Craque de pavio curto, Diego Costa diz que 'aprendeu apanhando'

  • 18 março 2013
Diego Costa (Fernando Kallás / BBC Brasil)
Diego Costa diz ter aprendido a usar agressividade contra os adversarios

Fora de campo, o sergipano Diego Costa é simpático e brincalhão e uma figura popular entre funcionários de seu clube, o Atlético de Madrid, e companheiros de equipe.

Mas se por um lado o atacante de 24 anos vem fazendo a alegria dos torcedores e jogadores de sua equipe, como artilheiro da Copa do Rei e destaque do Campeonato Espanhol, por outro, seu estilo temperamental fez também com que se envolvesse em polêmicas e acumulasse inimizades entre adversários.

Em um recente clássico contra o Real Madrid, trocou cusparadas com o zagueiro Sergio Ramos e insultos com o outro defensor, Pepe. Nas quartas de final da Copa do Rei, depois de uma falha do zagueiro Amaya, do Bétis, Diego Costa foi agradecê-lo, com ironia, por ter errado no recuo para o goleiro e dado o ''passe'' para que o atacante marcasse o gol. O brasileiro ganhou outra cusparada de presente.

Ele também foi acusado de racismo pelo armador francês Geoffrey Kondogbia, do Sevilha, e expulso por dar uma cabeçada num adversário, num jogo decisivo da Liga Europeia contra o Viktoria Plzen, na República Tcheca.

A imprensa da Espanha vem pressionando para que ele vista a camisa da atual campeã mundial e europeia. Na mesma semana em que disse que defenderia a Espanha se fosse chamado, o treinador Luiz Felipe Scolari se adiantou e convocou-o para a Seleção Brasileira.

Mas se na Espanha ele já é ídolo e tem deixado a estrela do time, o colombiano Falcão García, em segundo plano, no Brasil Diego Costa é quase um desconhecido. Em entrevista à BBC Brasil, o próprio Diego Costa assume estar aprendendo não só a controlar a agressividade e o temperamento, como também a usá-los ao seu favor.

BBC Brasil - Como o futebol fez parte da sua infância em Sergipe? Quando decidiu que queria ser jogador?

Diego Costa - Na hora em que meu pai me batizou. Ele é apaixonado por futebol. Meu irmão se chama Jair, por causa do Jairzinho, e eu me chamo Diego, pelo Maradona. Meu pai sempre sonhou em ter um filho jogador. Eu tenho um primo que joga muito bem e sempre teve aquela história de que tinha que sair um jogador da família. E comecei no salão, ganhava bolsa dos colégios pra jogar futsal... e sempre de atacante. Outros Estados do Nordeste dão mais oportunidade pra jogar futebol, mas em Sergipe é muito difícil. Então, como eu tenho um tio que mora em São Paulo, minha família achou melhor eu ir pra lá morar com ele. Eu queria era trabalhar na loja que ele tinha na Galeria Pagé, na 25 de Março. Era adolescente e queria começar a ganhar dinheiro, não queria depender dos meus pais.

BBC Brasil - Então quando você foi pra São Paulo, você não queria jogar futebol?

DC- Não, eu queria era trabalhar. Você sabe a quantidade de meninos que tentam ser jogadores no Brasil todos os anos? É muito difícil ser jogador de futebol no Brasil. Tem que ser bom, mas tem que ter muita sorte. Mas meu tio é outro apaixonado por futebol e conseguiu um teste no Barcelona de Ibiúna, que investe em jogadores jovens pra serem vendidos ao exterior. Eles queriam que eu já fosse jogar um campeonato de juvenis em Minas Gerais. E eu não queria, já estava trabalhando, ganhando meu dinheirinho, mas ele me obrigou a ir (risos). Foi aí que um empresário me viu e me levou pra Portugal, para o Sporting de Braga. Tudo em um ano, tudo muito rápido.

BBC Brasil - Você chegou à Europa direto para o futebol profissional, sem passar por uma formação em categorias de base. Como isso se refletiu em sua atuação como jogador?

DC - O que eu vejo hoje em dia é que a base te ensina muitas coisas, te educa, é muito mais do que jogar bola. A parte tática, posicionamento, como lidar com muitas coisas da vida de jogador profissional. E eu tive que aprender tudo isso apanhando. Minha escola foi a vida, foi o campo, a bola. Minha única base foi a família, foi a educação dos meus pais.

BBC Brasil - Qual aspecto que a formação de base oferece que você mais sentiu falta?

