BBC navigation

Lucas Mendes: Pintas presidenciais

Atualizado em  6 de setembro, 2012 - 09:07 (Brasília) 12:07 GMT

"Este cara tem pinta de presidente. Pode ser o primeiro latino na Casa Branca". O comentário foi do presidente George W. Bush.

O cara com pinta de presidente já tinha ido à Casa Branca como estagiário de Bill Clinton e depois voltou à Casa Branca de Obama, como prefeito de San Antonio, para participar de uma pequena reunião de prefeitos.

Quando ele levantou para falar, Obama interrompeu: "Este cara é prefeito? Achei que fosse um dos nossos estagiários".

"Sou Julian Castro, prefeito de San Antonio, Texas, sr. presidente."

"Eu sei muito bem quem é você. Era só uma provocação."

Há muitos anos Julian Castro, que tem uma certa pinta de Marlon Brando como Zapata sem o bigode, está no radar da liderança do Partido Democrata, que depende mais do que nunca do voto latino para ganhar esta eleição.

Há 52 milhões de latinos nos Estados Unidos. 33 milhões deles são de origem mexicana, supermaioria, quase 5 milhões são porto-riquenhos e só 1.9 milhões são cubanos, mas o latino mais presidenciável neste momento é o senador republicano da Flórida de origem cubana Marco Rubio, responsável pela introdução do candidato Mitt Romney na convenção do partido, semana passada.

Faltam latinos democratas. Os irmãos Castro, do Texas, são gêmeos e na escola secundária Thomas Jefferson, de San Antonio, foram primeiros na sala de aula, na quadra de tênis e na política estudantil. A mãe, Rosie, costumava a ser retratada como humilde, tímida e arrumadeira pobre. Era mãe solteira e pobre, mas não era humilde na atitude nem tímida.

Rosie era fera, uma das lideres de "La Raza", o movimento pelos direitos humanos dos latinos no Texas. Os filhos adolescentes, Julian e Joaquim, foram politicamente educados nos comícios e reuniões estratégicas.

Hoje são menos radicais do que ela. A mãe, se pudesse, arrasaria o monumento Los Álamos, no centro da cidade.

Rosie nunca conseguiu se eleger vereadora, mas graças aos talentos dos filhos na quadra e ao sistema de cotas, conseguiu mandá-los para a Universidade Stanford. Depois, estudaram direito em Harvard e voltaram juntos para San Antonio.

Julian se elegeu vereador antes de se eleger prefeito e Joaquim se elegeu para a Assembleia Legislativa. Embora seja a sétima maior cidade do país em população e uma das maiores em extensão - maior do que Boston, Chicago, Miami e Manhattan juntas -, o cargo de vereador não é remunerado e o salário de deputado é de apenas US$ 16 mil por ano (quantos deputados brasileiros devem ganhar mais do que R$ 32 mil reais por mês?).

Os gêmeos pagaram suas contas e até mais com o escritório de advocacia. São tão parecidos que Joaquim já substituiu Julian num comício e dificilmente um juiz conseguiria distinguir entre os dois num tribunal.

Na convenção do Partido Democrata esta semana, os gêmeos estavam juntos. Joaquim abriu a convenção e se apresentou ao país. Julian apresentou a mãe, Rosie, a mulher e a filha de três anos, que roubou a cena durante alguns segundos ajeitando os cabelos.

O partido deu a ele o papel de keynote speaker na sessão de abertura que, em meia hora ou menos, pode dar projeção nacional a um político regional. Foi o que aconteceu com o desconhecido Barack Obama em 2004.

Em português não temos uma boa tradução para keynote speaker. Os dicionários traduzem como "orador principal", mas ele falou na mesma noite que Michele Obama, que era a oradora principal e foi tão brilhante que deixou o discurso Julian Castro na sombra.

O papel dele era realçar as qualidades do partido: melhor para lidar com os pobres e a classe média e para alavancar sonhos americanos como o dele e de Barack Obama, dois políticos criados sem pai e sem dinheiro.

Várias vezes o discurso contrastou a criação dele com a do milionário - candidato republicano - Mitt Romney. Se não fosse o brilho de Michelle, a estrela de Julian estaria maior hoje, mas ela está em plena ascensão.

Entre 2000 e 2010 houve uma invasão de 4 milhões de latinos, negros e jovens no Texas. Um terço da população é de origem mexicana. É uma questão de tempo até que um mexicano volte a mandar no Texas.

Mas não vai ser fácil. O Estado é um Álamo de republicanos brancos conservadores que usam de todos os recursos legais e vilanias para manter o poder.

Só o Mississippi tem um currículo de supressão de votos pior do que o Texas, um dos nove Estados proibidos de alterar leis eleitorais sem aprovação do Poder Judiciário.

Várias foram rejeitadas pelos juízes nos últimos dias.

O Texas é ainda o Estado com a menor participação eleitoral nas eleições: só 32% por cento votaram nas últimas eleições. A participação dos latinos foi ainda pior: 24%.

Nas últimas eleições presidenciais, Obama deu uma surra latina em McCain com uma margem de 36%. Hoje está 40% na frente de Romney nas pesquisas. Se 65% dos latinos votassem, Obama estaria eleito.

Vai ser o voto decisivo em vários Estados hoje empatados nas pesquisas. Julian e Joaquim podem ajudar a tirar os hermanos de casa e a manter Obama na Casa Branca. Ou será que os latinos acham que Obama não tem pinta de presidente?

Leia mais sobre esse assunto

Tópicos relacionados

BBC © 2014 A BBC não se responsabiliza pelo conteúdo de sites externos.

Esta página é melhor visualizada em um navegador atualizado e que permita o uso de linguagens de estilo (CSS). Com seu navegador atual, embora você seja capaz de ver o conteúdo da página, não poderá enxergar todos os recursos que ela apresenta. Sugerimos que você instale um navegados mais atualizado, compatível com a tecnologia.