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Proibição de vans expõe quadro desigual de transporte no Rio

Atualizado em  12 de abril, 2013 - 18:22 (Brasília) 21:22 GMT
Rio de Janeiro (BBC)

Medida entra em vigor no Rio na semana que vem e divide opiniões de especialistas

Todos os dias, Marcio de Faria toma uma van na comunidade do Vidigal para chegar ao ponto de táxi onde trabalha como atendente, no bairro do Leblon, zona sul do Rio. O percurso dura menos de dez minutos e custa R$ 2,50, preço pago com o vale-transporte que ganha do patrão.

A partir da semana que vem, no entanto, tudo vai mudar. Com a proibição pela Prefeitura do Rio à circulação de vans em parte da zona sul da cidade, a condução tomada por Faria não vai mais deixá-lo nas proximidades do trabalho. Para não precisar pagar mais R$ 2,75 por uma passagem de ônibus, ele já planeja fazer o restante do percurso a pé.

"Vou ter que começar a sair mais cedo para não chegar atrasado ao trabalho. Se todo dia eu chegar atrasado, o patrão vai me dar um carrinho", brinca Marcio, ao comentar sobre o receio de ser demitido.

Faria é uma das milhares de pessoas que serão afetadas pela proibição à circulação de vans e kombis em 11 bairros da zona sul do Rio de Janeiro que entra em vigor na segunda-feira. A medida, no entanto, permite que o transporte alternativo continue a operar nas comunidades da Rocinha e do Vidigal, circulando por itinerários específicos.

Estupro

A proibição foi anunciada pouco menos de duas semanas depois de uma turista estrangeira ter sido estuprada e seu namorado agredido após tomarem uma van que seguia de Copacabana ao bairro da Lapa, em um crime que chocou a cidade. Apesar da repercussão do caso, de acordo com o jornal O Globo, o prefeito Eduardo Paes afirmou que a decisão de proibir a circulação de vans já "estava no plano de voo" e prevista para abril.

""Ou você faz um conjunto de medidas integradas, que trate efetivamente do acesso dos moradores, ou então você inviabiliza cada vez mais o acesso""

Jailson de Souza, coordenador da ONG Observatório de Favelas

Durante o anúncio da medida, Paes afirmou que a prefeitura avalia que não há necessidade de que vans complementem o transporte público da zona sul. Segundo ele, a mesma medida deve ser tomada no centro da cidade no futuro.

"São regiões que não precisam de transporte complementar, pois já contam com metrô, ônibus e táxis. O objetivo da van é ser complementar a uma rede de transporte, devemos colocá-la onde a dificuldade de acesso à rede de transporte é grande, como em alguns sub-bairros das zonas norte e oeste", disse.

Divisões

A medida, no entanto, divide especialistas em urbanismo e transporte público consultados pela BBC Brasil.

Geógrafo, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e coordenador da ONG Observatório de Favelas, Jailson de Souza e Silva avalia que a regra pode dificultar a vida de pessoas que moram nas periferias no Rio e usam o serviço de vans para chegar até a zona sul. Ele afirma que, para ser efetiva, a medida deveria prever um sistema de integração entre as vans que circulam nos subúrbios e os ônibus da zona sul.

"Hoje a oferta de ônibus dos subúrbios é muito precária. As pessoas em geral vão ter que passar a pegar dois ônibus, por exemplo. E isso prejudica muito justamente esse tipo de contato. Ou você faz um conjunto de medidas integradas, que trate efetivamente do acesso dos moradores, ou então você inviabiliza cada vez mais o acesso", diz.

Ele cita como exemplo a região do Complexo da Maré, que atualmente é servida por poucas linhas de ônibus que seguem até a zona sul.

"Você simplesmente vai impedir que vans que vêm do subúrbio (cheguem à zona sul). Aqui da Maré há uma van direta até Copacabana, que é o melhor sistema de transportes que nós temos e agora vai acabar. Qualquer pessoa aqui que leva 20 minutos para chegar à zona sul, agora, vai levar no mínimo uma hora".

Ele ainda discute o argumento de que a decisão se justificaria pela oferta de transportes públicos na zona sul. "A zona sul é bem servida para quem mora na zona sul. Então, que se proíba a circulação de vans que funcionam (só) na zona sul", diz Silva, para quem a medida pode estimular o uso de carros particulares na cidade.

Trânsito

""(A medida) vai melhorar a circulação viária. Nós vamos ter um trânsito um pouco melhor em função exatamente da saída desse tipo de veículo" "

José de Oliveira Guerra, professor do Departamento de Engenharia de Transportes da Uerj

Já o professor José de Oliveira Guerra, do Departamento de Engenharia de Transportes da Uerj, avalia que a medida deve ajudar a desafogar o trânsito na zona sul do Rio.

"Isso vai melhorar a circulação viária. Nós vamos ter um trânsito um pouco melhor em função exatamente da saída desse tipo de veículo", diz.

Ele concorda com o argumento da prefeitura de que a região já possui oferta suficiente de transporte público, fazendo com que as vans sejam desnecessárias.

"A zona sul é a região com maior oferta de transporte da cidade, portanto não sentirá falta desses veículos. Acho que as vans podem prestar um excelente serviço em outras áreas onde há carência de transporte. É um rearranjo que nós precisamos fazer".

Embora concorde que a medida possa aumentar os custos para pessoas que utilizam vans e que passarão a utilizar também o transporte de ônibus, ele afirma que abrir exceções para que apenas alguns veículos circulem na zona sul criaria problemas para a fiscalização.

"Uma medida dessas é de difícil controle. Se você criar exceções, o controle dessa medida na prática fica mais difícil. Então, ou você proíbe geral ou você não proíbe. Uma possível saída seria a integração ônibus-van. Eu só vislumbro essa possibilidade para não gerar o pagamento de uma outra tarifa, a de ter uma integração tarifária", diz Guerra, que, no entanto, levanta dúvidas sobre se a integração seria bem recebida por operadores de ônibus e de vans.

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