Com Maduro, Dilma defende América do Sul 'sem ingerência externa'

  • 9 maio 2013
Dilma e Maduro no Planalto, nesta quinta (Roberto Stuckert Filho/PR)
Venezuelano pediu ajuda para enfrentar desabastecimento e cortes de energia

Em discurso ao lado de seu colega venezuelano, Nicolás Maduro, a presidente Dilma Rousseff criticou nesta quinta-feira pretensões hegemônicas e a ingerência externa nas relações internacionais.

"Nossos países estão mostrando vocação para criar um futuro comum, que una toda a nossa região, que contribua para um mundo multipolar e multilateral, sem espírito de confrontação, sem pretensões hegemônicas e sem ingerência externa."

A visita de Maduro, última etapa de seu primeiro giro internacional como presidente, busca reforçar seu apoio entre governos aliados do Mercosul num momento em que a Venezuela enfrenta instabilidades e pressões por parte dos Estados Unidos, que questionam a legitimidade de seu governo.

Antes de vir ao Brasil, ele esteve no Uruguai e na Argentina.

Dilma teceu elogios a Maduro e disse querer a estreitar os laços comerciais e de cooperação com a Venezuela.

"Tive a oportunidade de conviver com Nicolás Maduro durante anos em que atuou como chanceler do presidente (Hugo) Chávez e sei de sua qualidade. Sei também que é um grande amigo do Brasil e estou certa de que manterei com presidente Maduro um nível elevado de relacionamento, a exemplo do que mantive durante anos com o presidente Chávez."

Durante o governo Chávez, o Brasil se tornou o terceiro principal parceiro comercial da Venezuela, atrás dos Estados Unidos e da China. De 1999 a 2012, a balança comercial entre os países passou de US$ 1,5 bilhão (cerca de R$ 3 bilhões) a US$ 6 bilhões (R$ 12 bilhões).

Alto escalão

Além de Dilma, um grupo de importantes ministros reuniu-se com Maduro no Palácio do Planalto, entre os quais Gleisi Hoffmann (Casa Civil), Fernando Pimentel (Desenvolvimento e Comércio Exterior), Celso Amorim (Defesa) e Edison Lobão (Minas e Energia).

A presidente da Petrobras, Graça Foster, também esteve presente no encontro. Raramente recepções a líderes estrangeiros em Brasília contam com tantas altas autoridades do governo. Antes de se reunir com a equipe, Maduro foi à embaixada venezuelana, onde conversou com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

No Planalto, Maduro anunciou dois investimentos de empresas brasileiras na Venezuela: a construção de uma indústria de ureia (matéria-prima para fertilizantes) pela Odebrecht e pela Braskem e a de uma indústria de coque (combustível mineral) pela Braskem.

O presidente pediu ao governo brasileiro ajuda urgente para lidar com o desabastecimento de produtos básicos alimentares e de higiene no mercado venezuelano.

A falta de produtos na Venezuela, disse Maduro, reflete a "amputação da cultura produtiva do campo e da cultura produtiva em geral" que sucedeu a descoberta de petróleo no país, há cem anos. A economia da Venezuela, dona de uma das maiores reservas petrolíferas do mundo, é bastante dependente do produto.

Maduro disse contar com a experiência brasileira para ampliar a produção de alimentos nos próximos anos e diversificar a economia local. A Embrapa (braço do Ministério da Agricultura voltado à pesquisa no campo) tem um escritório no país vizinho.

Segundo o conselheiro da Presidência Marco Aurélio Garcia, Maduro também solicitou que técnicos brasileiro do setor elétrico ajudem a pôr fim aos constantes cortes de energia na Venezuela.

Disputa eleitoral e Paraguai

Herdeiro político de Hugo Chávez, morto em março, o ex-chanceler venezuelano obteve uma vitória apertada nas eleições de abril, com 1,5% de vantagem (cerca de 220 mil votos) sobre seu opositor, Henrique Capriles.

Capriles diz que o resultado foi fraudado e exige uma auditoria em todas as urnas. Após a divulgação do resultado oficial do pleito, apoiadores de Maduro e de Capriles convocaram uma série de protestos. Enfrentamentos entre os grupos resultaram, segundo a Procuradoria Geral da Venezuela, em nove mortes.

O governo diz que as mortes foram culpa da oposição, que por sua vez culpa o governo.

Dentre os membros do Mercosul, Maduro só não esteve nesta viagem no Paraguai, suspenso do bloco por causa da destituição do presidente Fernando Lugo, em junho passado.

O ingresso da Venezuela no bloco se deu à revelia do Congresso paraguaio, único Parlamento dos países-membros que ainda não havia aprovado a entrada.

Um mês depois da suspensão do Paraguai, os outros membros ratificaram o ingresso venezuelano, que tramitava desde 2006.

Espera-se que Assunção regresse ao bloco em breve, já que a principal condição para o fim da suspensão – a realização de eleições presidenciais no Paraguai – foi cumprida no mês passado, quando o empresário Horacio Cartes elegeu-se o próximo mandatário do país.

Segundo Marco Aurélio Garcia, o mais provável é que o regresso ocorra após a posse de Cartes, em agosto. Assim, o Paraguai deverá ficar fora da próxima reunião do bloco, em junho, no Uruguai, quando a Venezuela assumirá a presidência temporária do grupo.

Dilma disse que a presidência da Venezuela no órgão marcará um "momento histórico" e "permitirá ao bloco viver seu segundo ciclo de expansão comercial e integração produtiva, beneficiando especialmente o Norte e o Nordeste do Brasil e o sul da Venezuela".

Em sua visita, Maduro também tratou das pendências para que a Venezuela se adeque às normas tarifárias do Mercosul. O país tem três anos para adotar as regras comerciais do bloco.

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