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Lucas Mendes: Bis! Bis! Bibíssima!

Atualizado em  18 de abril, 2013 - 05:57 (Brasília) 08:57 GMT

Nós brasileiros gostamos de aplaudir. De pé é ainda melhor. A diva Bibi Ferreira foi ovacionada quando pisou no palco do nobre e lotado Alice Tully Hall do Lincoln Center.

Estava nervosa ou fingiu? Alguém gritou "você está linda". Tive o impulso de gritar "mi casa es su casa". Me contive, mas um dia vou soltar a voz num destes templos musicais.

A plateia parecia mais nervosa do que ela. Aos 90 anos, sozinha num palco do Lincoln Center, uma raridade preocupante, mas em poucos minutos a Fada Madrinha fez sua velha mágica e viajamos com ela pelo tempo.

A primeira vez que a vi ainda não era fada. Ela tinha 31 anos, no teatro Francisco Nunes, no Parque Municipal de Belo Horizonte. Chico Nunes para os íntimos.

Bibi acha que era na peça A Pequena Catarina, baseada numa peça francesa, Le Fruit Vert. Eu ria feito criança de 10 anos. Quando alguém gritou "filho da puta" no palco, eu e meu amigo quase fizemos xixi nas calças. Naquela época era feio falar palavrão. Achei que tivesse sido a própria Bibi, mas ela me corrigiu e disse que jamais falou um palavrão no palco. Já nasceu lady.

Foi meu amigo Hildebrando que me apresentou à Bibi como nunca tinha sido apresentado a ninguém. Hoje ele é um conhecido advogado de direitos autorais, foi um dos autores do nosso Código, mas, aos 10 anos, era o doidinho da turma e o pateta aqui era o tonto dele.

"Vamos ver a peça da Bibi Ferreira. Tenho um recado do papai para ela".

O Chico Nunes ficava perto da nossa escola primária. Não tínhamos nem dinheiro nem idade para entrar na matinê. Barrados, pulamos uma cerca de ferro. Era alta e não consigo me lembrar como saltamos. Depois abrimos uma porta e estávamos nos bastidores. Flagrados, Hildebrando explicou que tinha um recado para a atriz. Dois penetras de calça curta. Tão inusitado, parecia até coisa de teatro. Nos levaram para o camarim.

"Dona Bibi, meu pai é o promotor Alberto Pontes. Ele foi seu namorado e mandou um abraço para a senhora". Fomos para a primeira fila.

Bibi veio ao nosso programa, Manhattan Connection, semana retrasada e perguntei a ela se no tempo do Império ela teve um namorado chamado Alberto Pontes. Perguntou de volta se eu a estava chamando de velha. Tirou de letra, mas não se lembrava do namorado. Ela é campeã do deboche da própria idade. No show do Lincoln Center, ela começou uma das histórias "no século 17, quando eu tinha 13 anos...".

Eu vi Peggy Lee cantar quando ela tinha 71 anos. Passava boa parte do show numa cadeira de rodas, em que cantou a sensualíssima Fever, um dos seus maiores sucessos. O único jeito de apreciar a música era de olhos fechados. Com olhos abertos, era tragicômico.

No fim do show da Bibi, uma hora e quarenta em pé, nos bis, bis e mais bis, Bibi perguntou se Liza Minnelli estava na plateia. Estava.

Mais uma ovação de pé da plateia e pedidos insistentes de Bibi e do público para Liza subir no palco. Lá foi ela pela porta da esquerda. Cinco minutos e nada.

Voltou. Tentou sentar. Não deixaram e lá foi ela pela porta da direita. Abraços e beijos no palco. A emoção era geral e genuína.

"Nunca vi nada igual na minha vida", disse Liza a Bibi. "E já vi muita coisa na minha vida". Mais abraçares e beijares. E as primeiras notas de New York, New York.

Pelo plano original, que não incluía Liza, seria o bis do bye bye. Já era o terceiro ou quarto bis.

Bibi engrenou na canção e pedia Liza para cantar junto, mas não saía quase nada da garganta americana. Depois de quatro ou cinco notas Liza, sensata, desistiu, fez um balancê e se refugiou nos braços da Bibi. Fim de show, sem New York, New York. Ninguém reclamou.

Dois dias depois do show, Bibi deu uma entrevista ao jornalista brasileiro Ricardo Geromel, da revista Forbes. Ela contou que conheceu Liza quando a estrela de Cabaret foi fazer um show no Brasil e disse a Bibi que ela a fazia lembrar da mãe.

Judy Garland foi a Edith Piaf americana em voz e tragédia. Liza viu a mãe apodrecer em casa e nos palcos, consumida pelo álcool, drogas e falta de amor depois de quatro casamentos que terminaram em divórcios.

Judy Garland teria só um ano a mais do que Bibi e, como ela, poderia ainda estar nos palcos.

Ela morreu aos 47 anos. Edith Piaf, não menos infeliz e drogada, aos 48.

Fisicamente, pela altura e fragilidade, Judy se parecia com Bibi, que aos 90 anos inspira intérpretes adolescentes.

Ela, que aos 13 anos no século 17 foi tão motivada pelo cinema e pelos musicais da Broadway, descobriu Manhattan no século 21. Já tem shows planejados para a volta, talvez em novembro. Vem cantar Piaf, a musa francesa do século 20.

Bis, bis, Bibi, a cantora que escapou do tempo e atravessa os séculos.


'Mea Culpa'

Na coluna de 21 de fevereiro, intitulada "Noutro Mundo", cometi um erro primário. Não é único, mas deste gênero, foi o primeiro.

Na pesquisa sobre conservadorismos e extremismos texanos, em especial na área de educação, encontrei um telegrama com uma história extraordinária e preciosa sobre o presidente da Comissão de Ciências e Tecnologia da Câmara dos Estados Unidos, deputado Lamar Smith, do Texas. Nela, ele duvidada da existência de meteoros e dinossauros.

Acreditei nela sem o cuidado de ligar para o escritório do deputado em Washington.

Era uma sátira que tinha acabado de ser publicada na revista "The New Yorker" e alguém reproduziu na internet com um cabeçalho diferente, como se fosse de uma agência, não me lembro qual e não consigo reencontrá-la na internet.

'Mea culpa, mea maxima culpa.' Peço desculpas aos leitores.

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