Argentina acompanha 1º dia do novo papa com orgulho discreto

  • 14 março 2013
Igreja em Buenos Aires | Foto: Getty

Um dia depois da nomeação do arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio, de 76 anos, como o novo papa da Igreja Católica, os argentinos mostravam orgulho discreto em relação à sua eleição.

A catedral da capital recebeu uma romaria de fiéis durante todo o dia. Flores, o bairro popular de Buenos Aires onde Bergoglio nasceu e cresceu, recebeu curiosos argentinos e estrangeiros que tiravam fotos em frente à casa onde ele morou e à igreja onde realizava missas.

Gestos similares foram registrados na sede do clube de futebol San Lorenzo, do qual Bergoglio é torcedor e com cuja camiseta azul e vermelha já se deixou fotografar, sorridente.

Os sites dos jornais locais, como Clarin e La Nación, informaram que objetos com o rosto do novo papa, como canecas e camisetas, já estão à venda na internet. Uma delas traz a frase: "As mãos de Deus", uma referência ao gol de Maradona na Copa do México.

Comemoração contida

No entanto, nas ruas da cidade, num dia frio, a rotina parecia como a de um outro dia qualquer do ano.

Souvenirs do papa Francisco | Foto: Getty
Souvenirs de Jorge Mario Bergoglio, agora papa Francisco, já circulam na internet, diz imprensa

"Nós agora somos os maiores do mundo. Mas a senhora já viu como somos os argentinos? Quando alguém chega ao topo tratamos logo de buscar seus defeitos. No Brasil, não é assim, né? Estariam fazendo uma festa, não é?", disse à BBC Brasil o taxista Mario Martínez, de 55 anos, no bairro portenho de Palermo.

A euforia da véspera, demonstrada com buzinaços e gritos de "o papa é argentino" nas janelas de algumas casas, já não era observada no dia seguinte ao anúncio de Bergoglio como pontífice.

"É, pois é, temos papa", disse o pedreiro Matías Tuñez, de 26 anos. Declarações parecidas, com sinais de orgulho mas com tom sóbrio e pouco fervor, foram ouvidas de bancários, porteiros e comerciantes.

"Estamos felizes, mas não quero que digam que estamos arrogantes por isso. É bom para a Argentina mas não só para a Argentina. Um papa latino é bom para toda a América Latina", disse um comerciante.

Ditadura

A primeira missa realizada por Bergoglio, no Vaticano, foi transmitida ao vivo pelas principais emissoras de televisão do país. Nos cafés da cidade, onde muitos costumam tomar café da manhã, almoçar e jantar, os clientes também assistiram na TV à missa e informações sobre o primeiro dia do papa Francisco.

"Claro que é um orgulho. Mas o desafio dele é imenso. Vamos esperar primeiro para ver o que ele vai fazer", afirmou um garçom em um café no bairro nobre da Recoleta.

Nas principais emissoras de televisão do país, a discussão era a polêmica em torno da participação dele ou não durante os anos da ditadura argentina.

"O Prêmio Nobel da Paz Pérez Esquivel repetiu às emissoras de rádio locais que Bergoglio nunca teve participação com a ditadura", afirmou o comentarista da emissora de televisão TN (Todo Noticias), Edgardo Alfano.

"Nem durante a ditadura e nem depois da ditadura tive qualquer informação sobre vínculos de Bergoglio com a ditadura. Não conheço ninguém que tenha informação precisa sobre isso", disse a ex-senadora Graciela Fernández Meijidi, que foi integrante da Conadep (Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas) e é mãe de um filho desaparecido durante o governo militar.

A presidente da entidade de direitos humanos Mães da Praça de Maio, Hebe de Bonafini, disse que os padres foram "omissos" naqueles anos e que elas conversavam com os "sacerdotes do terceiro mundo". "Sobre o fato de Bergoglio ser papa digo apenas amém".

Kirchners

Maria Bergoglio | Foto: AFP
Irmã do novo papa, Maria Bergoglio diz que 'é incrível' ter um irmão chefe da Igreja Católica

Num gesto que foi interpretado por analistas locais como de "aproximação" ao novo papa, a presidente Cristina Kirchner informou que viajará em comitiva para a cerimônia de posse de Bergoglio marcada para a próxima terça-feira no Vaticano.

Durante o governo do ex-presidente Néstor Kirchner (2002-2007), morto em 2010, e da atual presidente, ocorreram diferenças públicas entre eles.

Bergoglio fez sermões condenando a pobreza e a inflação. Cristina preferiu, como informou a imprensa local, participar de missas nas datas históricas junto a outros sacerdotes, no interior do país, e não com Bergoglio na capital argentina.

Irmãs

O dia também foi marcado por familiares, amigos e colegas do papa lembrando como ele era na escola, na igreja ou em casa.

"Nós temos doze anos de diferença de idade. Perdi o pai muito cedo e ele sempre foi um pai para mim. Mas ainda estou surpresa com a nomeação dele como papa. Tenho um irmão papa, é incrível", disse a irmã do pontífice, María Bergoglio.

A freira Rosita, de 90 anos, da igreja de Flores, que ele freqüentava e onde realizava missas, disse foi pega de surpresa com a notícia de que ele é o novo papa. "Sempre achei que ele seria papa, mas por causa da idade pensei que ele já tinha perdido a chance. Mas lá está ele".

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