O conflito na Síria poderá provocar uma guerra regional?

  • 11 maio 2013

Nesta semana, o líder do grupo Hezbollah, o movimento islâmico xiita do sul de Líbano, enfatizou que considerava a transferência de armas a partir da Síria como sendo uma "resposta estratégica" aos ataques aéreos israelenses que atingiram os arredores da capital síria, Damasco, no domingo.

Hassan Nasrallah afirmou que o Hezbollah iria receber "armamentos únicos, que nunca recebera antes", uma forte de indicação de que o envio de armas irá prosseguir.

Ataques áreos israelenses também deverão prosseguir, sob o risco de que Israel e o Hezbollah acabem se envolvendo em uma nova rodada de combates. Portanto, uma crise que começou como uma revolta popular na Síria poderá se transformar em uma pesada guerra regional.

Na verdade, a crise na Síria representa várias batalhas misturadas em uma só.

Parcialmente, ela é uma luta por poder entre a maioria islâmica sunita da Síria e a minoria alawita - um ramo do islamismo xiita - que domina o país há uma geração e à qual pertence o presidente sírio, Bashar al-Assad, e seus aliados mais próximos.

Hassan Nasrallah afirmou que o Hezbollah está pronto para receber armamentos capazes de "romper o equilíbrio de forças".

Essa conflito, além de poder provocar uma catástrofe humana, está tomando ares de um combate sectário e étnico mais generalizado, com crescentes relatos de massacres e de limpeza étnica, muitas vezes realizados por milícias pró-governo.

Conexão libanesa

O conflito sírio representa também uma batalha estratégica visando uma influência mais ampla na região como um todo. Com o Irã, o aliado mais próximo da Síria, ávido em sustentar o governo do presidente Bashar al-Assad pelo máximo de tempo possível.

O governo iraniano também parece estar se preparando para firmar a sua futura influência em uma Síria pós-Assad. Para Teerã, que conta com a oposição da maior parte dos governos árabes sunitas e pró-ocidentais na região, a Síria não é apenas um parceiro diplomático, mas um forte aliado na luta contra Israel.

O país fornece os meios práticos pelos quais o Irã pode se aliar a grupos na região com interesses similares aos seus, como o Hezbollah no Líbano e o Hamas na Faixa de Gaza.

A conexão libanesa é crucial para os planos iranianos. O Hezbollah com seus grandes mísseis representa uma ameaça significativa para Israel.

Hassan Nasrallah
Hezbollah, comando por Hassan Nasrallah, estaria recebendo novos e modernos armamentos

Em termos militares, o Hezbollah se saiu fortalecido de seu último grande combate com Israel. Seus militantes são disciplinados, motivados e bem treinados.

Combatentes da milícia islâmica também vêm cruzando a fronteira com a Síria para combater ao lado de tropas do governo contra forças rebeldes.

E, em contrapartida, relatórios de serviços de inteligência informam que a Síria pretende transferir ainda mais avançados armamentos para o Hezbollah.

E essa é a principal preocupação de Israel, em meio ao conflito na Síria que não dá quaisquer sinais de estar caminhando para uma resolução.

O governo israelense já se pronunciou contra o envio de armas capazes de, em suas palavras, "mudar o jogo". Eses incluiríam mísseis de longo alance de grande precisão; sofisticados mísseis antinavais e modernos mísseis terra-ar que comprometeriam a liberdade de movimento nos céus do Líbano.

Temores de um Hezbollah fortalecido já fizeram com que Israel realizasse uma série de ataques de mísseis contra abrigos de mísseis e outros alvos militares - o mais recente deles no início deste mês. Tais ações militares poderão atrapalhar o armamento do Hezbollah, mas dificilmente impedirão que isso aconteça.

Frente perigosa

Por enquanto, é o triângulo Israel-Hezbollah-Síria que representa a frente mais perigosa para a crise na Síria e aquela que poderá levar o conflito a se transformar em uma guerra regional.

E é a relação de apoio mútuo entre Síria, Hezbollha e Irã, juntamente com a resposta de Israel, que está alimentando essa potencial escalada.

Um recente relatório do Institute for the Study of War, juntamente com o American Enterprise Institute, pinta um retrato detalhado do quão profundo é o envolvimento do Irã na Síria.

O documento afirma que a cooperação na área de segurança entre os dois países já existe há algum tempo. Uma série de técnicos iranianos teriam sido mortos em uma explosão no alojamento de armas químicas e de mísseis de al-Safir, em 2007.

Envolvimento do Irã

Mas o mais interessante são os detalhes do apoio iraniano ao regime sírio desde o início da atual crise.

Isso envolveria fornecer soldados dos Guardas Revolucionários Iranianos para treinar forças de segurança interna e de contra-insurgência.

O relatório cita ainda o suprimento de armamentos pela via área como sendo um "componente crítico" para o apoio à Síria. O documento menciona dados compilados pelos Estados Unidos segundo os quais tanto voos comerciais como militares do Irã estariam sendo utilizados para transportar armamentos.

Uma apreensão feita em março de 2011 pelas autoridades turcas de um carregamento contido em um avião irianiano Ilyushin-76 encontrou caixas de munição, fuzis, metralhadoras e morteiros.

O Irã também tem prestado apoio a grupos paramilitares dentro da Síria - talvez para criar laços que poderiam ser úteis no caso de queda do governo Assad.

O documento afirma que o Irã tem uma estratégia para o futuro que antevê até um cenário em que o governo da Síria não controlaria mais todo o território do país, mas permaneceria sendo um ator influente na região.

De acordo com o estudo, ao procurar estreitar laços com militantes governistas, o governo da Síria "poderia promover a convergência do que permanecer do Exército sírio com milícias pró-governo".

"Esta força combinada", conclui o relatório, "aliada a combatentes da milícia libanesa Hezbollah e de grupos militantes xiitas poderia continuar a competir por uma fatia territorial limitada dentro da Síria e assegurar que o Irã siga seguiria sendo capaz de fornecer apoio logístico e de atuar como força de contenção".

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