Paraolímpicos revelam histórias de guerras, doenças e violência ao redor do mundo

Atualizado em  31 de agosto, 2012 - 06:21 (Brasília) 09:21 GMT
Medalhas Paraolímpicas

Competições paraolímpicas entram em seu segundo dia nesta sexta-feira

Nas delegações dos 166 países que competem nos Jogos Paraolímpicos de Londres 2012, portadores de deficiência desde o nascimento dividem espaço com vítimas de acidentes, de doenças e de violência que evidenciam problemas geopolíticos, de segurança e de saúde pública de seus países.

A violência direta e indireta não chega a estar entre as dez principais causas de deficiência em todo o mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde. No entanto, o número de pessoas vítimas destas situações que estão presentes nos Jogos sugere que os programas de reabilitação seriam grandes responsáveis pela "descoberta" de para-atletas.

"Ainda existe uma grande quantidade de programas internacionais de ajuda humanitária que fazem intervenções em certos países, destinados especificamente a pessoas que são vítimas de conflitos ou situações violentas. É provavelmente por isso que eles estão tão presentes na Paraolimpíada", disse à BBC Brasil Alana Officer, coordenadora do setor de deficiência física e reabilitação da OMS.

Officer diz que o cenário da ajuda humanitária mundial está mudando para contemplar programas mais abrangentes. No entanto, ainda prevalecem as organizações que se dedicam à reabilitação de vítimas de conflitos e usam o esporte como estímulo.

Financiamento de ONGs

Segundo o chefe dos programas de reabilitação física do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, Claude Tardif, a prática do esporte por portadores de deficiência é estimulada e muitas vezes financiada pelas ONGs internacionais.

"Esporte é uma parte importante dos programas de reabilitação. Em diversos países nós ajudamos na construção de quadras e espaços de prática de esportes, na compra de equipamentos e na contratação de técnicos para treinar os times", disse à BBC Brasil.

"Em alguns países já há alguma organização neste sentido e tentamos ajudar, mas em outros nós mesmos começamos o processo, porque eles nos pedem para estruturar programas."

No último mês de junho, o Comitê da Cruz Vermelha realizou o primeiro torneio de basquete em cadeira de rodas com vítimas da guerra no Afeganistão.

"É um bom modo também de melhorar a capacidade física e aumentar a autoestima das pessoas com deficiência. E de mostrar às pessoas sem deficiências que as deficientes podem fazer as coisas, não precisam ficar à margem da sociedade", afirmou.

Brasil: Acidentes de trânsito

Natália Mayara. | Foto: Buda Mendes/CPB

Natália diz que sua adaptação foi mais fácil, porque nunca teve a experiência de andar

Mesmo sem ser palco de conflitos internos de grande escala, o Brasil também alimenta as estatísticas de portadores de deficiência vitimados por situações violentas.

Na delegação brasileira das Paraolimpíadas, boa parte dos atletas amputados ou paraplégicos foi vítima de acidentes de trânsito, uma das principais causas de morte no país.

Em fevereiro de 2000, a costureira Cláudia Santos atravessava a rodovia Raposo Tavares, em São Paulo, ao sair do trabalho, quando foi atropelada. Ela perdeu a perna direita imediatamente.

Cláudia, que hoje tem 35 anos, é campeã mundial de remo e está disputando sua segunda Paraolimpíada, mas diz que começou no esporte por acaso, para diminuir as dores durante a adaptação à nova condição.

"Um médico indicou que eu fizesse esportes, porque na época eu sentia muitas dores. Comecei com a natação. Até então eu não conhecia atletas paraolímpicos", disse à BBC Brasil.

Ela passou a competir como nadadora depois de participar do trabalho do Projeto Próximo Passo, que estimula a prática de esportes paraolímpicos entre portadores de deficiência em São Paulo. Pouco depois, conheceu o remo.

"Fui a um evento e o técnico me viu e me convidou. No início não gostei muito, mas fui conhecer o treino. Ele me ligava, insistia para que eu fosse. Aí comecei a gostar e acabei sendo campeã mundial, oito meses depois."

Já a tenista pernambucana Natália Mayara, de 18 anos, teve uma adaptação diferente à deficiência física. Ela perdeu as duas pernas ao ser atropelada, na calçada, por um ônibus, aos dois anos de idade.

"Para mim foi mais fácil, porque eu já aprendi a andar de prótese e cadeira, nunca tive a experiência de andar", disse à BBC Brasil.

Cláudia Santos. | Foto: Buda Mendes/CPB

Cláudia se tornou campeã mundial de remo com apenas oito meses de treino

A insistência de um técnico, assim como no caso de Cláudia Santos, fez com que a atleta trocasse a piscina pela quadra de tênis de cadeira de rodas aos 12 anos. Ela ganhou o ouro do Para-Pan juvenil da Colômbia em 2009, é a 27ª colocada no ranking mundial e a primeira mulher brasileira na modalidade em uma Paraolimpíada.

Mesmo sem ter tido as mesmas dificuldades que outros atletas, Natália afirma que a falta de acessibilidade do transporte público em sua cidade chegou a ser um problema durante seu treinamento.

"Minha mãe me ajudou muito sempre, me levava de colo no ônibus para os treinos. Já brigamos muitas vezes com motoristas que não queriam nos deixar entrar", conta.

O motorista que a atropelou, segundo Natália, foi afastado da empresa, mas voltou a trabalhar. "Abrimos o processo para a indenização, mas demorou muito. A justiça negou várias vezes e no fim acabamos ganhando, mas não recebemos o valor total."

