Eleito com folga em Angola, Dos Santos mantém rédeas de sucessão

Atualizado em  2 de setembro, 2012 - 21:57 (Brasília) 00:57 GMT
Foto: AFP

A vitória confortável de José Eduardo Santos pode pavimentar o caminho para a sua sucessão

Apesar de contestações e do avanço da oposição no Parlamento, a confortável vitória do presidente José Eduardo dos Santos nas eleições gerais de Angola, que lhe permite estender por cinco anos o seu mandato iniciado em 1979, deve manter em suas mãos o controle da máquina governista para que ele planeje a sua sucessão.

O resultado tende ainda a manter a grande influência de China, Brasil e Portugal em Angola, cuja economia, alimentada pela crescente produção de petróleo, poderá ultrapassar a da África do Sul até 2016, segundo a Economist Intelligence Unit.

Até a noite do domingo, com 90% das urnas abertas, o partido do presidente – o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) – estava à frente com 72% dos votos.

A principal sigla opositora, a Unita (União Nacional para a Independência Total de Angola) vinha em segundo, com 18%. Novata na eleição, a Casa-CE (Convergência Ampla para a Salvação de Angola-Coligação Eleitoral) ficou em terceiro, com 6%.

Na votação, nove partidos concorreram com listas fechadas de candidatos. O primeiro da lista do partido mais votado é eleito presidente, e a proporção dos votos determina a composição da Assembleia Nacional.

Embora provavelmente venha a obter a maioria necessária para mudar a Constituição (ao menos 66% do Parlamento), o MPLA obteve desempenho inferior ao da última eleição, em 2008, quando recebeu 82% dos votos.

O resultado do pleito atual foi contestado pela oposição, que prometeu apresentar provas de que houve fraude, e por críticos do governo.

Eles afirmam que a Comissão Nacional Eleitoral criou dificuldades aos eleitores de regiões onde a oposição é mais forte, para estimular abstenções. Já em tradicionais redutos do partido governista, dizem eles, tudo correu bem.

A BBC Brasil contatou muitos eleitores que haviam desistido de participar do pleito porque haviam sido inscritos em postos de votação distantes de suas residências – em alguns casos, até em outras províncias (Estados).

Empresários brasileiros

Executivos brasileiros em Angola consultados pelo repórter já esperavam uma vitória folgada do MPLA. Embora avaliem que as relações econômicas e diplomáticas entre os dois países resistiriam a qualquer troca no governo, eles afirmam que a permanência de Dos Santos garante o cumprimento de acordos comerciais firmado em sua gestão.

Eles dizem esperar que a boa margem obtida pelo MPLA dissipe a retórica inflamada das últimas semanas. Durante a campanha, geraram tensão declarações do governo e da oposição de que os adversários estariam dispostos retomar a guerra civil que assolou o país entre 1975 e 2002.

Angola é um dos principais destinos de investimentos externos do Brasil. Estima-se que até 25 mil brasileiros morem no país africano, muitos deles empregados de grandes construtoras como Queiroz Galvão, Odebrecht e Andrade Gutierrez.

A vitória do MPLA também tende a resguardar os interesses em Angola da China e de Portugal – ambos os países têm investimentos bilionários no país africano, sobretudo na construção civil.

Mesmo derrotada, a Unita obteve votação maior que no último pleito e recebeu apoio expressivo em algumas regiões do país.

No município de Cacuaco, nos arredores de Luanda, as parciais indicavam que o partido derrotaria o MPLA, desempenho atribuído à insatisfação com o governo nas áreas pobres e periféricas da capital.

Do lado do governo, as atenções voltam-se à sucessão de José Eduardo dos Santos.

Ao formar a chapa para a eleição, ele escolheu como vice o ex-presidente da petrolífera estatal Manuel Vicente, que meses antes fora alçado ao posto de ministro da Coordenação Econômica.

As medidas foram encarados como um sinal de que Dos Santos prepara Vicente para sucedê-lo. A questão é quando. A nova Constituição angolana, aprovada em 2010, prevê eleições de cinco em cinco anos e a possibilidade de uma única reeleição para presidente.

Eleições de 2017

Como é a primeira vez que Dos Santos se elege – ele chegou a concorrer em 1992, mas a retomada da guerra civil suspendeu o processo eleitoral –, não se descarta que ele possa disputar também o próximo pleito, em 2017. Aos 70 anos de idade, ele exibe boas condições de saúde.

José Eduardo dos Santos | Foto: AFP

José Eduardo dos Santos ocupa a presidência de Angola há 33 anos, mas nunca tinha sido eleito

Alguns apostam, porém, que ele optará por passar o bastão a Vicente ou na próxima eleição, ou já durante o seu novo mandato. Na sexta-feira, o jornal português Público estampava em sua capa foto do presidente com o título “O princípio do fim da era Eduardo dos Santos”.

Outros analistas avaliam que a sucessão está longe de ser definida e que, ao promover Vicente, Dos Santos quis ganhar tempo e confundir os que o acusam de planejar ocupar a Presidência por um longo período. Para eles, o presidente só deixará o posto se tiver a certeza de que nem ele nem seu governo serão objetos de investigações.

ONGs como a Human Rights Watch e a Transparência Internacional consideram Angola um dos países mais corruptos do mundo, e parentes do presidente construíram carreiras bem-sucedidas como empresários.

A permanência de Dos Santos, porém, deve alimentar ainda mais o crescente movimento contrário ao líder, que tem entre seus expoentes estudantes e músicos de Luanda. Manifestações convocadas pelo grupo desde 2011 foram duramente reprimidas e, segundo observadores, desgastaram a imagem do MPLA entre alguns grupos urbanos.

E à medida que a internet se expande no país (hoje está restrita à elite e a parte da classe média), mais angolanos passam a ter acesso à vibrante rede de blogs e sites noticiosos que canalizam as denúncias contra autoridades, uma vez que o governo exerce forte controle sobre a imprensa local.

Em análise sobre as eleições, o jornalista Reginaldo Silva escreveu em seu blog, Morro da Maianga, que, embora a guerra civil tenha terminado há dez anos, a disputa política se pautou mais uma vez pelo conflito. Segundo ele, essa postura precisa ser superada para que o país deixe a “idade média da democracia”.

“Para mim, o desafio que existe é o da reconciliação nacional.”

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