisam ser mantidos, para que o futebol brasileiro continue atraindo torcedores.

"Precisamos manter os estádios quando a Copa do Mundo acabar. Foi usado o dinheiro da população nisso. Se forem manter os estádios do jeito que estão, será muito bom para nós, para valorizar o futebol e o nosso Brasil", afirma.

Aleílson foi artilheiro do estadual paraense e teve propostas para atuar em clubes da Série C este ano, mas conseguiu um bom acordo financeiro com o Paragominas e preferiu disputar a Série D, ganhando um salário melhor no seu atual clube.

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