Anúncio de recessão aumenta pressão sobre governo na França

  • 15 maio 2013
Fila em agência de empregos em Marselha (Reuters)
Desemprego bateu recorde histórico na França

O anúncio de que a França entrou oficialmente em recessão, no momento em que o presidente François Hollande completa um ano de mandato, torna ainda mais difícil o cumprimento das promessas eleitorais de reduzir o desemprego e reequilibrar as contas públicas.

O Produto Interno Bruto (PIB) francês registrou queda de 0,2% no primeiro trimestre deste ano, anunciou nesta quarta-feira o Instituto Nacional de Estatísticas Insee.

Esta foi a segunda redução trimestrial consecutiva do PIB do país, o que configura, tecnicamente, a recessão econômica. No último trimestre de 2012, a queda também havia sido de 0,2%.

A notícia não foi, no entanto, uma surpresa para analistas nem para o próprio governo em razão de vários indicadores negativos divulgados recentemente e também pelo fato de que a economia francesa já havia escapado por pouco de uma recessão em 2012.

O consumo interno, tradicional motor da economia francesa, caiu 0,1% no primeiro trimestre de 2013, após ficar estagnado no último trimestre do ano ano passado. O poder aquisitivo dos franceses caiu 0,9% em 2012, queda recorde e a primeira registrada nos últimos 30 anos.

O PIB francês recuou mais do que o previsto neste primeiro trimestre. Grande parte dos economistas estimava que a contração da economia seria de 0,1%.

O ministro francês das Finanças, Pierre Moscovici, declarou nesta quarta-feira que a entrada do país em recessão "não é uma surpresa e é amplamente uma consequência da situação da zona do euro".

"A situação econômica é grave", reconheceu o presidente Hollande, que completa seu primeiro ano de governo exatamente na data da confirmação oficial de que a França está em recessão.

Hollande, que participa nesta quarta de uma reunião da Comissão Europeia, em Bruxelas, prometeu ainda "militar pela reorientação da Europa em direção ao crescimento econômico".

Orçamento austero

O presidente francês provocou polêmica na época de sua eleição, há um ano, ao defender medidas para privilegiar o crescimento econômico e criticar fortemente as políticas de austeridade fiscal na Europa, impostas pela Alemanha.

Mas o orçamento público de 2013 é considerado o mais rigoroso dos últimos 30 anos. Ele fixou quase 37 bilhões de euros de economias, entre cortes de gastos do governo e aumentos de impostos.

"O presidente Hollande instarou uma política orçamentária restritiva. Talvez ele tenha subestimado os efeitos dessa política", disse à BBC Brasil Christophe Blot, diretor do departamento de análises e previsões do Observatório Francês da Conjuntura Econômica (OFCE).

Pierre Moscovici (AP)
Para Pierre Moscovici a situação 'não é surpresa'

O governo justificou o esforço fiscal sem precedentes nas últimas décadas com a necessidade de cumprir o compromisso firmado, junto às autoridades europeias, de reduzir o déficit fiscal da França a 3% do PIB em 2013, uma de suas promessas de campanha.

Mas apesar do orçamento austero, o governo já anunciou que não conseguirá cumprir o objetivo fixado e obteve da Comissão Europeia um prazo suplementar de dois anos para alcançá-lo.

Neste ano, segundo o governo, o déficit público deverá atingir 3,7% do PIB (a Comissão Europeia prevê 3,9%).

Hollande também prometeu reduzir o desemprego na França, mas, em razão da estagnação econômica, o índice vem crescendo regularmente desde sua posse e bateu recorde histórico, totalizando 3,2 milhões de pessoas em março passado, pouco mais de 10% da população ativa.

Uma das medidas para lutar contra o desemprego, amplamente anunciada por Hollande durante sua campanha, é o chamado "emprego do futuro", com benefícios fiscais para os empregadores que contratarem jovens com baixa qualificação, que prevê criar 100 mil postos de trabalho neste ano.

Mas segundo a imprensa francesa, apenas 10 mil empregos foram criados cinco meses após o lançamento da iniciativa.

Apesar dos indicadores negativos, o governo francês reitera que irá conseguir reduzir o desemprego neste ano, como assegurou o ministro das Finanças nesta quarta-feira.

"O governo precisa fazer uma arbitragem. Se a opção for privilegiar a redução do déficit, isso custará em termos de criação de empregos", disse à BBC Brasil o economista Blot, do OFCE.

Imposto de 75%

Outra promessa emblemática de Hollande, a criação de um imposto de 75% sobre a renda que ultrapassar 1 milhão de euros (o imposto incidiria apenas sobre o montante superior a 1 milhão e não sobre a quantia total), foi rejeitada pelo Conselho Constitucional.

Após o parecer contrário, Hollande anunciou que esse imposto seria então pago por empresas que teriam executivos com salários superiores a 1 milhão de euros, mas o assunto não avançou desde então.

A economia francesa já havia entrado em recessão no início de 2009, no auge da crise financeira mundial, com um contração do PIB de 3,1% na época.

A entrada da França novamente em recessão é uma pressão suplementar para Hollande e dificulta seus planos para reequilibrar a economia. O presidente registra o menor índice de popularidade de um líder francês nas últimas décadas.

A zona do euro também anunciou nesta quarta queda de 0,2% do PIB neste primeiro semestre, o sexto consecutivo de retração da atividade econômica, segundo a Eurostat.

O PIB da Alemanha, maior economia da zona, registrou crescimento positivo, de apenas 0,1%, abaixo das previsões dos analistas.

Notícias relacionadas