Chávez, o militar socialista que transformou a Venezuela

Atualizado em  5 de março, 2013 - 19:16 (Brasília) 22:16 GMT
Mulher segura foto de Hugo Chávez (foto: AP)

Mulher segura foto de Hugo Chávez; presidente era visto por povo como membro da família

Soldado. Bolivariano. Socialista e antiimperialista. Assim se autodefinia o presidente da Venezuela Hugo Chávez. Considerado um dos mais polêmicos e importantes líderes da América Latina, um câncer marcou sua batalha final, encerrando os 14 anos de sua permanência no poder.

Chávez é visto como o homem que transformou a história social e política da Venezuela. Para os setores populares foi uma espécie de "justiceiro" que chegou à Presidência para redistribuir a renda do petróleo, antes privilégio de uma minoria. Para seus opositores foi o político que dividiu o país e atentou contra a propriedade privada, a liberdade de imprensa e a democracia.

O projeto maior de Chávez, a chamada "revolução bolivariana", moveu o tabuleiro da política venezuelana à esquerda. Polêmico, inspirado no prócer independentista Símon Bolívar, criticava em seus discursos as causas que teriam levado o país - quinto maior exportador mundial de petróleo - a manter a maioria da população na pobreza.

Com uma popularidade incomparável na história do país, o líder venezuelano criou um vínculo emocional com seus seguidores que foi além da política. Por alguns é visto como "pai", "irmão", "amigo" ou "filho". Gritos de "Chávez, eu te amo", costumavam acompanhar comícios e atos públicos liderados pelo presidente.

Para Alberto Barrera, autor da biografia Chávez sem uniforme, o presidente estabeleceu "um carisma religioso e afetivo com parte da população". Ele acrescenta que Chávez podia ser comparado a um popstar.

"Ele quis ser jogador de beisebol, mas não deu certo. Gostava de cantar, mas desafinava. Tentou um golpe de Estado e fracassou, e por fim, chegou à Presidência e fez uma revolução", disse um simpatizante.

História

Proveniente de uma família humilde de origem camponesa e de professores primários, Chávez nasceu em 1954, no povoado de Sabaneta, em Barinas no noroeste venzuelano. Cresceu em um casebre, onde foi educado pela avó materna. No Exército, fundou o Movimento Bolivariano Revolucionário 200, que se tornou o alicerce de sua carreira política.

Em fevereiro de 1992, o então tenente-coronel Chávez liderou um golpe de Estado contra o governo de Carlos Andrés Perez. Fracassada a intentona, Chávez foi preso.

Em 1999 foi eleito presidente e promoveu uma Assembleia Constituinte que criou as bases de seu projeto político. Ele estabeleceu uma política nacionalista, atacou latifúndios e promoveu uma onda de nacionalizações em setores estratégicos – petróleo, siderurgia, telecomunicações, eletricidade e parte do setor alimentar.

Essas medidas teriam assustado investimentos estrangeiros e empresários locais que deixaram de apostar no desenvolvimento industrial do país por temor ao "comunismo".

Ao promover mudanças na Constituição, Chávez foi acusado de demagogia e oportunismo. Para seus opositores, as alterações eram parte de um plano para mantê-lo eternamente no poder.

Chávez foi chamado de populista e autocrático, acusado de ameaçar a liberdade de imprensa e de utilizar a máquina estatal para perseguir aqueles que discordavam de sua "revolução".

Pobreza e economia

A estrutura econômica herdada de governos anteriores na qual a atividade produtiva se resumia praticamente à exploração de petróleo, se manteve intacta na era Chávez. Não houve diversificação do campo produtivo e o principal motor da economia continuou sendo o petróleo.

"Chávez surgiu em uma Venezuela comandada por mais de 50 anos por uma elite política e empresarial acomodada pela bonança petroleira." A opinião é do historiador Miguel Tinker Salas, professor de História Latino-americana da Pomona College, da Califórnia. "Chávez canalizou a crise, que de outra forma, poderia ter provocado um enfrentamento social", afirmou à BBC Brasil.

A criação das missões (programas sociais) de saúde e educação inaugurou em 2003 a cooperação com Cuba – estabelecendo a assistência de médicos e educadores em troca de petróleo. Essa aliança se tornou mais tarde o pilar de sustentação do governo e da popularidade do presidente.

"Antes de Chávez, o único direito que nós, os pobres, tínhamos, eram as balas (de repressão)", afirmou à BBC Brasil a dona de casa Miriam Bolívar, enquanto aguardava notícias sobre a saúde do presidente na Praça Bolívar, em Caracas, dias depois de sua última cirurgia.

Na era Chávez, a pobreza na Venezuela caiu mais de 20%, de acordo com a Cepal (Comissão Econômica para América Latina e Caribe), e o país passou a registrar a menor desigualdade entre ricos e pobres entre nações latino-americanas, de acordo com relatório da ONU, com 0,41 no índice de Gini que mede o grau de desigualdade na distribuição da renda domiciliar per capita entre os indivíduos de um país, quanto mais próximo de zero menor a desigualdade.

