Filha de argentina sequestrada usa internet em busca por mãe

Atualizado em  14 de dezembro, 2012 - 09:13 (Brasília) 11:13 GMT
Susana Trimarco e Micaela, em Tucumán. AP

Micaela protesta ao lado da vó, Susana, contra a exploração sexual de qual sua mãe foi vítima

A luta da ex-funcionária pública argentina Susana Trimarco para encontrar sua filha, que a levou a se vestir de cafetina para procurá-la em prostíbulos, passou a contar com a participação direta de sua neta, a adolescente Micaela Sol Trimarco.

A adolescente, que tinha 3 anos quando sua mãe foi sequestrada, usa redes sociais na incessante busca por María de los Ángeles, conhecida como Marita Verón.

Um dia após a polêmica decisão da Justiça de absolver integrantes de uma rede de exploração sexual acusados pelo sequestro, Micaela convocou uma manifestação em tribunais de todo o país por meio de sua recém-criada conta no Twitter, @JusticiaPorMarita.

Em entrevista à BBC Brasil, sua avó, Susana, conhecida na Argentina como "Mãe Coragem", disse que vai lutar pela intervenção federal na Justiça de Tucumán, após a absolvição dos acusados do sequestro, que causou indignação no país.

Marita Verón foi sequestrada na rua em abril de 2002. Desde então, Micaela é educada pela avó e pelo pai, David Catalán, em San Miguel de Tucumán, na Província de Tucumán, onde Marita desapareceu.

"Micaela acaba de completar 14 anos e já assumiu o compromisso militante contra a exploração sexual. Organiza campanhas e é muito ativa. Dizem que tem personalidade parecida com a minha", disse Susana à BBC Brasil.

Na hora do protesto convocado pelo Twitter, Micaela escreveu com spray na calçada, em frente ao fórum de Tucumán: "No a la trata" (Não à exploração sexual, em português). A manifestação se repetiu em outras cidades do país, inclusive na capital, Buenos Aires. A expectativa é que outros doze acusados sejam julgados em 2013.

Campanha

Marita, com a mãe Susana e a filha Micaela. Arquivo pessoal

Marita desapareceu quando Micaela tinha apenas três anos. Decisão judicial causou comoção

Em outubro, Micaela gravou um vídeo para incentivar denúncias contra a exploração sexual, que ganhou apoio de artistas locais como o cantor Fito Paez. A campanha foi realizada pela Fundação María de los Ángeles, criada por Susana e onde Micaela costuma ajudar a avó.

"Micaela me ajuda e acredito que continuará a batalha que iniciei pela mãe e por outras mulheres", disse Susana em março à BBC Brasil.

Nesta quinta-feira, ela respondeu à nova entrevista. Desta vez, por escrito já que, segundo sua assessoria, amanheceu sem voz. Na véspera, havia realizado uma maratona de entrevistas, falado com a presidente Cristina Kirchner e com outros políticos em meio à "indignação", como disse a presidente, pela decisão da Justiça.

Em julgamento na terça-feira, os juízes de Tucumán argumentaram "falta de provas" para incriminar os 13 acusados de terem sequestrado Marita.

Susana disse que, além de apelar contra a decisão, iniciará o pedido de apoio para o "processo político" dos juízes do caso. "Também vou continuar lutando na rua, nos meios de comunicação e onde quer que seja contra a exploração sexual, por minha filha Marita e por todas as moças que passam e passaram pela que ela sofreu", afirmou.

Viva

Susana disse que, como mãe, sente que a filha está viva. "Aqui, no meu peito, sinto que ela está viva e meu desejo mais profundo é o de abraçá-la forte".

Ela contou que reza todas as noites pedindo "a Deus que chegue o dia em que ela, Micaela e Marita" estejam juntas. Susana fez um apelo para que os que a vejam, em qualquer parte do mundo, "avisem à Interpol" e que a "contenham emocionalmente até que eu chegue para encontrá-la".

Ela disse que nestes quase 11 anos se transformou em uma "investigadora" porque se não o tivera feito "ninguém o faria" e que, "apesar das injustiças", não perdeu a confiança na Justiça.

Na sua luta, Susana percorreu várias Províncias argentinas, se fez passar por cafetina e estima que liberou "pelo menos 150" mulheres que eram exploradas sexualmente. Algumas das que ajudou disseram ter visto Marita em um dos prostíbulos, o que repetiram no tribunal de Tucumán.

Susana disse que sempre contou para Micaela a "verdade" sobre Marita e que, com os anos, a neta foi percebendo o que havia ocorrido com a mãe.

"Mas Micaela me diz que não se lembra de nada sobre a mãe. Só sabe o que eu e meu marido e os que a conheceram lhe contamos". Susana disse que vai "continuar lutando até o dia de sua morte para recuperar" sua filha.

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