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Como a vitória de Obama afeta o futuro das relações com o Brasil?

Atualizado em  7 de novembro, 2012 - 19:22 (Brasília) 21:22 GMT
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Para analistas, a ausência da América Latina em campanha de Obama é incongruente

Reeleito presidente dos Estados Unidos, Barack Obama governará a maior potência do planeta por mais quatro anos, dando continuidade à agenda democrata em diversas áreas. Mas como sua permanência no poder deve afetar as relações entre Washington e Brasília?

A BBC Brasil ouviu o embaixador americano em Brasília, Thomas Shannon, analistas de relações internacionais e economistas para tentar dimensionar os impactos em setores como imigração, economia, política externa, cooperação cultural e tecnológica.

O estreitamento das relações econômicas é visto como um desdobramento positivo, com uma quase paridade dos investimentos diretos dos dois países, embora a balança comercial ainda seja muito mais favorável aos Estados Unidos.

Entre janeiro e setembro de 2012, o Brasil registrou um saldo comercial negativo de US$ 2,5 bilhões com os Estados Unidos, e os americanos são o destino de 12% das exportações brasileiras.

Na medida em que os dois países se aproximam e o Brasil ganha mais peso no cenário internacional, no entanto, também crescem as divergências - rusgas sobre subsídios agrícolas, críticas quanto às medidas americanas anticrise e potenciais diferenças sobre Irã, Síria e o processo de paz entre palestinos e israelenses.

Se por um lado Obama corteja os turistas brasileiros, por outro o país, assim como a América Latina, ficou de fora de suas plataformas durante a campanha. Para analistas, a ausência da região indica uma incongruência.

Já o embaixador americano diz tratar-se apenas de um documento político em que países com relações difíceis tendem a ser citados, o que não é o caso do Brasil, que mantém um "ótimo" relacionamento com os Estados Unidos, na visão do diplomata.

Veja os depoimentos dos personagens entrevistados pela BBC Brasil.

Thomas Shannon, embaixador americano no Brasil

"As relações entre o Brasil e os Estados Unidos têm mantido uma trajetória muito positiva e os dois países estão comprometidos em construir e fortalecer estruturas de comprometimento mútuo. Os presidentes Barack Obama e Dilma Rousseff têm demonstrado isso.

No âmbito econômico, vivemos uma época de investimentos diretos recordes e gradualmente nos aproximamos da paridade. A cada US$ 2 que os Estados Unidos investem no Brasil, o Brasil investe US$ 1 nos Estados Unidos.

Quanto à balança comercial, nesse momento os Estados Unidos estão com superávit, mas acho que isso vai começar a mudar conforme o Brasil expande as exportações de produtos manufaturados, como aeronaves.

Divergências comerciais são normais. Somos dois grandes países, dois grandes mercados. Washington deve passar a lidar com o Brasil como lida com parceiros como o Canadá, México e alguns países europeus, com quem divergências são parte integral da relação, mas o objetivo é manter um diálogo amplo para respeitar os interesses mútuos.

Acredito que as posições dos dois países em assuntos de política externa, como Síria, Irã e o processo de paz no Oriente Médio, não devem se tornar problemas. Posso dizer que tanto o Brasil como os Estados Unidos estão comprometidos em buscar soluções pacíficas.

Também deixamos claro que entendemos as ambições do Brasil em se tornar um membro permanente do Conselho de Segurança da ONU e que é necessário reformar tais instituições. É importante ressaltar que, sem um acordo dos brasileiros com países como os Estados Unidos, essas intenções tendem a ser somente ambições.

O presidente Obama deixou claro a prioridade do Brasil em sua agenda com a visita ao país em março do ano passado. Foi a primeira vez que um presidente americano visitou o Brasil antes de o colega brasileiro recém-eleito ir a Washington.

Creio que o discurso do presidente na Flórida, quando ressaltou o interesse dos Estados Unidos em expandir o fluxo de turistas brasileiros e chineses ao país, foi uma demonstração da relevância dessas nações para os americanos.

