Ex-agente norte-coreana convive com trauma de ter explodido avião

  • 22 abril 2013
Kim Hyun-hui / BBC
Ex-agente da Coreia do Norte, Kim Hyun-hui vive em Seul, cercada de seguranças

A norte-coreana Kim Hyun-hui certamente não aparenta ser uma assassina em massa. Mãe de dois filhos, essa mulher de 51 anos é dona de uma voz suave e de um sorriso gentil.

Atualmente, ela vive reclusa em algum lugar na Coreia do Sul – e não pode dizer onde. No dia em que nos encontramos, Kim Hyun-hui estava, como sempre, acompanhada de um grupo de homens fortemente armados e com ternos desalinhados.

Ela convive com o temor de que o governo da Coreia do Norte queira matá-la.

Há boas razões para isso. Kim Hyun-hui é uma ex-agente do serviço secreto norte-coreano. Há 25 anos, seguindo ordens de Pyongyang, ela explodiu um avião de uma companhia sul-coreana, matando todos os 115 passageiros a bordo.

Sentada em um hotel na capital da Coreia do Sul, Seul, ela descreve como, aos 19 anos, ela foi recrutada no campus de uma universidade de elite da Coreia do Norte onde estudava japonês.

Kim Hyun-hui treinou por seis anos. Nos primeiros três, ela teve aulas de uma jovem japonesa, Yaeko Tagushi, que havia sido sequestrada de sua casa no norte do Japão.

Nesse período, ela conta que Tagushi lhe ensinou a falar e agir como uma verdadeira japonesa.

Então, veio a missão que selaria para sempre seu destino.

O ano era 1987, e a Coreia do Sul agilizava os prepativos para sediar os Jogos Olímpicos em Seul. O líder da Coreia do Norte, Kim Il-sung, e seu filho, Kim Jong-il, entretanto, estavam determinados a impedi-los.

"Recebi ordens de um funcionário do alto escalão da Coreia do Norte, (dizendo) que explodiríamos um avião sul-coreano antes da Olimpíada", relata Kim Hyun-hui.

"Ele disse que isso mergulharia a Coreia do Sul no caos e na confusão. A missão representaria um duro golpe para (favorecer) a revolução."

Ordens diretas

Kim Hyun-hui / AP
Em 1987, Kim Hyun-hui explodiu um avião com destino à Coreia do Sul

Kim e um colega do serviço secreto embarcaram em um voo da companhia Korean Airlines em Bagdá, no Iraque, com destino à Coreia do Sul.

Já dentro da aeronave, ela colocou uma bomba escondida dentro de uma mala no compartimento superior.

Durante uma escala em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, os dois agentes da Coreia do Norte desembarcaram e fugiram.

Horas depois, quando o avião sobrevoava o Oceano Índico, a bomba foi detonada. Todas as 115 pessoas a bordo morreram.

Mas o plano inicial deu errado. Os dois agentes foram rastreados e localizados no Barein.

Na fuga, o parceiro de Kim Hyun-hui cometeu suicídio com um cigarro de cianureto. Kim Hyun-hui foi capturada, levada para Seul e apresentada diante da imprensa internacional.

"Quando eu desci as escadas do avião em que fui levada, não conseguia ver nada", diz ela. "Eu só olhava para o chão. Eles taparam a minha boca. Achei que estava entrando na toca do leão. Tinha certeza de que seria morta."

Em vez disso, ela foi encaminhada a um bunker subterrâneo onde o interrogatório começou.

Inicialmente, Kim Hyun-hui tentou manter a mentira de que era japonesa. Mas finalmente contou a verdade.

"Confessei com relutância. Pensei no perigo que minha família na Coreia do Norte corria; afinal, tratava-se de uma grande decisão. Mas eu comecei a perceber que seria a coisa certa a fazer pelas vítimas, para que elas pudessem entender a verdade."

Em sua confissão, Kim deixou claro que as ordens para explodir o avião haviam partido de Kim Il-sung e de seu filho e herdeiro, Kim Jong-il.

Figura divina

Coreia do Norte / AP
Kim Hyun-hui lamenta ter nascido na Coreia do Norte

"Na Coreia do Norte, tudo girava em torno do ‘reinado’ de Kim Il-sung e de seu filho Kim Jong-il", diz.

"Sem sua aprovação, nada acontecia. Nós fomos informados de que nossas ordens haviam sido 'confirmadas'. Eles somente usam essa palavra quando as ordens vêm de cima."

"Kim Il-sung era uma figura divina. Tudo o que era ordenado por ele podia ser justificado. Qualquer ordem teria que ser posta em prática com extrema lealdade. Em outras palavras: você teria que estar pronto a sacrificar sua vida por ele – e pela Coreia do Norte."

Por suas declarações, não há dúvidas sobre como Kim Hyun-hui passou de uma fiel seguidora do regime para uma traidora odiada e com uma forte sensação de vitimização pessoal.

"Não há outro país senão a Coreia do Norte", ela diz. "Pessoas de fora não conseguem entender. O país inteiro quer mostrar lealdade à família real. É como se fosse uma religião."

"As pessoas são doutrinadas. Não há direitos humanos nem quaisquer liberdades."

"Quando eu olho para trás, fico triste. Por que eu tive de nascer na Coreia do Norte? Olhe o que o país fez comigo."

Fim da dinastia?

Kim Hyun-hui também acredita, talvez esperançosamente, que os dias da dinastia iniciada por Kim Il-sung estejam contados.

Com a morte do fundador, Kim Il-sung, e do filho, Kim Jong-il, a Coreia do Norte é hoje controlada por Kim Jong-un, de 30 anos.

"A Coreia do Norte está em uma situação desesperadora", diz ela. "O descontentamento com Kim Jong-un é grande; ele tem de acabar com isso."

"A única coisa que ele tem são armas nucleares. Foi por isso que ele criou essa sensação de guerra, para tentar angariar apoio popular."

Em 1989, um tribunal sul-coreano condenou Kim Hyun-hui à morte, mas o então presidente Roh Tae-woo lhe concedeu perdão.

Ela então se casou com um funcionário da inteligência sul-coreana com quem teve dois filhos.

Alguns podem dizer que Kim Hyun-hui não pagou o que devia, considerando o que fez. Mas, em sua defesa, ela diz que ainda carrega um grande peso na consciência.

A ex-agente secreta norte-coreana afirma que encontrou consolo no cristianismo, além de ter recebido o perdão das famílias das vítimas.

"Quando encontro familiares das vítimas", diz ela, "nos abraçamos e choramos juntos".

Durante o nosso encontro de uma hora, houve apenas um momento em que as emoções vieram à tona.

Foi quando a questionei sobre a sua família na Coreia do Norte. Com lágrimas nos olhos, ela balançou sua cabeça.

"Não sei o que aconteceu com eles", afirma. "Soube que eles foram retirados de Pyongyang e levados a um campo de trabalhos forçados."