Palanque BBC: Pelourinho sofre com abandono e violência em Salvador

Atualizado em  23 de outubro, 2012 - 15:40 (Brasília) 17:40 GMT
Raiza Tourinho. BBC Brasil

Para ONG, Pelourinho é dos patrimônios mais ameaçados (Foto: Raiza Tourinho/BBC Brasil)

"O Pelourinho é magico". Assim define o centro histórico de Salvador o artista plástico Washigton Arléo, que entre idas e vindas, há 15 anos, expõe sua emoção traduzida em telas nas ruelas do Pelô, como o bairro é carinhosamente conhecido pelos soteropolitanos.

Contudo, o Pelourinho, reconhecido como Patrimônio Histórico da Humanidade pela Unesco, vêm assistindo silenciosamente a magia de suas cores desbotar. E nos becos de pedras irregulares se avistam cada vez menos turistas, onde outrora havia "engarrafamento de gente", nas palavras do artista.

Entre ausência de programação cultural, criminalidade e má conservação do patrimônio, a degradação do Pelourinho chamou a atenção até da organização World Monuments Fund, que trabalha pela proteção de monumentos e patrimônios ao redor do globo.

A instituição, que visitou 30 cidades em todo o planeta, listou neste ano o centro histórico de Salvador como um dos patrimônios mundiais mais ameaçados pelo descaso governamental ou pela ação da natureza.

Mas, aos poucos, o centro histórico ganha novo fôlego. Devido à Copa de 2014, um grande projeto de requalificação está em andamento no local, com a revitalização das praças e dos casarões.

Na última sexta-feira, 19 de outubro, o governo estadual anunciou investimentos na infraestrutura do centro histórico da ordem de R$ 700 milhões, com previsão para a implantação de ciclovias, novo sistema de iluminação pública e construção de uma grande passarela.

Já o 18º Batalhão da Polícia Militar, que atua na área, teve cerca de 130 homens incorporados somente neste ano, somando quase 500 policiais.

Insegurança

O aumento do efetivo policial ainda não foi suficiente para afastar o estigma de violência do Pelourinho que, segundo comerciantes, viu os índices de até dez assaltos diários zerarem nos últimos meses.

"O Brasil foi modelado aqui. A questão do Pelourinho não é municipal, é nacional"

Arleo, artista plástico

Ao menos nas principais vias do centro, o policiamento é constante. Embora não vaguem mais pelas ruas principais, não é preciso ir muito longe para ver crianças, jovens e adultos mumificados pelo crack, trafegando nos becos, indo de quando em vez para o circuito turístico faturar alguma moeda de troca, seja pedindo esmola e comida, seja estacionando os carros.

Apesar do reforço no policiamento, os cariocas Denise e Josino Araújo não gostaram da grande quantidade de pessoas em situação de rua no centro histórico. ''É só insegurança. Muita pivetada'', disse Denise.

Josino, já acostumado aos perigos existentes nas metrópoles brasileiras, acredita, porém, que a falta de infraestrutura hoteleira e o péssimo estado de conservação asfáltica da cidade são mais problemáticos. ''Cidade grande é isso mesmo. O Rio também é perigoso. O que eu acho que eles poderiam fazer é transformar esses meninos em agentes do turismo'', sugere.

Na primeira vez que vieram a Salvador, o casal paulista Daniela e Diogo Silva foi logo conhecer o Pelourinho. Apesar de afirmarem terem gostado do local, os habitantes da cidade da garoa nutriam mais expectativas. “A gente sempre espera que esteja mais bem cuidado”, disse a garota.

Assédio

"Olha 'doutô' essa pulseira, abençoada pelo Senhor do Bonfim, pode levar que é de presente", afirma um vendedor ambulante, com os braços tomados por dezenas de colares e pulseiras, vendidos por dez vezes o valor original, acusando a estratégia do "presente".

A quantidade exígua de turistas no Pelô faz com que qualquer pessoa com um olhar esvoaçante ou uma câmara na mão seja identificada como um potencial cliente e ganhe a atenção dos camelôs e dos meninos pedindo esmolas. "Não me incomoda", conta a cearense Carla Garcia, logo após ser abordada por um. O marido Antenor Santos, baiano de nascimento, discorda. "Não precisa disso. Quando a gente quer comprar vai atrás", justifica.

Foto: Raiza Tourinho/BBC Brasil

Região que já teve 400 lojas hoje conta agora com só 80 (Foto: Raiza Tourinho/BBC Brasil)

Mas o semblante estampado na maioria dos turistas, principalmente estrangeiros, denuncia o cansaço causado pela abordagem excessiva dos ambulantes. As negativas dos pedidos de entrevistas, contadas com o auxílio das duas mãos, demonstravam a impaciência diante dos nativos. "No português" foi a frase mais escutada pela reportagem. E não adianta rebater: "¿Hablas español?" ou "Do you speak english?". "Yes, but no", responde finalmente um, mal-humorado. Acompanhado da família, um alemão até topa justificar o porquê não fala: "Muito assédio", afirma, andando o mais rápido que pode.

Coração

Se quem visita o Pelourinho consegue sentir no ar a história exalada pelos antigos casarões e igrejas seculares, quem habita as vielas do centro histórico vivencia na pele a malandragem, datada da época em que as primeiras gotas de sangue dos escravos castigados calçaram o Pelourinho.

Capoeirista há 40 anos, mestre Berimbau, que ganhou o codinome por não largar o instrumento nem na hora de dormir, apresenta-se com seu grupo diariamente no Terreiro de Jesus, uma das principais praças do centro histórico. "Para mim, o Pelourinho é tudo. É um palco. Só que esse palco está muito desorganizado", diz.

Ele enumera os problemas que levaram a degradação do local, da ausência de banheiros públicos aos buracos nas praças, passando pelo lixo. "Tá faltando é tudo", sinaliza. Berimbau reclama também dos comerciantes locais que não apoiam os capoeiristas, mas dão comida para os meninos de rua, que por sua vez a trocam pelo crack.

O comerciante Geraldo Miranda, vulgo Geraldão, rebate a crítica do mestre afirmando que a doação é uma espécie de "proteção", que evita que os meninos roubem e afastem os clientes. "Todos nós somos culpados. Mas o crack aqui é uma questão de saúde pública: quando você recupera um, perde dez", lamenta.

Criado no Pelourinho, aos 60, Geraldão indigna-se com o abandono relegado ao local nos últimos anos. Segundo ele, de terceiro destino turístico mais procurado do Brasil, Salvador amarga a sétima posição, queda refletida pela quantidade de lojas fechadas – de 400 em funcionamento, só sobraram 80. A de Geraldo foi uma das que não resistiram. Vivendo com o salário de aposentado, ele joga dominó com os amigos, esperando que os dias sombrios passem para ele reabrir sua loja de souvenir. "Aqui é o maior shopping aberto do mundo, com as lojas todas fechadas. O Pelourinho é o coração da Bahia. O governo precisa dar mais carinho a esse espaço", insiste.

O artista Arléo vai mais longe ao afirmar que o Brasil nasceu no Pelourinho sendo este, na verdade, o coração da nação brasileira. "O Brasil foi modelado aqui. A questão do Pelourinho não é municipal, é nacional".

* Raíza Tourinho, 21, mora na periferia de Salvador e diz sonhar em ver sua cidade mais bem tratada nos próximos anos. Ela escreve no portal Clique Ecodesenvolvimento e possui seu Clique próprio blog, no qual trata de temas diversos.

O Palanque BBC é uma série da BBC Brasil com textos assinados por blogueiros de diferentes capitais brasileiras e que falam de problemas que afetam essas cidades.

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