DC - O controle emocional. Saber o valor de preservar a própria imagem. Eu reconheço que muitas vezes eu errei e não soube me controlar. Minha forma de jogar é muito agressiva e deixei que isso extrapolasse pro lado emocional. A base hoje em dia é educação, te ensina a respeitar o companheiro, o treinador, a cuidar da sua imagem, a crescer como pessoa. E eu acho que foi isso que faltou pra mim. Se eu tivesse essa formação não teria cometido muitos dos erros que cometi.

BBC Brasil - Que tipos de erros?

DC - Não teria feito as besteiras que fiz, teria reagido de outras formas. Faz parte da formação de base enfrentar esses momentos de tensão e de provocação em campo, a ter uma certa conduta. Eu teria aprendido na base muitas coisas que eu tive que aprender na marra, apanhando.

BBC Brasil - Pouca gente lembra porque foi num time pequeno, mas você foi considerado um dos melhores atacantes da Espanha na temporada passada, jogando pelo Rayo Vallecano.

DC - Eu tive uma lesão séria, rompi os ligamentos do joelho e me recuperei na metade da temporada. E o clube viu, na janela de inverno, uma possibilidade pra me mandar a outro clube pra pegar ritmo. E o Rayo foi tudo que eu estava precisando. Fiz 10 gols em 17 partidas.

BBC Brasil - Seus companheiros e ex-companheiros te adoram, são só elogios. Agora seus adversários, te odeiam. Como você explica?

DC - Acho que é meu estilo de jogo. Os zagueiros gostam de vida fácil. Não gostam de se movimentar. E eles me odeiam porque eu não facilito a vida de ninguém, nunca fujo do contato. Fico azucrinando, não paro um minuto. Eles reclamam mas esquecem de dizer que me dão porrada o tempo todo. Mas eu não reclamo, não tenho medo de porrada, é coisa do jogo. O importante é nunca ir na maldade, na violência. Não ser desleal nunca!

BBC Brasil - E a parte psicológica, da provocação?

DC - Logo no começo dos jogos os zagueiros já vem pra cima de mim, batendo sem o juiz ver, provocando. Eles acham que como eu tenho esse temperamento vão conseguir provocar uma expulsão ou uma confusão. E com o tempo eu aprendi a virar o jogo e usar essa provocação contra eles. Foi quando os cartões pararam de ser pra mim e começaram a ir pro adversários.

BBC Brasil - Como foi essa transição, esse amadurecimento? Como você percebeu que poderia usar a arma dos rivais contra eles?

DC - Apanhando (risos)! Você vai apanhando e aprendendo. Já fiz muita besteira, recebi muitos cartões, suspensões. Chegou um momento que eu percebi que não era culpa dos árbitros e dos adversários. Que era culpa minha. Chega uma hora que você tem que cair na real. Ou eu mudava ou eu ficava marcado pra sempre como um bom jogador, mas que tem a cabeça quente, temperamental. E eu ainda continuo evoluindo e melhorando, tenho muito ainda que aprender.

BBC Brasil - Então, você assume que tem mesmo o pavio curto?

DC - Já fui mais temperamental. Não vou mentir. Agora estou muito mais tranquilo. Mas não acho que seja pavio curto, é a adrenalina do jogo, busco sempre o choque, o contato. Era saber controlar essa adrenalina. Pode ser que aconteça de novo em algum momento, é difícil de prever, mas estou muito mais tranquilo do que era antes.

BBC Brasil - O treinador do Atlético de Madrid, Simeone, e os seus companheiros chegaram a falar contigo sobre isso depois do jogo?

DC - Não, pelo contrario, foi uma coisa minha mesmo! Não adianta lutar para estar num time grande e fazer esse tipo de besteira, a fila anda. São as coisas que você aprende apanhando. Foi quando caiu a ficha de verdade, porque foi logo depois daquela confusão com o Pepe e o Sergio Ramos. Virei o centro das atenções, mas pelo lado negativo. Foi quando eu percebi que tinha mesmo que mudar e fazer com que me esquecessem um pouco.

BBC Brasil - E o que realmente aconteceu contra o Real Madrid entre o Pepe, o Sergio Ramos e você?

DC - Juntou três jogadores temperamentais... (risos). Foi o típico jogo de contato, de faísca, de provocação. Mas ficou tudo dentro de campo, o importante é não ter maldade.

BBC Brasil - Mas você não acha que o Sergio Ramos e você extrapolaram um pouco, passaram do limite?

DC - Passamos sim, tanto eu quanto ele. Ninguém é criança e temos que assumir. Tem dias que são negros e todo mundo tem esses dias. O importante é sempre tentar evitá-los.

BBC Brasil - Agora sua história com o Pepe não é de hoje. Quando você estava no Rayo Vallecano foi um jogo tenso também entre vocês dois...