Já o fato de a América Latina e o Brasil não terem destaque no programa de governo exposto durante a campanha deve-se ao tom político do documento. A tendência é focar em nações com relações polêmicas.

Quando se procura por parceiros para enfrentar os maiores desafios do século 21, o Brasil é certamente uma das melhores escolhas e, sendo as duas maiores democracias do hemisfério ocidental, os dois países são parceiros inevitáveis.

Lia Valls, pesquisadora do IBRE / Fundação Getúlio Vargas

Não creio em grandes mudanças no setor econômico. Os dois países têm mostrado uma agenda crescentemente protecionista. No entanto, é necessário frisar que os Estados Unidos têm sua pauta econômica decidida em grande parte pelo Congresso, e não tanto pela Casa Branca.

Se o país continuar com seus subsídios agrícolas, por exemplo, veremos uma crescente das críticas brasileiras.

A América Latina, assim como o Brasil, não tem sido prioridade para os Estados Unidos. Além da relevância econômica, os países têm importância geopolítica estratégica e, nesse quesito, nações como Rússia, Índia e China se destacam mais do que o Brasil.

Denilde Holzhacker, professora de relações internacionais da ESPM

Vemos grandes divergências entre os dois países, em setores importantes como as medidas anticrise e a guerra cambial, embora obviamente eles mantenham uma ótima relação bilateral.

Em termos de política externa, vemos fortes divergências entre Washington e Brasília quanto a países da região, como Cuba, Venezuela e Paraguai.

Acredito que a agenda das duas nações seguirá este padrão de aprofundamento dos compromissos mútuos por um lado, e crescimento de divergências em outros assuntos por outro.

Quanto às ambições no Conselho de Segurança da ONU, o Brasil tem mostrado decepção com a desconfiança dos americanos, que vêm mantendo uma postura neutra. Não tornam público nem um apoio nem uma rejeição à vontade brasileira de obter um assento permanente no órgão. Vale lembrar que os Estados Unidos manifestaram apoio público à Índia, que tem intenções semelhantes.

As questões econômicas devem dominar os primeiros dois anos do segundo mandato de Obama. Aspectos de segurança internacional só devem tornar-se assunto com o Brasil em casos emergenciais, como uma potencial intervenção na Síria, por exemplo.

O fato de o Brasil não ter entrado no programa de governo de Obama durante a campanha é realmente uma incógnita, já que o país vem recebendo cada vez mais importância para o governo democrata.

A América Latina é vista por Washington como uma extensão de seu quintal, de sua área de influência. Rússia, China e Índia receberam maior destaque.

Poderemos ver avanços na questão imigratória, o que tende a influenciar os brasileiros que vivem nos Estados Unidos, já que parlamentares ligados às minorias tendem a aumentar sua base no Congresso americano.

Gabriel Rico, CEO da Amcham – Câmara de Comércio Brasil-EUA

A perspectiva é de que as relações comerciais entre os dois países mantenham uma trajetória de evolução. Os investimentos diretos dos americanos no Brasil chegaram ao recorde de US$ 10 bilhões neste ano, algo que é visto como um reflexo das visitas de Obama ao Brasil, em março do ano passado, e de Dilma aos Estados Unidos, em abril deste ano.

O Brasil tende a ganhar mais importância no segundo mandato de Obama. Ainda neste ano, a administração deixou claro que o país está entre os dez mais importantes para Washington.

Como as duas maiores potências agrícolas do mundo, Estados Unidos e Brasil tendem a se aproximar cada vez mais. Dito isso, é preciso destacar que não há país algum no mundo que mantenha uma relação comercial intensa com um parceiro sem que existam divergências.

Creio que os subsídios agrícolas dos Estados Unidos tendem a ser reduzidos. É algo que interessa a Obama, porque são medidas que custam muito ao governo. No entanto, é uma questão mais política do que econômica, que tende a enfrentar rejeição no Congresso, principalmente dos parlamentares associados ao lobby de fazendeiros.

É muito importante eliminar os subsídios. Washington abriria um precedente internacional.

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