Pesquisadores usam células-tronco para tratar surdez

Atualizado em  12 de setembro, 2012 - 18:40 (Brasília) 21:40 GMT

Especialistas esperam que pesquisa abra caminho para tratamento semelhante em humanos

Pesquisadores britânicos anunciaram nesta quarta-feira ter alcançado um grande avanço no tratamento da surdez, ao usar pela primeira vez células-tronco para restabelecer a audição de animais.

Os autores de um estudo publicado na revista Nature dizem que conseguiram recuperar parcialmente a audição de roedores, ao reconstruir os nervos do ouvido que transmitem os sons para o cérebro.

Os cientistas avaliam que o mesmo resultado em humanos permitiria que alguém incapaz de ouvir o barulho de um congestionamento consiga escutar uma conversa normal.

No entanto, os pesquisadores admitem que aplicar o tratamento em seres humanos ainda é um projeto distante.

Para ouvir rádio ou conversar com um amigo, as pessoas precisam que seus ouvidos convertam as ondas sonoras no ar em sinais elétricos que podem ser compreendidos pelo cérebro.

Esse processo ocorre dentro do ouvido interno, onde as vibrações movem cílios minúsculos - e esse movimento cria um sinal elétrico.

No entanto, em cerca de uma em cada dez pessoas com surdez profunda, as células nervosas que deveriam captar o sinal não funcionam corretamente. É como derrubar o bastão na primeira passagem de uma prova de revezamento.

Células com defeito

Neurônios derivados de células-tronco injetados no ouvido de roedores

Mistura química foi acrescentada a células-tronco para recriar neurônios no ouvido interno

O objetivo dos pesquisadores da Universidade de Sheffield era substituir as células nervosas com defeito, chamadas neurônios do gânglio espiral.

O grupo de cientistas utilizou células-tronco de um embrião humano, que são capazes de se desenvolver em outros tipos de células do corpo humano - de nervos à pele, passando por músculos e rins, entre outros.

Uma mistura química foi acrescentada às células-tronco para convertê-las em células parecidas com os neurônios do gânglio espiral. Em seguida, elas foram cuidadosamente injetadas no ouvido interno de 18 roedores surdos.

Após dez semanas, a audição dos roedores melhorou. Em cerca de 45% dos animais testados, a capacidade de audição foi restaurada ao final do estudo.

"Isso significaria passar de tão surdo que você não pode ouvir um caminhão na rua a um nível em que você pode ouvir uma conversa", diz o cientista Marcelo Rivolta.

"Não é uma cura completa", acrescenta. "Você não conseguirá ouvir um sussurro, mas certamente será capaz de manter um diálogo em uma sala."

Cerca de um terço dos roedores respondeu muito bem ao tratamento e alguns recuperaram 90% da audição - apenas menos de um terço não apresentou reação.

Esperança

Os roedores usados na pesquisa foram gerbilos, animais capazes de ouvir uma variedade de sons semelhante à ouvida pelos humanos e diferente da dos camundongos - que escutam sons mais agudos.

Os cientistas detectaram a melhora na audição ao medir as ondas cerebrais dos animais. Os roedores foram testados por apenas dez semanas - se o tratamento for aplicado em humanos, o efeito precisará ser observado durante um período muito maior.

O estudo também deve reacender a polêmica sobre a segurança e a ética de tratamentos com células-tronco.

"É um grande momento, realmente um importante avanço", avalia o cientista Dave Moore, diretor do Conselho de Pesquisa Médica do Instituto de Pesquisa sobre Audição, em Nottingham.

O especialista alerta, no entanto, para os desafios de aplicar o tratamento em humanos.

"O maior problema é realmente chegar à parte do ouvido interno em que isso pode funcionar", afirmou Moore à BBC. "É extremamente pequeno e muito difícil de alcançar. Esse seria um feito realmente formidável."

"A pesquisa é incrivelmente encorajadora e nos dá uma esperança real de que será possível corrigir a verdadeira causa de alguns tipos de perda da audição no futuro", diz o pesquisador Ralph Holme, chefe de pesquisas biomédicas da organização beneficente Action on Hearing Loss.

"Para milhões de pessoas que têm a qualidade de suas vidas prejudicada pela perda de audição, já não era sem tempo", acrescenta Holme.

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