Apesar de se proclamar socialista, Chávez não conseguiu eliminar uma das maiores mazelas econômicas que afetam principalmente a população de renda mais baixa, a inflação. Com índices que chegam a 30%, a Venezuela tem a maior inflação da América Latina. Seu governo também falhou em não criar uma política econômica de longo prazo que fosse capaz de evitar a recessão.

Além disso, o presidente não conseguiu acabar com a corrupção na administração pública nem reduzir os índices de criminalidade nas ruas.

Amor e ódio

Chávez foi um líder polêmico e o sabia. Na Venezuela polarizada entre chavistas e anti-chavistas, entre socialismo e capitalismo, elementos raciais e de classe social também foram determinantes para incrementar o "amor" e "ódio" em torno à sua liderança.

Seus opositores acreditam que a polarização criada é maléfica para o país, pois apenas um setor da sociedade – os "vermelhos" - teria espaço. "Chávez atacou o velho sistema de exclusão social que dominava a sociedade, mas em contrapartida desenvolveu um novo sistema de exclusão política", afirmou Barrera.

A divisão entre os venezuelanos se aprofundou durante a crise política de 2002-2003 que resultou do fracassado golpe de Estado contra Chávez.

A intensa disputa se arrastou até 2004, quando Chávez saiu vitorioso nas urnas, depois de um referendo sobre seu mandato.

Em 2007, ele cancelou a concessão pública do canal privado RCTV - acusado de apoiar o golpe - , desencadeando uma onda de protestos. Chávez acusava os meios de comunicação privados de serem os porta-vozes da oposição interna e do governo dos Estados Unidos. A saída do ar da RCTV foi vista como um ataque à liberdade de imprensa.

A vitória no referendo em 2009, que lhe permitiu reeleger-se sem limites de mandatos, foi outro auge polêmico - que voltou a dividir a sociedade entre o "sim" e "não".

Ex-aliada do governo, a historiadora Margarita López Maya critica o centralismo desenvolvido em torno da figura presidencial. "Em termos históricos, foi o rei que tivemos na Venezuela. Foi como Luis 14."

Diplomacia

Amparado pelo incremento dos preços do petróleo, Chávez fortaleceu a influência de sua diplomacia no continente. "Ele deixa uma projeção internacional nunca alcançada por outro líder venezuelano", disse à BBC Brasil o analista político Luis Vicente León, da consultoria Datanalisis.

Os Estados Unidos viam com ressalvas a influência de Chávez em outros países da América Latina. O presidente venezuelano costumava dar opiniões sobre eleições em países vizinhos, apoiava abertamente candidatos presidenciais e assinou multimilionários acordos de cooperação.

Chávez criou novos mecanismos de integração regional, como Petrocaribe e Alba (Alternativa Bolivariana para as Américas), orientados na venda de petróleo a preços preferenciais, em troca do pagamento em moeda, mercadorias ou serviços.

Crítico da política "imperialista", Chávez desafiou a influência americana na América Latina, tornando-se, ao lado de Fidel Castro, o principal inimigo dos Estados Unidos na região. Defensor de um "mundo multipolar", se aproximou de figuras como o ex-líbio Muammar Gaddafi e o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad.

O estreitamento das relações entre Caracas e Brasília teve como marco os dois mandatos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Neste período, o fluxo comercial foi triplicado e a aliança política consolidada, sobretudo para dirimir crises entre a Venezuela e o governo do colombiano Álvaro Uribe.

Na Presidência, Chávez foi um grande incentivador do chamado "eixo de integração" entre Brasília, Caracas e Buenos Aires - no qual contou com o apoio do ex-presidente Lula, no Brasil, e do casal Kirchner, na Argentina.

Em 2012, Chávez colheu parte dos frutos desses apoios ao ver seu país dentro do bloco do Mercosul após uma manobra diplomática do Brasil e da Argentina que neutralizou a oposição paraguaia a essa integração.

Chávez–dependência

Os venezuelanos foram convocados às urnas em 17 eleições durante os mandatos de Chávez. Ele saiu derrotado apenas uma vez, quando pretendeu reformar 33 artigos da Constituição. Reeleito em outubro de 2012, o câncer impediu que assumisse seu terceiro mandato.

Placas, murais e grafites espalhados por todo o país evocam seu rosto e suas frases. Nas casas mais humildes, a imagem do "comandante" divide o espaço com a foto das famílias nas paredes.

Em seu testamento político, Chávez preparou a população para o que viria: sua quarta cirurgia poderia ser a batalha final contra o câncer. Antes de enfrentá-la, apontou a Nicolás Maduro, vice-presidente e chanceler, como seu substituto na liderança da "revolução bolivariana". Desde então, uma antiga idéia defendida por ele recobrou vida entre seus seguidores: "Eu sou um povo, todos somos Chávez".

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