Grampo em celular de menina desaparecida detonou inquérito inédito na Grã-Bretanha

Atualizado em  29 de novembro, 2012 - 08:37 (Brasília) 10:37 GMT
Milly Dowler

Jornalistas invadiram caixa de mensagens da jovem Milly Dowler, que estava desaparecida

O juiz que liderou o maior inquérito já feito na Grã-Bretanha sobre a conduta da imprensa vai publicar nesta quinta-feira o relatório com as conclusões de sua investigação.

O documento produzido pelo Lorde Brian Leveson – depois de oito meses de investigações – deve levar a uma discussão entre legisladores britânicos para reformulação das leis que regulam a imprensa no país.

A imprensa britânica é autorregulada por um órgão conhecido como Comissão de Reclamações sobre Imprensa (PCC, na sigla em inglês), que tem poderes apenas para fazer recomendações e é custeado pelos próprios veículos de comunicação.

Mas algumas pessoas que foram vítimas de abusos recentes da imprensa estão pedindo a criação de um órgão regulador com financiamento independente e com maiores poderes para multar e punir jornalistas e veículos.

Milly Dowler

O estopim do Inquérito Leveson foi um escândalo envolvendo o tabloide News of the World e a morte de uma adolescente de 13 anos chamada Milly Dowler.

Brian Leveson

Relatório de Leveson deve recomendar criação de agência reguladora para imprensa britânica

Dowler desapareceu em março de 2002, mas seu corpo só foi encontrado seis meses depois. Na época, repórteres do News of the World conseguiram invadir a caixa de mensagens do telefone celular da adolescente.

A caixa estava lotada, e os repórteres do tabloide apagaram algumas das mensagens – na esperança de que novas mensagens pudessem ser gravadas, gerando novas pistas sobre o paradeiro da jovem.

No entanto, a polícia e a família de Milly Dowler, ao perceberem a atividade na caixa de mensagens do celular, chegaram a acreditar que ela ainda estivesse viva.

A invasão de privacidade ilegal feita pelos repórteres do tabloide só foi revelada no ano passado pelo jornal britânico The Guardian.

O escândalo fez com que o magnata da mídia Rupert Murdoch, proprietário do News of the World, decidisse fechar o tabloide.

A revelação também contribuiu para que o premiê britânico, David Cameron, estabelecesse o inquérito, conhecido no país como Leveson Inquiry, que analisou diversos casos de abusos cometidos pela imprensa. Durante oito meses, diversas celebridades que sofreram com abusos da imprensa – com seus telefones grampeados ou privacidade invadida de outras formas ilegais – foram ouvidas, como Hugh Grant, Sienna Miller, Max Mosley e JK Rowling.

Possíveis medidas de regulação

  • Regulação mais rígida da imprensa, com leis mais duras
  • Criação de um órgão de regulação fortalecido, com poderes de investigar casos e financiado de forma independente (sem depender de veículos de comunicação)
  • Criação de um ombudsman para a imprensa, que supervisione os padrões éticos dos jornais

A investigação sobre a imprensa britânica teve repercussões também na política. O diretor de comunicação do premiê britânico, Andy Coulson, deixou seu cargo no governo. Neste mês, ele foi indiciado por pagar propina a policiais e autoridades em troca por informação. Os casos aconteceram quando Coulson era editor do News of the World.

Reformas

Mas as consequências mais profundas do Inquérito Leveson devem começar a aparecer a partir desta quinta-feira, quando o juiz divulgará seu relatório.

O documento com centenas de páginas deve fazer críticas a jornalistas, políticos e policiais.

Existe a expectativa de que Leveson recomendará a criação de uma agência reguladora da imprensa britânica com maiores poderes.

Mas essa possibilidade é polêmica entre jornalistas, donos de veículos e até mesmo dentro do governo britânico.

Hugh Grant

Hugh Grant foi uma das testemunhas do inquérito, que durou oito meses

A coalizão que governa o país está dividida. O premiê David Cameron é contra a criação do órgão de regulação. Mas o líder do partido Liberal Democrata, o vice-premiê Nick Clegg, estaria mais inclinado a acatar a recomendação.

Clegg e Cameron receberam uma cópia do relatório na quarta-feira – 24 horas antes da divulgação oficial – e passaram o dia reunidos para discutir o assunto.

O analista político da BBC, Nick Robinson, afirma que a decisão de Cameron sobre esse assunto está entre as mais difíceis de toda a sua gestão, por envolver interesses de setores poderosos da sociedade e devido à falta de consenso dentro da coalizão – o que poderia provocar uma crise política.

Uma pesquisa recente feita pela rádio BBC Radio 5 live revelou que dois terços dos adultos britânicos não confiam – ou confiam pouco – no que leem nos jornais. Quase metade dos entrevistados disse que gostaria de ver um controle maior da imprensa por parte da Justiça.

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