'Também estou marcada para morrer', diz irmã de ativista assassinada no Pará

  • 5 abril 2013
Laísa Santos (Crédito: Anistia Internacional)
Laísa disse ter sentido dor e revolta ao saber da absolvição do acusado de mandar matar sua irmã

Desde que sua irmã, Maria do Espírito Santo, e seu cunhado, José Claudio Ribeiro da Silva, foram assassinados em maio de 2011, Laísa Santos Sampaio sabe que pode ser a próxima. E após o julgamento que terminou nesta quinta-feira e condenou parcialmente os assassinos, seu temor se intensificou.

"Também estou marcada para morrer", disse Laísa à BBC Brasil.

"'Se forem condenados, você é a próxima'. Foi isso que eles me falaram na véspera do julgamento. Eu recebi esse recado por meio de pessoas da minha comunidade, que me avisaram para não voltar."

Laísa conta que já recebeu ameaças dizendo que iam "varrer da região" todos os membros de sua família. Mas, mesmo assim, ela diz que pretende voltar para onde vive, o assentamento agroextrativista Praialta-Piranheira em Nova Ipixuna, no sudeste do Pará. O local, onde sua irmã foi morta, costuma ser alvo de grileiros.

"Eu vou voltar porque lá é o meu lugar. E uma pessoa não pode simplesmente deixar para trás as ideias em que acredita. Vou continuar nossa luta."

Ela se refere à luta que assumiu com mais afinco após a morte da irmã e do cunhado. Ambos eram ativistas conhecidos na região por denunciarem a ação ilegal de madeireiros e de grileiros na região.

Julgamento

No começo da noite desta quinta-feira, um júri popular condenou a mais de 40 anos de prisão Lindonjonson Silva Rocha e Alberto Lopes do Nascimento, os dois acusados de terem executado o casal.

No entanto, os jurados absolveram o agricultor José Rodrigues Moreira, acusado de ser o mandante do crime. A absolvição gerou protestos dentro e fora do Fórum de Marabá (PA). Tanto a promotoria como a defesa dos dois condenados vão recorrer.

"Quando o juiz leu as sentenças, senti um misto de dor e revolta", disse Laísa.

"Foi como se matassem minha irmã e meu cunhado de novo. E como se me matassem também, porque no dia do enterro, eu ainda tinha esperança na Justiça. Agora não. E agora minha descrença também é com a sociedade (já que foi um júri popular)."

José Cláudio e Maria do Espírito Santo
José Cláudio e Maria do Espírito Santo lutavam contra a ação de madeireiros e de grileiros

Moreira, absolvido no julgamento, era acusado de ocupar um lote de terra que teria sido comprado ilegalmente no assentamento. E, segundo a promotoria, ele teria mandando matar o casal para que eles parassem de ajudar as famílias que ali viviam e seriam expulsas com a efetivação do negócio.

"O mais perigoso (Moreira) está solto. Vou conviver com ele diariamente. Para ir para o lote dele, ele passa pelo meu. Para ir para rua, ela passa pela escola onde trabalho", conta Laísa.

O veredicto também revoltou ativistas e defensores de direitos humanos.

"Ficamos frustrados especialmente por repetir o padrão brasileiro de condenar só o "peixe pequeno" e absolver o mandante", disse à BBC Átila Roque, diretor-executivo da Anistia Internacional no Brasil, que acompanhou o julgamento em Marabá.

"Esse caso revela a falência do Estado em dois níveis. Tanto o de fazer valer o direito da posse de terra dessas pessoas, como o garantir a segurança delas. José Claudio e Maria fizeram várias denúncias de que estavam sendo ameaçados, inclusive no Incra. E essa negligência é uma constante nessa região desde os anos 80."

Escolta

Diante deste cenário, Laísa conta que gostaria de ter proteção permanente, especialmente no caminho até a escola - o trajeto mais perigoso de seu dia.

De acordo com a Secretaria de Direito Humanos da Presidência, ela está incluída em um programa de proteção a defensores de direitos humanos.

Segundo informações do órgão fornecidas à BBC Brasil, "ela é acompanhada periodicamente pela Equipe Técnica Federal do Programa de Defensores de Direitos Humanos da Secretaria e a proteção ocorre por meio de deslocamentos com escoltas pontuais quando solicitadas pela senhora Laísa, feitas pela polícia militar do Pará".

Laísa, no entanto, afirma que essa proteção periódica não é a ideal. "A polícia de Nova Ipixuna fica a 50 quilômetros do assentamento. Se algo acontecer comigo, quando eles chegarem, eu já estou gelada".

Em busca de melhorar sua proteção, Laísa embarcou nesta sexta-feira para Brasília para discutir seu caso com a Secretaria de Direitos Humanos

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