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Documentário conta história da Democracia Corinthiana

Atualizado em  26 de novembro, 2012 - 07:25 (Brasília) 09:25 GMT
Agência Estado

Corinthians coloca a democracia em campo na final do Paulistão

O ano era 1983. O Corinthians entra no gramado do Morumbi, onde disputaria a final do Campeonato Paulista contra o São Paulo. Nas mãos dos jogadores, uma enorme faixa dizia: "Ganhar ou perder, mas sempre com a Democracia". Então um clube que ainda lutava para conquistar um lugar entre os mais bem sucedidos do Brasil, o Corinthians embalava sua torcida com um elenco que ganhava mais à medida que jogadores e dirigentes decidiam juntos os rumos em campo e fora dele.

Os corintianos antecipavam o espírito que aos poucos tomaria conta do país, culminando na campanha "Diretas Já", em 1984. O Brasil queria democracia e o futebol se misturava à política para dar amplitude a esse desejo. Esta história será contada pelo filme Democracia em Preto-e-Branco, de Pedro Asbeg, a ser finalizado ainda em 2013.

Asbeg entrevistou personalidades do mundo do futebol e de fora dele, como os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, o escritor Marcelo Rubens Paiva e o publicitário Washington Olivetto.

O filme também mostra a gênese de um astro conhecido por sua genialidade para além das quatro linhas, Sócrates.

"O período que vai de 1982 a 1984, a chamada Democracia Corinthiana, é único, não existe nada igual no futebol. Começa com a volta do Sócrates da Copa do Mundo da Espanha e vai até meados de 1984, quando a emenda das Diretas Já é derrubada pelo Congresso e ele, desiludido, vai jogar na Itália", detalha Asbeg em entrevista à BBC Brasil.

Diretor de diversos curta-metragens sobre futebol, boa parte deles sobre ídolos do Flamengo, seu time de coração, Asbeg também mostra em Democracia em Preto-e-Branco outro femômeno associado à redemocratização no país, o chamado Rock Brasil, que conquistou os craques rebeldes - como o atacante Walter Casagrande e o próprio Sócrates.

A Democracia Corinthiana

  • Jogadores, equipe técnica, diretores do clube tinham direito a voto, com o mesmo peso.
  • Jogadores opinavam sobre contratações e escalação do time.
  • Prêmios em dinheiro após os jogos, o chamado bicho, eram dividudos igualitariamente entre todos os membros do elenco, de roupeiros a jogadores.
  • Horários de treinos e datas de viagem eram decididos pelo grupo.
  • Bebiba alcoólica foi liberada após os jogos.
  • Concentração antes dos jogos não era obrigatória para casados e para Sócrates (o que estava previsto no contrato do meia).
  • Nas camisas do jogadores, sobre os número, onde atualmente há marcas de patrocinadores, estava escrito "Democracia".

Destacam-se no filme canções do período, como Inútil, da banda Ultraje a Rigor, que questiona a capacidade do povo brasileiro de falar e votar corretamente, e ainda Tédio (com um T bem grande pra você), interpretada pela Legião Urbana, um retrato da rebeldia dos punks de Brasília.

"O filme mostra como o trinômio Futebol, Política e Rock and Roll mudou a história do país", complementa Asbeg.

Em seus depoimentos ao longa-metragem, os ex-presidentes FHC e Lula concordam com o diretor. O primeiro diz que a "efervescência" da Democracia Corinthiana acelerou a velocidade das mudanças, dada a capacidade de mobilização do futebol. Já Lula qualifica o período como "Era de Ouro do Corinthians", e lembra que a vitória em campo deu legitimidade ao sistema mais participativo implementado no clube e mostrou ao povo a importância do voto.

O pontapé inicial

A situação no Corinthians em 1981 era de crise. O time havia sido rebaixado para a Taça de Prata e estava fora das finais do Campeonato Paulista. O novo presidente do clube, Valdemar Pires, do mesmo grupo do polêmico e centralizador Vicente Matheus, sentia a pressão da torcida, a Fiel, por resultados. Aos poucos, Pires cedeu espaço à crescente mobilização dos jogadores.

No final daquele ano, o time faz uma excursão pela América Central na qual o elenco decidiu que dois de seus integrantes - a estrela Paulo César Caju e o goleiro Rafael - não partilhavam do espírito do grupo, e deveriam sair.

