Onda de saques intensifica disputa entre governo e sindicalistas na Argentina

Atualizado em  21 de dezembro, 2012 - 23:10 (Brasília) 01:10 GMT
Policial observa saqueadores em fuga (foto: Reuters)

Policial observa saqueadores fugindo de bombas de gás disparadas por forças de segurança.

Uma onda de saques a supermercados iniciada na última quinta-feira na Argentina já deixou duas pessoas mortas e ao menos 100 feridas. A violência intensificou a disputa entre o governo da presidente Cristina Kirchner e setores do sindicalismo do país.

Os primeiros saques foram registrados, quinta-feira, na periferia da cidade de Bariloche, na província de Rio Negro, região da Patagônia. Entre quinta e sexta-feira, os casos se alastraram para a cidade de Rosário, na província de Santa Fé, e para San Fernando, província de Buenos Aires.

Na região de Rio Negro, além de saquear mercados, multidões destruíram lojas, ergueram barricadas nas ruas e enfrentaram forças de segurança com pedras e paus. Segundo autoridaes locais, os dois assassinatos ocorreram em meio aos saques em Rosário.

Muitos alimentos foram roubados, mas os saqueadores também visaram itens de maior valor, como televisores e eletrodomésticos.

O governo e líderes sindicais se acusaram mutuamente pela autoria dos saques. O chefe da Casa Civil da Presidência da Argentina, Abal Medina disse que setores do sindicalismo, opositor ao governo, estariam "por trás" das ações que seriam "isoladas e organizadas".

"Repudiamos estes fatos violentos que pretendem frear a paz social. Não somos ingênuos. Há setores interessados em que isto (fim da paz social) ocorra, como os sindicatos dos caminhoneiros, dos bares e restaurantes e ATE (professores)", disse Medina.

Os setores criticados exercem oposição aberta ao governo Kirchner. Medina insinuou que os saques teriam sido promovidos por caminhoneiros, a categoria liderada por Hugo Moyano, um chefe da CGT (Central Geral dos Trabalhadores) e grande opositor do governo.

As autoridades também disseram que a onda de violência pode estar relacionada ao aniversário de uma onda de saques que deixou 38 pessoas mortas e levou o então presidente Fernando de la Rúa a decretar estado de sítio em 2001.

Em resposta às críticas, Moyano disse à rádio Mitre, de Buenos Aires, que os saques "podem ter sido organizados pelo próprio poder". O sindicalista afirmou ainda que "muita gente está passando por dificuldades" e que não acredita que as ações tenham sido "organizadas" ou "por motivações políticas".

Mais tarde, ele afirmou que as centrais sindicais entrariam na Justiça contra as autoridades do governo que os responsabilizaram pelos saques.

Disputas

O bate-boca público ocorre em meio à crescente disputa entre o governo da presidente Cristina Kirchner e setores do sindicalismo, que apoiaram o panelaço realizado no dia 8 de novembro no país e lideraram uma greve geral em 20 de novembro e uma manifestação na quarta-feira em Buenos Aires. As bandeiras dos protestos foram variadas, com críticas à inflação, ao controle de câmbio e à falta de diálogo do governo com outros ramos da sociedade.

O analista político Rosendo Fraga, do Centro de Estudos Nova Maioria, disse à BBC Brasil, que a Argentina vive hoje "uma crise mais política do que econômica". Ela envolveria questões locais como o "conflito entre o governo e o Grupo Clarin (de mídia), as disputas do governo com a Justiça e a decisão da oposição de se unir contra a ideia de reforma da Constituição para abrir caminho para mais um mandato presidencial".

Ao mesmo tempo, ele sugeriu que o comportamento da economia também pode ter influenciado as ações de saques no país. "Quando Moyano diz que há gente que está sofrendo necessidades, está certo. Uma coisa é a Argentina com 24% de inflação anual e a economia crescendo 8%, como ocorreu em 2011. Outra coisa é a mesma inflação com a economia crescendo 1%", afirmou.

Fraga lembrou que nesta mesma época do ano, em dezembro de 2001, há onze anos, a economia caia cerca de 8% anualmente e o desemprego era em torno de 20%, quando ocorreu a histórica crise política e econômica e a renúncia de Fernando de la Rúa da Presidência. "Hoje, além da questão política e da pressão inflacionária, que afeta principalmente os mais pobres, destaca-se a baixa eficácia da área de segurança. Mas o cenário é muito diferente daquele de 2001", afirmou.

Bariloche

Nesta sexta-feia, o governo enviou 400 policiais da gendarmeria à cidade de Bariloche. O governador da província de Río Negro, Alberto Weretilnek, disse à imprensa local que os saques não estiveram ligados à questão social. "Quebrar vitrines para roubar uma televisão é por outros motivos", afirmou.

O prefeito de Bariloche, Omar Goye, disse que a cidade vive "um problema social que tem muitos anos" e que foi agravado com os efeitos das cinzas de um vulcão que entrou em erupção no ano passado. Segundo ele, o caixa do governo local enfrenta problemas e os existem dívidas do governo com o pagamento dos planos sociais.

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