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'Voltar para casa vivo se tornou um luxo', diz síria ao abandonar Damasco

Atualizado em  8 de junho, 2013 - 17:08 (Brasília) 20:08 GMT
Damasco (BBC)

Muitos acharam, erroneamente, que Damasco ficaria imune ao conflito na Síria

A repórter da BBC Lina Sinjab relata sua profunda emoção ao deixar para trás sua cidade natal, Damasco, capital da Síria - país que vive há mais de dois anos uma dura guerra civil:

"Damasco, a cidade onde eu cresci, com suas árvores de jasmim, mercados de especiarias e barazes, o rio Barada e uma história de milhares de anos.

A cidade está totalmente diferente. Cobri a Primavera Árabe desde seu começo, em março de 2011, e mantive meu amor por Damasco mesmo enquanto ela mudava diante dos meus olhos.

Todos achavam que a cidade ficaria imune à violência, que os conflitos em cidades e aldeias vizinhas não afetariam a capital.

Mas eles estavam enganados. Damasco se tornou mais um ponto de confrontos, testemunhando violência praticada pelo governo contra manifestantes pacíficos.

No início, o regime conseguiu reunir muitos simpatizantes ao redor da liderança de Bashar al-Assad. Houve dezenas de manifestações pró-governo, com slogans como "longa vida a Assad" e "Deus, Síria, Bashar apenas".

Depois, os cantos mudaram para: "Ou Assad ou ninguém" e "Ou Assad ou incendiaremos o país".

Hoje, são simplesmente "Incendiaremos o país".

Polarização

Para os aliados de Assad, que são principalmente do ramo alauíta (dentro do islã xiita), a sobrevivência do presidente significa a sobrevivência do próprio grupo.

A sociedade se tornou polarizada - amigos se separaram; familiares entraram em disputa, já que todos tomaram partido no conflito. A dinâmica da vida também mudou. Todos estão tentando, à sua maneira, se ajustar a uma cidade em guerra.

Lina Sinjab (dir) com seus colegas da BBC, na Síria

Lina Sinjab (dir) com seus colegas da BBC; ela cresceu em Damasco, mas decidiu deixar seu país

Voltar para casa vivo se tornou um luxo. Todos na cidade sabem que podem morrer a qualquer minuto. Ou alguém próximo pode morrer no fogo cruzado ou nos morteiros que começam a chover sobre a cidade.

Na praça Abbassien, perto dos subúrbios ao sul, é possível ver as operações militares a todo vapor. Um estádio esportivo foi convertido em base, com tanques e soldados. De lá, assisti um tanque disparar contra o distrito de Jobar, a duas ruas de onde mora a minha família.

Não sabia como me sentir. Por algum motivo, eu ri - não sei se de raiva, ou da sensação de impotência porque tantos estão morrendo e não há nada que eu possa fazer; ou de egoísmo, pela minha sorte de estar atrás do tanque e ainda poder viver.

Algum tempo atrás, percebi que não era mais capaz de chorar ou de sentir. Mas eu queria chorar a cada morte, reconquistar minha humanidade e a minha alma. Não quero ficar confortável com a morte, quero vida.

Destruição

Ao longo do conflito, visitei muitas cidades. Fui a protestos em Homs; vi jovens cristãos e ativistas alauítas visitando subúrbios de Damasco para oferecer condolências a famílias que perderam crianças, mortas por tropas pró-governo; acompanhei mulheres indo de porta em porta para ajudar pessoas traumatizadas pela guerra.

Mas mesmo pequenos gestos pacíficos eram motivo para prisão - imagine então estar na linha de frente do combate, pegando em armas para lutar contra o regime.

Douma, um subúrbio de Damasco, foi um dos primeiros lugares a protestar, de forma totalmente pacífica. Hoje, está totalmente destruído.

Os civis que continuaram lá ficaram marcados pelo conflito. Um menino de 14 anos que abandonou a escola para se tornar enfermeiro me disse que, se tivesse continuado os estudos, já estaria falando inglês fluentemente.

Ele diz que vive rodeado de sangue e ferimentos. Mas manteve-se forte. E, enquanto um avião militar o sobrevoava durante a nossa conversa, ele disse que não tinha medo da morte; pelo menos agora ele podia falar livremente.

Dar valor

"Algum tempo atrás, percebi que não era mais capaz de chorar ou de sentir. Mas eu queria chorar a cada morte, reconquistar minha humanidade e a minha alma. Não quero ficar confortável com a morte, quero vida"

Criamos maneiras de sobreviver - cozinhando, bebendo, dançando, rindo.

Fizemos piadas sobre a guerra, sobre nossos medos, criticando o governo e a oposição.

Não se passa um dia sequer sem que haja um encontro social entre amigos. É bizarro como a guerra faz você dar valor a todas as pessoas na sua vida.

Não podemos nos dar ao luxo de ficarmos tristes ou fracos, e não há alternativas senão levantar e seguir em frente.

Após um ano impedida de deixar o país, consegui meu passaporte, e era hora de ir embora. Disse adeus aos últimos amigos.

A situação em Damasco piora a cada dia. Algo dentro de cada um de nós se despede, e não sabemos se vamos voltar a nos ver.

Não sei o que acontecerá com a minha cidade e com quem permanece na Síria. Saí de Damasco com o coração e a alma partidos, deixando para trás memórias, minha vida, amizades e histórias.

Não sei quando voltarei, mas, se voltar, temo que não será para a mesma cidade onde eu cresci.

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