Lucas Mendes: Newsweek, morta e viva

Atualizado em  3 de janeiro, 2013 - 11:11 (Brasília) 13:11 GMT

Aos 79 anos, em Nova York, morreu a Newsweek. Estava frágil e decadente.

A capa da última edição impressa é uma foto de Manhattan em preto e branco com o prédio da revista dominando o cenário. Bons tempos.

No universo das revistas semanais, a Newsweek nunca conseguiu superar a Time em prestígio, circulação e publicidade, mas durante mais de três décadas, a partir dos anos 60, ocupou um brilhante, ameaçador e lucrativo segundo lugar. A competição melhorou a Newsweek e melhorou a Time.

Até 1961, quando foi comprada por Philip Graham por US$ 15 milhões, a revista era um cemitério de talentos. Os donos do Washington Post injetaram verba, juventude e liberdade na Newsweek, que assumiu posições liberais em direitos civis, integração racial, feminismo, drogas, rock and roll, Aids, Vietnam e o Watergate.

A Time era quadrada, a Newsweek, redonda.

Como parte do grupo Washington Post, que levantou a espionagem e o acobertamento da Casa Branca no escândalo Watergate, a Newsweek mordeu o osso e não largou.

Richard Nixon foi o presidente campeão das capas, 62 vezes, só superado pelo programa espacial, com 63. Jesus Cristo encapou 21 vezes. A revista se distinguiu em coberturas perigosas, e 12 dos seus jornalistas morreram em guerras e revoluções.

A Newsweek publicou sua primeira capa sobre Aids em 1983 anunciando uma epidemia e, quando ela chegou, ricos e celebridades gays esconderam as causas de suas mortes.

A Newsweek, numa de suas premiadas matérias, contou como os parentes de Rudolf Nureyev, Liberace e outros famosos mentiam sobre a causa das mortes dos ídolos, todos gays enrustidos. O movimento gay exigia que saíssem dos armários.

Mas a Newsweek várias vezes pisou na bola. Tinha a história da década: Monica Lewinsky. Sexta-feira, na hora H de mandar imprimir, tremeu. Adiou. Monica vazou. Foi parar no controvertido site Drudge Report.

A decadência das revistas semanais coincide com a ascensão do computador, da CNN e outras redes com notícias 24 horas por dia. Se havia notícia quente todos os dias, para que esperar pelas revistas, dias depois?

As semanais começaram a caminhada para o abismo. Muitas deixaram de ser revistas sobre fatos e se recriaram como revistas de ideias, noções e tendências, mas até a potente Time teve uma queda de circulação de 31% nos primeiros seis meses de 2012.

A assinatura da revista, que custa quase US$ 5 na banca, pode ser comprada por US$ 30 por ano e oferece acesso, sem limite, ao arquivo e quase todo vasto universo editorial da Time Warner.

Em 2010, o multimilionário Sidney Barman, de 92 anos, comprou a Newsweek do grupo Washington Post por US$ 1 e assumiu uma divida de cerca de US$ 40 milhões. Um pepino que conseguiu "casar" com o site The Daily Beast, editado pela vivíssima Tina Brown.

Quando Harman morreu, a família dele tirou o apoio financeiro à revista e, nesta semana, chegou a morte anunciada há tantos meses pela imprensa.

Estou com a revista na mão, triste. Em 69, fiz um estágio inesquecível de um mês na Newsweek, três semanas em Washington, uma em Nova York.

Aqui, foi uma experiência mais de observação e conversa com os editores, que me levavam para almoços diários. Sempre ótimos, mas fracassei no teste dos dois martinis.

Não sabia e ainda não sei beber de dia. Saia do almoço direto para a cama do hotel. O editor, no dia seguinte, me contou que capotava no sofá pelo menos duas horas antes de voltar à luta. Naquela época, cada editor tinha seu canto de luxo.

Em Washington, foi uma combinação de observação das reuniões de pauta e de trabalho na redação, mas fui reprovado noutro coquetel.

No fim de uma tarde de sexta-feira, toda a redação comemorava não me lembro o quê, e peguei numa conversa um senhor simpaticíssimo. Depois de meia-hora, o idiota aqui decidiu perguntar o nome dele.

Era Osborn Elliott, o editor-chefe e meu anfitrião. Me deu um cartão e um olhar decepcionado. Um bom repórter deve, no mínimo, reconhecer o chefe.

Esta coluna não é um obituário. A Newsweek caiu e morreu no abismo impresso e se lança, renovado, no futuro digital. Vou tomar um martini, talvez dois, e embarcar nesta viagem.

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