Lucas Mendes: Ouro radical

Atualizado em  30 de agosto, 2012 - 05:36 (Brasília) 08:36 GMT

1964. Mitt Romney tinha 17 anos quando foi com o pai, George Romney, governador de Michigan, à convenção do Partido Republicano em San Francisco.

O governador tinha perdido a parada contra o extremista Barry Goldwater durante a campanha presidencial. Agora, na convenção, ele representava a ala moderada republicana e tentava convencer o partido a incluir na plataforma os direitos civis dos negros e uma condenação dos radicais sulistas, representados pela John Birch Society. Foi derrotado em ambas as propostas, saiu furioso e frustrado da convenção e se recusou a apoiar o candidato do partido.

Goldwater, como previa George Romney, foi destroçado por Lyndon Johnson na eleição e escreveu uma carta cobrando de Romney explicações a respeito de por que tinha se recusado a apoiá-lo. O governador respondeu com uma carta agora citada com frequência: "Partidos dramaticamente ideológicos rasgam o tecido político e social de uma nação, provocam crises paralisantes nos governos e queimam compromissos necessários para atingir liberdade e progresso".

Deveria estar falando hoje na convenção republicana.

A "estratégia sulista" conservadora de levar o Partido Republicano para a extrema direita fracassou com Goldwater, mas foi realizada 48 anos depois com dois políticos nao sulistas: Mitt Romney, de Michigan, e Paul Ryan, de Wisconsin, estados com tradições liberais.

Ronald Reagan e George W. Bush não tinham planos tão radicais. O partido mudou, mas desde 64 sua plataforma não era tão conservadora como a de 2012.

Mitt tambem mudou. Quando se candidatou ao Senado, em 1994, contra Ted Kennedy, era ardente defensor dos direitos dos gays, tão defensor dos direitos dos negros quanto Kennedy e pró-aborto. Não conseguiu tomar o emprego do senador, mas se elegeu governador em 2002 com promessas liberais e criou o sistema de assistência medica estadual que serviu de modelo para a reforma tão odiada de Barack Obama.

O principal indicador do direitismo de Mitt foi a escolha do vice, Paul Ryan, um homem muito mais coerente e à vontade com suas ideias conservadoras. Elas estão com ele a desde a juventude. Ele amadureceu depressa quando perdeu o pai aos 16 anos, de um ataque do coração. Já estava frio quando Paul foi ao quarto para acordá-lo.

Que ele vem de familia pobre é um mito, mas é verdade que foi garçom no Tortilla Hill, um bar Tex-Mex especializado em Margaritas. Ficava perto do Congresso, onde ele gostaria de trabalhar como assessor de um senador ou deputado.

Trocou o restaurante pela Universidade de Ohio, onde se apaixonou pelas ideias de Ayan Rand, inspiradora de tantos economistas conservadores, e voltou para Washington com seu diploma em ciências políticas e economia. Depois de um estágio com um senador republicano, trabalhou de novo como garçom no Tortilla Hill e conseguiu emprego no centro de pesquisas conservador Empower America.

Fez boas conexões. Era disciplinado, fazia o que mandavam, sempre procurava os chefes para discutir economia. Tinha 28 anos quando o deputado federal da cidade dele se aposentou.

Paul Ryan correu atrás. Um colunista na época debochou das pretensões do jovem candidato e perguntou se tinha levantado dinheiro vendendo limonada na calçada. Apesar dos deboches, foi eleito e desde o começo da carreira política ficou de olho na comissão do orçamento, mas se distinguiu também como radical antiaborto. Foi coautor de 38 projetos de leis contra o aborto, inclusive em casos de estupro.

Também é radical antigay em casamentos e nas Forças Armadas. Radical na defesa dos direitos de comprar e portar armas.

O maior impacto dele é no orçamento. Há três anos apresenta um projeto, "Path to Prosperity" (caminho à prosperidade, na tradução livre). A intenção é reduzir ou eliminar impostos para empresas, para os ricos e sobre quase todos tipos de investimentos, inclusive juros e dividendos. Pelo plano dele o sistema de saúde americano seria substituído por outro, na base da vales. Garante que, se for adotado, vai representar uma redução do deficit de mais de US$ 6 trilhões de dólares em dez anos.

O orçamento de Ryan foi aprovado três vezes na Câmara e rejeitado no Senado.

O prêmio Nobel de economia Paul Krugman diz que a prosperidade de Ryan é uma fraude. O plano dele é vago, sem explicações claras sobre onde serão os cortes.

Paul Ryan está quente na forma e no conteúdo. Bonito, jovem, bom de áudio e vídeo. Preocupado com o coração frágil da família, ele é o político mais sarado de Washington. Seis vezes por semana faz o programa P90X, 90 minutos diários que matariam o imperador do Flamengo ou o príncipe do Atlético.

Na noite de quarta-feira, ele passou com nota 10 no teste da olimpíada republicana em Tampa com primorosas acrobacias, contorções e distorções da realidade econômica americana. Todos movimentos para a direita.

Na próxima semana os democratas, atuais campeões, vão disputar a mesma medalha na olimpíada do partido na Carolina do Norte, com saltos para o centro e para a esquerda. Hoje estão empatados.

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