Um ano após libertação, soldado israelense vira colunista esportivo

Atualizado em  18 de outubro, 2012 - 13:43 (Brasília) 16:43 GMT
Gilad Shalit

Gilad Shalit esteve nas finais da NBA e em um Barcelona x Real Madrid

Um ano após ser libertado, o soldado israelense Gilad Shalit tornou-se colunista esportivo e tenta viver uma vida normal – se distanciando o máximo possível de seu passado traumático.

Durante a meia década que passou em cativeiro, após ser capturado pelo grupo palestino Hamas, Shalit foi alvo de uma intensa campanha do povo israelense por sua libertação.

Seus pais acamparam em frente à residência do premiê e um grupo de apoiadores fez uma marcha de 12 dias do norte do país até Jerusalém.

Hoje aos 26 anos, ele tem uma rotina completamente diferente. Ao ser libertado, ele se desligou oficialmente do Exército israelense em abril deste ano.

Shalit virou colunista do jornal Yediot Aharanot, o mais lido de Israel. Ele já cobriu as finais da NBA em Miami, a Eurocopa na Ucrânia e uma partida do "El Clásico" espanhol, entre Real Madrid e Barcelona.

Focada apenas em esporte, sua mais recente coluna faz um breve e raro comentário que menciona política, ao relatar um protesto de torcedores pró-Palestina.

"Nós fomos acompanhados por uma equipe de segurança, que se fez necessária em função das ameaças de protesto por grupos pró-Palestina. Mas, na prática, nada aconteceu", escreveu Shalit.

O episódio revela que, por mais que tente viver uma vida normal, Gilad Shalit sempre terá que conviver de alguma forma com seu passado.

Como um irmão ou filho

O ex-soldado, que tinha apenas 19 anos quando foi capturado, tornou-se um poderoso símbolo em Israel justamente por ser uma pessoa tão normal e comum, com a qual a maioria dos israelenses pode se identificar.

Muitos sentiam que o que ocorreu com Gilad poderia perfeitamente acontecer a um irmão, filho ou namorado.

Convocado para o serviço militar obrigatório, ele foi sequestrado após ter ficado ferido em um ataque de militantes palestinos em junho de 2006.

Seu rosto logo se espalhou por diversos pôsteres e adesivos em Israel e até no exterior. Seu nome era repetido em diversos noticiários por todo planeta.

Há exatamente um ano, no dia 18 de outubro de 2011, pálido e magro, o major Shalit (ele foi promovido durante o cativeiro) finalmente foi solto, após um acordo que culminou na libertação de 1.027 prisioneiros palestinos.

Alguns analistas criticaram Israel pela negociação, dizendo que o país saía da negociação enfraquecido, mas pesquisas de opinião sugeriram que a grande maioria das pessoas apoiou o acordo.

Fama

Desde que voltou para casa, Shalit precisou lidar com os efeitos psicológicos do trauma que passou, além de precisar aprender a lidar com a fama.

Inicialmente houve um veto a todas as tentativas de aproximação da mídia. No entanto, os noticiários não conseguiram resistir por muito tempo. Logo eles começaram a veicular imagens de sua vida, como seu primeiro passeio de bicicleta desde a volta para casa.

Encontros com o então presidente francês, Nicholas Sarkozy, e com o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, também receberam bastante cobertura da imprensa.

Depois de um hiato longe das câmeras, Shalit voltou a aparecer na televisão. Recentemente ele foi visto comemorando seu 26º aniversário em um show em Tel Aviv do cantor pop Shlomo Artzi, que dedicou uma música ao ex-soldado.

Shalit também é presença constante em diversas competições esportivas e visitou até mesmo o set de filmagens do seriado americano Homeland, em um episódio que foi rodado em Israel.

Hoje, ele já tem um aspecto mais saudável e já recuperou alguns quilos.

Revelações

Ainda durante o cativeiro, Shalit foi entrevistado pela rede Nile TV pouco antes de ser entregue às autoridades egípcias, que o repassaram a Israel. Desde então, ele falou muito pouco sobre sua experiência ao público em geral.

Um novo documentário feito pelo Canal Dez, de Israel, traz alguns detalhes da vida do ex-soldado obtidos por meio de relatos na imprensa. Em um trecho, Shalit revela que – para lidar com a ansiedade e o tédio do cativeiro – ele desenhava mapas de sua cidade natal Mitzpe Hilla, "para lembrar, imaginar os lugares".

"Tentei ser otimista", revela Shalit. "Tentei focar nas pequenas e boas coisas que eu tinha", acrescenta.

Ele disse que seus sequestradores o alimentavam bem, jogavam xadrez e dominó e quase nunca o agrediam. Ele podia assistir a notícias na televisão em árabe, e depois acabou ganhando um rádio, onde podia ouvir estações israelenses.

Às vezes, ele assistia junto com seus sequestradores a esportes e filmes na TV.

Ele também falou sobre suas primeiras sensações ao ser solto, quando foi levado de seu cativeiro em Gaza para a fronteira com Rafah, no Egito.

"De repente, eu vi dezenas, centenas de pessoas diante de mim, após anos de ver apenas algumas", conta Shalit. "Eu tinha medo de que algo fosse dar errado na última hora, e assim que sai [de Gaza] e fui para o Egito, senti alívio", relembra.

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