Universidades brasileiras buscam romper isolamento com cursos em inglês

  • 30 maio 2013
Faculdades aprovaram projetos para atrair alunos estrangeiros

Diversas iniciativas recentes vêm fazendo com que o Brasil se aproxime de um cenário acadêmico global. Bolsas de estudo no exterior do programa Ciência sem Fronteira e maior publicação de pesquisas em meios estrangeiros são algumas delas.

Mas para que o país realmente consiga romper o isolamento internacional na área de educação, o caminho, segundo especialistas, não pode ser de mão única e é preciso também atrair estudantes para as instituições brasileiras.

Com isso em mente, uma das principais estratégias de universidades, tanto públicas como particulares, vem sendo o oferecimento de cursos e disciplinas em inglês.

"O inglês é a língua franca também na educação, especialmente em áreas como administração, ciência e tecnologia, e também na comunicação entre colegas. É importante não só para atrair alunos estrangeiros, mas também para que o brasileiro aprimore o idioma e para integrar os estudantes daqui e os de fora", afirma Álvaro Bruno Cyrino, vice-diretor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresa (Ebape) da Fundação Getúlio Vargas, no Rio.

Cyrino é taxativo em relação aos que criticam aulas em inglês e as consideram uma perda de soberania. "Nesse sentido, o inglês é imperativo. Qual seria a outra opção? Esperanto? Latim? Só se for para falar sozinho."

O economista Naércio Menezes Filho, especialista em educação e professor do Insper e da FEA-USP, também vê um crescimento maior das aulas em inglês nas universidades particulares. "Nas públicas, ainda é preciso vencer uma estrutura burocrática e, especialmente nas federais, essa ideia é vista por alguns como uma forma de imperialismo", diz.

Demanda do exterior

Uma das universidades públicas que vem ultrapassando essa barreira é a Unesp, que acaba de criar um programa permanente em que 50 disciplinas da pós-graduação serão ministradas em inglês.

Há universidades brasileiras que oferece disciplinas em inglês, mas em iniciativas isoladas

"O nosso foco foi em quatro áreas em que a Unesp tem alta competência e reconhecimento internacional: ciências agrárias, energias alternativas, odontologia e literatura", explica o professor José Celso Freire Júnior, chefe da Assessoria de Relações Externas da Unesp.

Lançado em meados de maio, a iniciativa já recebeu a inscrição de dezenas de alunos estrangeiros. Ao menos 40 deles já tiveram suas matrículas confirmadas e desembarcam no Brasil em agosto, partindo de lugares distintos como o Estado americano de Nebraska e a Nigéria, na África (leia os depoimentos dos estudantes abaixo). Alunos brasileiros em busca de aprimorar o inglês também podem se inscrever nos cursos.

Segundo Freire, a expectativa é de que o programa tenha um impacto positivo no processo de internacionalização da universidade, além de atender a uma forte demanda do exterior por vagas em faculdades brasileiras. "E esse projeto também deve criar um ambiente com culturas diferentes e mais internacionalizado", afirma o professor.

Iniciativas isoladas

Além da Unesp, há outras universidades brasileiras que incluem disciplinas em outro idioma como parte permanente de suas grades. Em São Paulo, a USP, por exemplo, tem aulas em inglês na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto e na unidade de Piracicaba (Esalq).

Na pós-graduação da USP também há disciplinas em inglês, mas elas são ministradas de maneira esporádica, apenas quando há um grande número de alunos estrangeiros ou quando a disciplina é ministrada por um professor visitante estrangeiro.

O mesmo ocorre na Unicamp, onde as iniciativas são isoladas, também vinculadas a fatores como a presença de um professor de outro país.

Entre as particulares, o Insper mantém o curso de Global Management Program, que é direcionado a executivos e tem aulas somente em inglês. Na ESPM (Escola Superior de Progaganda e Marketing), há disciplinas oferecidas em inglês, tanto por professores estrangeiros como por brasileiros, nos cursos de Administração e Relações Internacionais.

Já na FGV, há cursos na pós-graduação ministrados em inglês e realizados em parcerias com instituições internacionais

"Aqui (na unidade da EBAPE-FGV, no Rio), recebemos todos os anos cerca de 50 alunos brasileiros e até 60 estrangeiros", afirma Cyrino, acrescentando que a maioria vem da Europa, de países como França e Itália.

Cyrino afirma que essa vinda de alunos estrangeiros é um fenômeno recente, que se intensificou nos últimos dois ou três anos. "E o contato dos alunos daqui com colegas que têm outras origens é extremamente importante. Incentiva a multiculturalidade e provoca uma intensa troca de experiência", diz.

"Essa internacionalização está virando padrão e um requisito para entrar no clube. É o futuro."

Outra vantagem citada por Menezes é o fato de que lidar com alunos estrangeiros muitas vezes obriga a faculdade a se atualizar e a oferecer novos currículos.

Veja alguns depoimentos de futuros alunos estrangeiros da Unesp:

Ogidan Kayode Richard, nigeriano, 25 anos

Sempre foi meu sonho conhecer o Brasil. Vou para aí em janeiro do ano que vem, mas já estou bastante ansioso. Quero aprender muito no Brasil, e não só na faculdade.

Também quero aproveitar a cultura brasileira e vou me esforçar para aprender o português.

Minha decisão de ir para o Brasil também passa pelo fato de vocês estarem em um momento muito positivo, especialmente na questão econômica. Isso me incentivou muito a decidir estudar um semestre no Brasil.

Sou formado em Bioquímica com ênfase em Biotecnologia na Universidade Federal de Tecnologia em Akure e, no Brasil, vou seguir nessa área com o curso de Biocatalisadores para a Produção de Biocombustíveis, no setor de Energias Alternativas, no campus de Araraquara (interior de São Paulo).

Espero usar a minha experiência obtida nessa temporada aí para abrir meus horizontes, colocar em perspectiva o que eu aprendi na faculdade (na Nigéria) e, principalmente, usar tudo isso para aperfeiçoar os níveis educacionais do meu país.

Melissa Lein, americana, 23 anos

Melissa Lein

Estou me formando em Ciências Forenses pela Universidade de Nebraska-Lincoln e embarco para o Brasil em agosto. No semestre que passarei em Jaboticabal (interior de São Paulo) vou estudar a disciplina de Desenvolvimento Profissional e Ética Científica.

O principal motivo que me vez decidir ir para o Brasil é que meu orientador aqui, o professor Leon Highley, será um dos professores associados neste curso. Mas eu já havia visitado o Brasil há alguns anos e, desde então, vinha buscando uma oportunidade para voltar.

Minha expectativa é poder aprender em um lugar fora da minha zona de conforto. Adoro a cultura daí e os brasileiros. Estou ansiosa para conhecer e fazer projetos com outros colegas brasileiros e também estudantes de outras partes do mundo.

E quero aprender o máximo de português que eu conseguir. Minhas despesas no Brasil serão financiadas por uma bolsa de pesquisa que tenho da minha universidade.