Divulgação

Poster do filme 'Democracia em Preto-e-Branco' destaca Sócrates

Na sequência, com a nomeação como diretor de futebol do sociólogo Adílson Monteiro Alves, que era filho de um antigo diretor do clube, a voz dos jogadores se tornaria ainda mais audível. "Jovem de cabeça aberta", nas palavras de Valdemar Pires, Adílson apoiou as propostas dos integrantes mais politizados do grupo, como Sócrates e o lateral Wladimir.

"O Corinthians era a metáfora perfeita para a situação no país. Vinha de um comando autoritário, do Vicente Matheus, estava em crise e seus jogadores ansiavam por mais participação. Assim como o país inteiro", compara Asbeg, se referindo ao ano de 1982, quando o país teve suas primeiras eleições gerais para governador desde o início do regime militar, embora ainda fosse comandado por um general.

"Por isso, quando o publicitário Washington Olivetto ouviu falar do que estava ocorrendo dentro do clube, chamou aquilo de Democracia Corinthiana. O termo pegou e acabou ajudando o Corinthians a sair da lama e a se tornar um clube nacional, que viria a ser consagrado nas décadas seguintes", diz Asbeg.

Com craques em campo como Casagrande, Zenon, Juninho, Wladimir e Biro-Biro, e ao redor da força crítica de Sócrates, o Corinthians seria bicampeão paulista em 1982 e 1983, o que não ocorria havia 30 anos.

"Comecei a gostar. Comecei a me sentir um cidadão", relembra o atacante Walter Casagrande, no filme.

Entre os dois campeonatos, os jogadores decidiram o substituto do técnico Mario Travaglini, que deixara o clube para dirigir o poderoso São Paulo.

O escolhido foi Zé Maria, que atuava como jogador.

"O Adílson me ligou e disse que haveria uma reunião na casa do Wladimir. Sócrates e Casagrande estavam lá também. Sócrates disse: 'A gente ouviu o grupo e gostaríamos muito que você assumisse o posto de técnico'. Faltavam dez jogos para a final do campeonato (Brasileiro) e eu aceitei. Havia uma solidariedade muito grande entre nós. E acabamos fazendo um final de campeonato muito bonito", conta Zé Maria à BBC Brasil.

"Circunstância excepcional"

Foto: BBC

Asbeg vê na Democracia Corinthiana metáfora para sutuação no Brasil no início dos anos 80

O comentarista esportivo Juca Kfouri acompanhou de perto a Democracia Corinthiana. Estava ao lado de Olivetto em um seminário universitário quando o termo foi cunhado.

Kifouri, que também falou a Pedro Asbeg no filme, afirma que do ponto de vista desportivo, a democracia foi um sucesso.

"Aquilo foi muito especial, numa circunstância histórica excepcional no Brasil e com a feliz coincidência de reunir agentes tão originais no mesmo lugar e na mesma hora", observa Kfouri à BBC Brasil.

O comentarista, no entanto, não enxerga um legado para o jogadores. Para Kfouri, atualmente há menos participação e democracia, e o futebol continua sendo um meio reacionário.

Hoje em dia, diz, "os jogadores são marionetes, popstars a serviço do dinheiro, do supérfluo e do superficial culturalmente".

Estudada por acadêmicos no Brasil e no exterior, objeto de livros e, agora, do longa-metragem documental de Pedro Asbeg, a Democracia Corinthiana pagou o preço muitas vezes cobrado a movimentos inovadores, observa o diretor de Democracia em Preto-e-Branco.

"Nas eleições no Corinthians em 1985, a chapa apoiada pelos jogadores sairia derrotada na votação interna, o que gerou revolta das torcidas organizadas, a ponto de os novos eleitos terem que sair do clube pelos fundos na noite da eleição", lembra Asbeg.

Já a emenda das Diretas seria derrubada pelo Congresso, jogando o país em mais quatro anos de governo escolhido pelo Colégio Eleitoral. Apesar de ter recebido um grande número de votos, o não comparecimento de 112 parlamentares à sessão de votação fez com que a emenda fosse rejeitada por não alcançar o número mínimo de votos para sua aprovação.

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