Na Catalunha, 160 cidades já se declararam 'autônomas' da Espanha

Atualizado em  24 de novembro, 2012 - 22:56 (Brasília) 00:56 GMT
Bandeiras catalãs (Foto AP)

Eleição na Catalunha pode abrir caminho para referendo de independência

Um total de 160 das 947 localidades da região da Catalunha, na Espanha, aprovaram moções se declarando "território catalão livre e soberano" desde setembro.

Essas moções são apenas simbólicas, mas foram aprovadas em um momento-chave para a história da região e da Espanha.

Neste domingo (25), os catalães votarão em eleições que podem abrir caminho para um referendo sobre sua independência.

Presidente do governo local e um dos principais defensores do referendo, Artur Mas, do partido nacionalista Convergência e União (CiU), convocou a votação depois que Madri se recusou a negociar a concessão de soberania fiscal para a Catalunha. Agora, vai testar nas urnas a popularidade de suas propostas.

O debate sobre o direito de convocar o referendo é apaixonado nas localidades catalãs "livres e soberanas", entre elas Vilafranca del Penedès, a 50 km de Barcelona - a principal região produtora de um famoso tipo de vinho espumante, a cava.

Às vésperas dessa votação crucial, a BBC mostra o que pensam os habitantes dessa localidade e o que a moção de independência mudou em seu dia-a-dia.

Na prefeitura

Na prefeitura de Vilafranca a bandeira catalã não é acompanhada da espanhola, como de costume. O único retrato institucional pendurado no escritório do prefeito, Pere Regull, é o de Artur Mas, seu colega de partido.

Embora a moção que declara a cidade como território "livre e soberano" tenha sido impulsionada pelos grupos Esquerra Republicana de Catalunya e Candidatura de Unitat Popular, foi apoiada pelo CiU.

Seu texto pede ao governo catalão que faça uma consulta sobre a independência da região dentro de dois anos e diz que a lei espanhola só será vigente na localidade até essa data da consulta.

"É um movimento simbólico que responde ao sentimento (nacionalista). A Catalunha como nação tem sua soberania e seu direito de decidir se quer ficar ou deixar (a Espanha)", diz Regull, em entrevista à BBC Mundo.

A oposição socialista vê a questão de forma um pouco diferente.

Pere Regull (Foto BBC)

Pere Regull diz que a Catalunha tem o direito de decidir se fica ou deixa a Espanha

"Somos a favor de um referendo, mas contra a independência. E a moção se posiciona a favor dela", explica Francisco Romero, porta-voz do Partido Socialista da Catalunha, em Vilafranca.

No bar

Do bar em que trabalha, a poucos metros da prefeitura, Roberto cumprimenta quase todos que passam na rua em frente.

Cubano, vive há 20 anos em Vilafranca e fala catalão com um forte sotaque caribenho. O que pensa sobre a moção independentista?

"Essa não é minha guerra", diz ele, olhando para as mesas vazias do bar. "Eu me preocupo mais com a crise. Fui para Miami por algumas semanas e quando voltei todo mundo estava falando de independência."

Um cliente entra na conversa para explicar por que apoia a independência. "Imagine que você me dá 18 euros e eu te devolvo três e fico com o resto. É simples assim. A Catalunha dá para a Espanha 18 e recebe três. Por isso temos essa dívida", exemplifica, referindo-se ao deficit fiscal da região.

O cubano é mais cético sobre a solução do problema. "Se você der os 18 para os políticos daqui, eles vão gastar 20", diz. "Políticos são como jogadores, sempre gastam mais do que têm."

Questões econômicas estão no centro do debate sobre a independência da Catalunha. E um dos pontos mais polêmicos é justamente a diferença entre os recursos que a região arrecada para o país e os repasses que recebe de Madri.

Segundo o governo catalão, entre 1986 e 2009 esse deficit ficou em uma média de 8% do PIB.

Para alguns, a diferença constitui "espoliação" ou "roubo". Outros, a consideram um ato de "solidariedade" com comunidades espanholas mais desfavorecidas.

A Catalunha é a região mais industrializada da Espanha, mas também tem uma taxa de desemprego de 22% - dois pontos percentuais mais alta que a média nacional. Além disso, como o resto do país, tem sido obrigada a fazer cortes substanciais em seu orçamento.

Na feira

Em uma feira de rua em Vilafranca, durante a campanha para as eleições deste domingo, postos de propaganda dos partidos políticos dividem espaço com barraquinhas de hortaliças e vendedores de roupa barata.

A oferta dos partidos é variada. Inclui independência, união com a Espanha e federalismo.

Em meio ao burburinho da feira, a argentina Maria, que vive em Villafranca há 22 anos, conta o que, na sua opinião, mudou desde que a localidade se declarou "livre e soberana": "Nada. Há muitas bandeiras catalãs nas varandas, que embelezam a cidade."

Para Maria, a independência beneficiaria os catalães. "Inicialmente seria difícil para a região, mas logo ela prosperaria", opina.

Rafael concorda e diz que, apesar de a declaração ser apenas simbólica, seu simbolismo é de grande importância. "Ele reflete o sentimento das pessoas daqui", afirma.

Vinhedos de Vilafranca (Foto BBC)

Vinhedos de Vilafranca: medo de boicote

Já Marina, que está desempregada, diz que recebe seu seguro desemprego graças ao governo central e não sabe como ficaria sua situação se a Catalunha se tornasse independente.

"Com a crise, esse não é um bom momento (para impulsionar a independência)", acredita.

Nos vinhedos

Os vinhedos nos quais é fabricada a famosa cava catalã no outono envolvem os arredores de Vilafranca como um extenso manto amarelo.

A venda de cava gera um total de 1 milhão de euros (R$ 2,7 milhões) anuais, fazendo do setor o motor econômico da localidade juntamente com a indústria automobilística.

Os representantes da indústria evitam se pronunciar sobre as demandas por independência. "Fazemos vinho, não política", costumam repetir.

Mas nem sempre a separação é possível. Em 2005, um boicote à cava catalã foi promovido por internet, fazendo as vendas espanholas caírem 6,6%, segundo o jornal El País.

Agora, com a polêmica sobre a independência regional no centro do debate político espanhol, crescem os temores de um novo boicote.

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