Percepção de corrupção melhora no Brasil, mas problema ainda é endêmico, diz ONG

Atualizado em  5 de dezembro, 2012 - 11:41 (Brasília) 13:41 GMT

Para Transparência Internacional, corrupção ainda é 'endêmica' no Brasil

A percepção da corrupção no setor público do Brasil vem melhorando ligeiramente ano a ano, mas o problema ainda é endêmico no país, na avaliação de um representante da ONG Transparência Internacional.

A organização divulgou nesta quarta-feira um ranking global de percepção da corrupção no setor público que coloca o país em 69º lugar entre 176 países pesquisados.

O ranking é liderado pela Dinamarca, que tem a menor percepção de corrupção do mundo, seguida de Finlândia e Suécia. A Somália é o país com a mais alta percepção de corrupção, segundo a Transparência Internacional (TI).

Apesar de a TI publicar desde 2001 seu ranking de percepção da corrupção, as mudanças na metodologia e no número de países incluídos na lista impedem uma comparação de resultados ano a ano. Mas a organização vê a situação no Brasil com viés positivo.

"A corrupção é algo que sempre houve, não surgiu agora. É um problema endêmico, mas tem havido uma ligeira melhora ao longo dos últimos dez anos. Se o país continuar no caminho atual, com mudanças na lei e castigos aos corruptos, acredito que vai haver uma melhora, refletida no ranking a partir do próximo ano", afirmou à BBC Brasil o diretor da TI para as Américas, Alejandro Salas.

Punição

Para Salas, a lei de acesso às informações públicas e a lei da Ficha Limpa são mudanças importantes realizadas recentemente no Brasil para aumentar a transparência e a prevenção à corrupção.

Mas ele acrescenta que punições como a recente condenação pelo STF de réus poderosos no processo do mensalão, ou mesmo a demissão de ministros suspeitos de irregularidades, podem aumentar a percepção do problema por conta de sua exposição na mídia, mas têm também um efeito importante para prevenir novos casos.

Para diretor de ONG, punição a figuras poderosas como José Dirceu tem efeito de prevenção

"Se um prefeito de uma cidadezinha pequena do Brasil, por exemplo, vê que uma pessoa tão poderosa quanto (o ex-ministro condenado no caso do mensalão) José Dirceu pode terminar na prisão, vai pensar duas vezes antes de cometer um ato de corrupção", afirma.

"A punição é um fator muito importante, porque em muitos países as mudanças positivas na lei não são acompanhadas de punições", diz Salas. Ele cita o caso dos 65 PMs presos no Rio de Janeiro na terça-feira sob a acusação de receber propinas para não reprimir o tráfico de drogas e de vender armas para traficantes como outro bom exemplo para reduzir a sensação de impunidade no país.

Segundo ele, o impacto do julgamento do mensalão sobre a percepção da corrupção ainda não pode ser medido no ranking deste ano, que leva em consideração dados de várias pesquisas realizadas ao longo de até 24 meses com empresários, investidores e analistas de mercado do mundo todo.

"Em 2013 é provável que isso já seja refletido no ranking", diz. Uma mudança de metodologia feita neste ano pela TI permitirá que os resultados de ano a ano sejam comparados, o que não era possível no passado, segundo Salas.

América Latina

O ranking da TI deste ano coloca o Brasil entre os países com menor percepção de corrupção na América Latina, atrás somente de Chile (20º no ranking geral), Uruguai (empatado no 20º posto), Porto Rico (33º) e Cuba (58º).

O Brasil fica à frente de outras grandes economias da região, como Colômbia (94º), Argentina (102º) e México (105º).

A Venezuela e o Haiti, empatados na 165ª posição geral do ranking, são os países com a mais alta percepção de corrupção nas Américas, pouco atrás do Paraguai, que ocupa a 150ª posição. Canadá (9º), Barbados (15º) e Estados Unidos (19º) têm a menor percepção de corrupção no continente.

A Grécia, que vive grave crise econômica, tem a maior percepção de corrupção na União Europeia

O Brasil está emparado com a África do Sul na 69ª posição, mas à frente dos demais países emergentes do grupo Brics - China (80º), Índia (94º) e Rússia (133º).

Para Alejandro Salas, o fato de o Brasil estar entre os melhores da América Latina e à frente de outros grandes países emergentes é positivo, mas o ranking também mostra que "ainda falta muito a ser feito para o combate à corrupção no país, que está bem longe dos países desenvolvidos".

Impacto da economia

O ranking deste ano indica ainda um impacto da situação econômica global na percepção da corrupção entre os países.

A Grécia, que enfrenta uma série crise econômica e financeira, tem a maior percepção de corrupção entre os 27 países da União Europeia, na 94ª posição geral.

No ano passado, o país da União Europeia mais mal colocado no ranking era a Bulgária, que neste ano ficou na 75ª posição.

Para a Transparência Internacional, há uma correlação forte entre pobreza, conflito e os níveis de percepção de corrupção.

"Os governos precisam integrar as ações anticorrupção em seu processo de tomada de decisões", afirma Huguette Labelle, presidente da organização.

"As prioridades incluem melhores regras sobre lobby e financiamento político, uma maior transparência nos gastos públicos e nos contratos oficiais e uma maior prestação de contas dos órgãos públicos à população", diz.

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