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Criação de espaço para consumo de drogas gera polêmica na França

Atualizado em  14 de fevereiro, 2013 - 09:44 (Brasília) 11:44 GMT
Cocaína | Foto: PA

Governo francês abrirá sala para uso livre de drogas em Paris; medida despertou polêmica na capital

A decisão do governo francês de criar um espaço em que viciados possam consumir drogas está provocando grande polêmica no país e enfrenta críticas de autoridades médicas.

O primeiro espaço para consumo de drogas, ou "sala de shoot", como é chamada no país, promessa de campanha do presidente François Hollande, será aberto em Paris neste semestre, segundo o governo.

Ele será inaugurado nas proximidades da estação de trem Gare du Nord (de onde parte e chega o Eurostar, que liga Paris a Londres), no 10° distrito (arrondissement) de Paris.

O local irá acolher usuários de heroína, crack e cocaína, que trarão suas drogas ao local e poderão utilizá-las sem fornecer sua verdadeira identidade.

O objetivo é que as drogas possam ser consumidas em boas condições de higiene e sob a supervisão de funcionários de saúde, evitando novos casos de Aids ou de hepatite C e overdoses.

Alguns especialistas ressaltam que o fato de existir supervisão médica no momento do consumo da droga pode incitar usuários a utilizar quantidades maiores e aumenta os riscos de overdose.

Controvérsia

O prefeito do 10° distrito, o socialista Rémi Féraud, foi o único prefeito de bairro da capital a se candidatar para a abertura do local.

Viciados em drogas, sobretudo injetáveis, costumam circular nos arredores da Gare du Nord e de outra estação de trem, a Gare de l’Est, nas proximidades. Segundo o prefeito, são "centenas de toxicômanos que vagam pelas ruas" nesses locais.

Para Féraud, o sinal verde dado pelo governo para a criação de um local de consumo de drogas "com riscos menores e enquadramento médico é uma excelente notícia".

Mas muitos não compartilham do entusiasmo do prefeito. A Academia Nacional de Medicina da França, que tem como função responder a questões do governo na área de saúde pública, divulgou um comunicado reiterando sua oposição à criação de salas de consumo de drogas.

Para a Academia de Medicina, a iniciativa pode contribuir para manter o vício do toxicômano em vez de tratar o problema da dependência química.

"A França já possui estruturas para viciados facilmente acessíveis e que fornecem tratamentos de substituição à heroína, com a utilização da metadona", afirma a entidade.

Essas estruturas já existentes oferecem também acompanhamento psicológico e social para os viciados inscritos.

"A medicina deve tratar e não manter as doenças. Os resultados de experiências de consumo livre de drogas em salas desse tipo em outros países não permitem tirar conclusões médicas positivas", afirma o psiquiatra Jean-Pierre Olié e membro da Academia de Medicina da França.

Críticas e exemplos internacionais

Segundo ele, experiências desse tipo em países como a Suíça, Holanda, Alemanha ou Canadá, não resultaram no aumento nem na diminuição do número de viciados, e também não levaram a um aumento no número de inscrições em programas de desintoxicação.

A Suíça foi pioneira, em meados dos anos 80, na criação de locais de consumo livre de drogas.

Olié afirma ainda que a falta de uma análise mais técnica e aprofundada das drogas utilizadas no local não permitirá verificar a natureza dos produtos injetados.

Partidos da oposição de direita também criticam a sala de "shoot" em Paris, afirmando que isso "vai encorajar e banalizar o consumo de drogas e garantir assistência ao envenenamento das pessoas".

Uma pesquisa do Instituto Ifop revela que a maioria dos franceses é contrária às salas de consumo de drogas.

Associações de moradores e de lojistas do 10° distrito de Paris também criticam a abertura da "sala de shoot" no bairro. Eles temem que o local acabe agravando o problema do tráfico e do consumo de drogas que já existe na região.

Diante de tantas críticas, a ministra da Saúde, Marisol Touraine, disse que o governo terá "tolerância zero" em relação ao tráfico.

"Trata-se de acompanhar os viciados e fazer com que eles encontrem profissionais de saúde e possam sair da dependência", defende a ministra.

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