Emprego flexível ajuda brasileira sem empregada na França

  • 11 abril 2013
Fernanda Blanchard, a filha e o marido. Crédito: arquivo pessoal
Com jornada flexível, Fernanda Blanchard pode dedicar mais tempo à filha

Quando a brasileira Fernanda Blanchard voltou a trabalhar em horário integral depois que a filha nasceu, percebeu que teria de rever suas opções profissionais.

A carioca, de 34 anos, mora na França desde 2003, e trocou o emprego na Câmara de Comércio de Amiens, onde entrava diariamente às 9h e saía às 17h, por outro em que poderia trabalhar alguns dias de casa com carga horária reduzida. Com isso, encontrou mais equilíbrio entre a vida profissional e familiar.

Fernanda se beneficia de um esquema de trabalho cada vez mais comum nos países mais desenvolvidos da Europa, que prevê a oferta de vagas com carga horária menor do que as tradicionais oito horas diárias, além de jornadas flexíveis - que não exigem a presença do funcionário no local de trabalho diariamente.

Segundo dados da Comissão Europeia, 56% das empresas na Europa oferecem algum tipo de trabalho flexível, enquanto 67% oferecem vagas com cargas horárias reduzidas.

Uma pesquisa realizada pela Comissão Europeia (órgão executivo da União Europeia) em 30 países do continente aponta a Áustria e o Reino Unido como as nações com maior flexibilidade em termos de organização da jornada e quantidade de horas executadas. Na outra ponta da lista estão Portugal, Lituânia, Chipre e Hungria.

A comissão acredita que as jornadas flexíveis de trabalho beneficiam tanto empregadores como empregados e defende que "em tempos de retração econômica, o trabalho flexível pode ajudar as pessoas a manterem seus empregos".

Roupa passada

Formada em Comércio Internacional, a brasileira hoje trabalha em uma firma de engenharia e vai ao escritório apenas duas vezes por semana.

"Nos outros dias eu trabalho de casa, mas organizo meu horário como acho melhor. Separo um tempo para limpar a casa, cozinhar e cuidar das roupas", conta Fernanda à BBC Brasil.

Nesses dias, a brasileira também dedica mais tempo à filha Sofia, de dois anos, que vai para a creche mais tarde ou às vezes fica o dia inteiro com a mãe.

"Poder passar mais tempo com minha filha e resolver as tarefas domésticas são as grandes vantagens de trabalhar de casa", avalia.

Fernanda mora na pequena cidade de L’Étoile, no norte da França, com apenas 2 mil habitantes e pouquíssima oferta de trabalho doméstico.

Sem faxineira, ela faz boa parte da limpeza da casa e conta com a ajuda do marido. A carioca diz que apesar de ter adotado padrões de limpeza mais "europeus", portanto menos exigentes, ainda faz questão de passar toda a roupa da família, herança da época em que morava no Brasil.

Na maioria das vezes, esta tarefa fica atribuída ao marido, enquanto Fernanda pilota o fogão.

"Sempre tive empregada a vida inteira e quando cheguei à França não sabia nem fritar um ovo. Hoje não somente sei fazer tudo na cozinha, como também adoro cozinhar", diz, acrescentando que facilita a preparação dos pratos comprando legumes descascados e picados.

Sofia. Crédito:arquivo pessoal
Sofia, de dois anos, ajuda na arrumação guardando brinquedos antes de dormir

Orçamento

Fernanda também adotou outras técnicas para agilizar o trabalho de casa, como fazer compras pela internet. Depois de buscar a filha de carro na creche, ela vai ao supermercado onde alguém a espera com as sacolas cheias.

E a pequena Sofia também participa da organização da casa. Desde já está sendo acostumada arrumar os brinquedos antes de dormir.

O orçamento familiar pôde acomodar bem a redução no salário da brasileira, graças, sobretudo, ao preço acessível da creche que a menina frequenta. O estabelecimento é subsidiado pela prefeitura e custa apenas 250 euros por mês (cerca de R$ 645), valor baixo se comparado às creches particulares, que custam mais de mil euros por mês (R$ 2.580).

Fernanda acredita que este é o melhor modelo de trabalho para a realidade da família. A Comissão Europeia, no entanto, pondera que a oferta de jornadas flexíveis nem sempre contribui para a igualdade entre os gêneros.

"Enquanto a flexibilidade no emprego for considerada apenas como um jeito ‘feminino’ de organizar a vida profissional e familiar, trabalhos com carga horária reduzida tendem a perpetuar a diferença entre os gêneros em vez de eliminá-la", afirma a Comissária Europeia para Justiça e Direitos Fundamentais e Cidadania, Viviane Reding.

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