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Entenda por que América Latina tem 'crescimento chinês' e recessão

Atualizado em  30 de novembro, 2012 - 06:29 (Brasília) 08:29 GMT
Favela do Paraisópolis em São Paulo (Foto AFP)

O desaquecimento brasileiro escondeu o 'sucesso' de outros vizinhos

Da recessão no Paraguai (de -1,5%) ao crescimento "chinês" no Panamá (de 8,5%), 2012 deve terminar com um cenário econômico de disparidades na América Latina.

As razões apontadas por diferentes analistas ouvidos pela BBC Brasil são variadas. Vão da alta no valor dos minérios, que deve ajudar o Peru a fechar o ano com crescimento de 6%, até o aumento de gastos públicos em um ano de eleição, que deve manter alto (em 5,7%) o crescimento na Venezuela em 2012.

Além de fatores específicos de cada país, o aumento do poder de compra na região se revelou mais uma vez como um motor de expansão econômica. Em um estudo divulgado neste mês, o Banco Mundial aponta um crescimento de 50% na classe média da região, desde 2003, e atribui o avanço - que resulta em mercados internos mais sólidos - também a políticas de redução da pobreza.

Clique Leia mais: América Latina tem ano de 'perdedores' e 'vencedores' na economia

Abaixo, entenda caso a caso por que, na visão dos analistas, alguns países continuam crescendo rapidamente, enquanto outros pisaram no freio:

Panamá

Canal do Panamá (Foto AP)

Canal do Panamá: investimentos de US$5,2 bilhões

Em 2012 o Panamá deve crescer 8,5% (FMI), depois de ter crescido 10,6% em 2011 e 7,6% em 2010. Além disso, desde 2006, a pobreza no país caiu de 38% para 26%.

Segundo Oganes, esse crescimento é impulsionado por um boom no setor de construção e o efeito multiplicativo dos investimentos massivos feitos na expansão do movimentado canal que liga o Oceano Atlântico ao Pacífico.

O país assumiu a responsabilidade pelo canal (que antes era dos EUA) em 2000 e passou a reinvestir os recursos obtidos com sua administração internamente. Só a expansão do canal está custando US$ 5,2 bilhões.

Além disso, o governo está investindo em outras obras de infraestrutura - como linhas de metrô ou serviços de comunicação e energia.

Para completar, por ser um paraíso fiscal e ter uma economia dolarizada o Panamá tem atraído um grande fluxo de recursos, consolidando-se como um importante centro financeiro da região.

Peru

Mina peruana (Foto Wikicommons/Ottocarotto)

Minérios representam 63% das exportações peruanas

A previsão do FMI é que o Peru cresça 6% este ano, liderando o ranking das maiores expansões sul-americanas. Desde 2005, o país só não cresceu mais de 6% em 2009.

Entre os fatores que têm favorecido a economia peruana estão os preços historicamente altos dos minérios, que representam 63% do total exportado pelo país.

Também ajuda o fato que, dentro dessa categoria, a pauta de produção peruana é variada, incluindo ouro, cobre, zinco e prata. Frequentemente, uma alta do ouro compensa uma baixa do cobre, como explica Oganes.

O país tem níveis de investimentos altos se comparados com os vizinhos. Lá a taxa é de 25% do PIB, contra 18% do Brasil, por exemplo. E no Peru, 80% dos investimentos são privados.

Vários acordos de livre comércio assinados nos últimos anos também ajudariam a atrair investimentos de fora.

Para completar, um crescimento vigoroso da classe média peruana teria impulsionado seu mercado interno. Há planos para dobrar o numero de shopping centers no país em dois anos, por exemplo.

México

Maquiladora mexicana (Foto Wikicommons - Guldhammer)

Maquiladora mexicana: produtos do país estão ganhando uma fatia maior do mercado dos EUA

O México teria crescido 3,8% neste ano segundo o FMI. Seu crescimento seria mais baixo que o da maior parte dos países andinos, mas como o país tem uma economia maior e mais diversificada, acabou substituindo o Brasil como a menina dos olhos dos investidores estrangeiros.

A taxa de câmbio é uma das mais atrativas para os investidores e o mercado interno tem crescido de forma vigorosa, segundo analistas.

Além disso, o país não só está se beneficiando da recuperação da economia americana para manter o nível de suas exportações, mas também tem conseguido ampliar sua fatia de mercado nos EUA.

Para Oganes, em parte isso ocorre em função dos aumentos dos salários na China, que têm reduzido o diferencial entre a mão de obra chinesa e a mexicana.

O resultado é que não só as exportações mexicanas se tornaram mais atrativas, mas o México passou a atrair investimentos para o setor manufaturado que iriam para a China.

Paraguai

Soja (Foto Reuters)

Quebra da safra de soja castigou o Paraguai

Com uma retração de 1,5% no PIB, o Paraguai teria o pior desempenho em 2012 entre os latino-americanos segundo o FMI.

Para se ter uma ideia do tombo que esse índice representará se confirmado, basta lembrar que em 2010 o Paraguai foi o país que mais cresceu na região, tendo uma expansão de mais de 15%.

A retração ocorre em um momento em que o Paraguai está politicamente isolado do Mercosul e da Unasul, mas é atribuída a duas outras causas por analistas.

Primeiro, a seca do fim de 2011 e início de 2012, que fez a produção e exportação de soja do país cair pela metade.

Segundo, a suspensão das exportações de carne paraguaias para vários países, após a detecção de febre aftosa no gado local.

Tentando reverter a recessão, o Banco Central paraguaio já anunciou uma expansão dos gastos em infraestrutura. Ele também prevê uma “supersafra” de soja para 2013.

O FMI espera que o Paraguai se expanda 11% neste ano.

Brasil

Estádio de Manaus (Foto Rio)

Construção do estádio de Manaus para Copa: desafio de retomar o crescimento

Já em 2011 o Brasil deu sinais de que poderia deixar de ser a estrela dos investidores ao passar de um crescimento de 7,5% para 2,5%. Em 2012, voltaria a decepcionar, segundo o FMI, com estimados 1,5%.

Munyo ressalta que a indústria brasileira parece ter chegado ao limite de sua capacidade instalada e há um importante déficit de infraestrutura a ser suprido.

Os baixos índices de investimento na indústria são apontados como uma das causas da desaceleração.

"O problema foi que o consumo interno continuou a crescer mas a produção foi freada", opina Neil Shearing.

"Até recentemente, a política de juros altos parece ter sido um grande freio para investimentos e a economia nos últimos anos", diz Solimano.

Para 2014, tanto o FMI quanto o JP Morgan esperam uma recuperação do país, com um crescimento de 4% (que faria o Brasil ultrapassar o México).

Os pacotes de estímulos, as obras da Copa e Olimpíadas e a queda dos juros contribuíriam para a retomada.

Argentina

Cristina Kirchner (Foto AFP)

Presidente Argentina Cristina Kirchner: políticas polêmicas de controle de câmbio

A Argentina havia crescido 8,9% no ano passado, mas este ano ficaria com uma média de 2,6% segundo o FMI.

De acordo com Shearing, entre os motivos da desaceleração estariam as estritas medidas de controle de capitais e câmbio adotadas pelo governo da presidente Cristina Kirchner.

Agora, toda aquisição de divisas feita no país precisa da aprovação do Fisco – o que dificulta as importações e até as viagens internacionais dos argentinos.

"Ao contrário do que ocorre com o Brasil, na Argentina há sérias dúvidas sobre se haverá uma retomada do crescimento pela crise de confiança interna que se produziu como consequência das medidas adotadas pelo governo”, opina Munyo.

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