DC - É porque o Pepe é um jogador muito agressivo. E quando você coloca dois jogadores agressivos frente a frente vai ter mesmo faísca. Não acho que exista uma rivalidade entre a gente, mas também não existe amizade. Não sou amigo dele.

BBC Brasil - Você acha que os árbitros já te olham de uma forma diferente por sua forma de jogar?

DC - Lógico. Eles ficam de olho. Você cria uma fama e logo tem que conviver com ela. Não acho que exista uma intenção de me buscar pra me expulsar, isso não. Mas sei que na maioria das vezes eles estão de olho em mim mais do que nos outros jogadores.

BBC Brasil - Você se considera um jogador desleal? Violento?

DC - Desleal nunca! Violento, tampouco! Nunca machuquei um jogador. Nunca entrei na maldade. Recebo muitas mais faltas violentas que faço. Não sou de nenhuma forma um jogador violento.

BBC Brasil - E provocador?

DC - Pode ser... Acho que sim, provocador sim!

BBC Brasil - E catimbeiro?

DC - Acho que é mais ou menos a mesma coisa. É provocar... aguentar provocação.

BBC Brasil - Faz parte do futebol?

DC - Claro! Senão futebol tinha que ser jogado num teatro. Sempre existiu, mas antes não tinha essa quantidade de câmeras que existe hoje. O mais importante é não extrapolar, não passar do limite.

BBC Brasil - E essas acusações de racismo por parte do Kondogbia?

DC - Não tem nenhum fundamento. No calor do jogo ele deve ter visto coisas que não eram, interpretado errado. Eu tenho familiares negros, nunca faria uma coisa dessas. E sei que existem dezenas de câmeras, tudo que você faz e fala sair na TV.

BBC Brasil- E dizer ''obrigado'' ao zagueiro do Betis por ter falhado e dado a bola de graça pra você marcar o gol?

DC - Eu assumo que eu dei ''gracias''. Eu não minto. Mas o que ele não fala é tudo que me disse antes do gol, as pancadas que me deu. Quem fala o que quer, ouve o que não quer. Não vou dizer que foi uma atitude bonita da minha parte, mas comparado com o que escutei dele, foi normal.

BBC Brasil - Você acha que esse seu lado agressivo ganhou a simpatia do Felipão?

DC - Pode ser que sim, mas não valeria nada meu estilo se eu não estivesse jogando bem, metendo gol. Foi um sonho essa convocação, mas ainda tem muito pra acontecer. Sei que pode ser a primeira e última convocação, tem que ter os pés no chão e continuar trabalhando.

BBC Brasil - Você foi convocado na mesma semana em que a imprensa espanhola especulava sua ida para a Seleção Espanhola. Você teria aceitado jogar pela Espanha?

DC - Lógico! Eu levo anos vivendo aqui, fiz minha carreira aqui, minha filha é espanhola, nasceu aqui. Devo muito à Espanha, tenho um carinho muito especial pelo país. Então se não existisse a chance de jogar pelo Brasil, se eu visse que era impossível, claro que eu jogaria pela Espanha. É uma honra ser cogitado para jogar na que hoje é a melhor seleção do mundo, campeã mundial, a seleção da moda. Mas o sonho mesmo sempre foi jogar na seleção brasileira.

BBC Brasil - Você esperava ser convocado pelo Felipão?

DC - Não! Eu sabia que estava num momento bom e, com a mudança de treinador, sabia que existiriam mais experiências, que iam chamar outros jogadores. Então tinha uma pequena esperança, pensava sim na seleção, mas não falei isso pra ninguém. Era algo meu, um sonho distante, mas não imaginava que seria agora.

BBC Brasil - O Felipão disse que te ligou antes pra esclarecer se você queria jogar pelo Brasil ou pela Espanha. Como foi essa ligação? Onde você estava quando ele te ligou?

DC- Foi do nada! Eu estava chegando no centro de treinamento do Atlético. Achei que era trote! (risos) Vi que o número era do Brasil e que poderia ser verdade, mas demorei a acreditar. Ele perguntou se eu queria jogar pelo Brasil, se tinha essa vontade, esse sonho. E eu disse que era tudo que eu queria, que eu sempre sonhei. Acho que nem falei direito de tão nervoso. Ele falou que vinha acompanhando meus jogos. Não esperava ser chamado agora. Deslumbrar eu não vou, sempre tive os pés no chão. Sei que é muito difícil se manter, principalmente na Seleção Brasileira e principalmente em um país em que 90% dos torcedores ainda não me conhecem, onde eu não joguei.

Notícias relacionadas