Segundo dados da OMS, o Brasil é o quinto país em número de vítimas do trânsito, atrás de Índia, China, Estados Unidos e Rússia. O problema já chegou a ser chamado de "epidemia de lesões e mortes no trânsito" pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

Ruanda: Guerra civil

Dominique Bizimana, de Ruanda, acumula as funções de jogador do time de vôlei sentado e presidente do comitê paraolímpico do país desde 2004.

Dominique Bizimana. | Foto: Emma Lynch/BBC

Atleta foi recrutado quando adolescente na guerra civil do país

Aos 16 anos, Bizimana foi recrutado como soldado da FPR (Frente Patriótica de Ruanda) e perdeu a perna esquerda durante a guerra civil no país, que deixou pelo menos 800 mil mortos em três anos.

"Depois que perdi a perna, eu consegui voltar para a escola. Terminei o ensino secundário com 21 anos e entrei na universidade", contou à BBC Brasil.

Na universidade, Bizimana - que costumava jogar futebol, vôlei e basquete antes do acidente - fazia parte de uma associação de alunos portadores de deficiência e recrutava colegas para times praticar esportes.

"Eu tentava trazer meus colegas que também tinham deficiências para jogarem voleibol normal, usando próteses. Em 2001, eu descobri que havia os Jogos Paraolímpicos na internet e criamos o comitê."

O atleta conta que os para-atletas do país não tinham apoio oficial até 2004. Antes disso, eles dependiam das ONGs que atuam no país com vítimas do conflito.

"Naquela época ainda não tinhamos autoconfiança, muitas famílias escondiam as pessoas com deficiência. Foi difícil para mim convencer as pessoas a jogar."

Depois da participação de um atleta ruandense em Sydney 2000, o comitê conseguiu classificar dois atletas para Atenas 2004 e um para Pequim 2008. Em Londres, a delegação paraolímpica de Ruanda tem 14 atletas em três esportes.

"Em 2004, por sorte, um dos atletas que tivemos na época trouxe uma medalha de bronze. Aí começamos uma campanha com o apoio da mídia para encontrar novos atletas e fortalecer a delegação", relembra Bizimanda.

"Se você for agora para Ruanda, vai ver que o movimento paraolímpico dá orgulho para o país. Acho que demos um bom exemplo e somos muito respeitados."

Geórgia: Minas terrestres

Foi o investimento financeiro direto da primeira-dama da Geórgia, Sandra Roelofs, que fez com que Nika Tvauri pudesse ir à sua primeira competição internacional de natação, o Campeonato Mundial de 2011, na Turquia, e ganhar a medalha de bronze.

Nika Tvauri. | Foto: Emma Lynch/BBC

Nadador teve ajuda direta da primeira-dama do país para ir a primeira competição internacional

O nadador, de 28 anos, é metade da delegação da antiga república soviética em Londres 2012. Ele perdeu a visão e 90% da mão direita aos 16 anos, quando pegou nas mãos uma antiga mina, que encontrou perto de sua casa, no subúrbio de Tbilisi.

O país herdou um "estoque" de minas do período soviético, mas não se sabe a exata localização de muitas delas. De acordo com a ONG Landmine and Cluster Munition Monitor, as principais ameaças aos civis e uma das principais causas de deficiência no país são as minas abandonadas, como a que atingiu Tvauri.

Em 10 anos, ele passou por 10 operações e chegou a recuperar a visão temporariamente algumas vezes. "Era uma situação em que eu não sabia se deveria esperar ou fazer algo de útil”, disse à BBC Brasil.

"Tentei fazer uma universidade, mas como não conseguia seguir linhas retas com a mão esquerda, não conseguia ler braille, e acabei desistindo."

Ele diz que pensou que a natação poderia ser o esporte ideal para praticar por causa das raias da piscina, marcadas de modo a dar apoio aos para-atletas que são deficientes visuais.

No primeiro ano como nadador profissional, Tvauri foi financiado integralmente pela família, mas somente dois anos e meio depois de ter começado a carreira, consegui o bronze no campeonato mundial.

Depois de mais um bronze e um ouro no mundial de 2012, ele conseguiu uma vaga nos Jogos e viu o reconhecimento do esporte paraolímpico aumentar na Geórgia, onde também era comum que famílias escondessem seus membros portadores de deficiências da sociedade.

Desta vez, os dois atletas foram homenageados com uma festa antes de deixar o país e são tema de uma canção feita por um grupo local.

Colômbia: Violência urbana

Freddy Rodríguez. | Foto: BBC

Atletas do time de basquete foram alvo de balas perdidas e tentativas de assalto à mão armada

A violência urbana na Colômbia fez pelo menos quarto vítimas no time paraolímpico de basquete de cadeira de rodas, que se classificou pela primeira vez na história para os Jogos.

Freddy Rodríguez foi atingido por uma bala perdida na coluna aos 8 anos de idade, quando vivia em Caquetá, na Amazônia colombiana.

A região é um dos principais cenários do conflito armado no país, que se estende intermitentemente pelos últimos 50 anos e responsável por um dos maiores números de deslocados internos do mundo.

William Pulido. | Foto: BBC

Violência de gangues ligadas ao narcotráfico deixa milhares de mortos a cada ano na Colômbia

William Pulido, de 34 anos, ficou paraplégico aos 15 anos ao ser baleado em uma briga na rua, em Bogotá. Como no caso da maioria de seus colegas, ele passou a jogar basquete em cadeira de rodas durante o processo de reabilitação, como atividade terapêutica.

"O esporte é o eixo fundamental de toda a minha vida. Graças a ele me reabilitei, estudei e segui adiante", disse Pulido à BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC.

Germán Garcia e Guillermo Alzate, que também fazem parte do time, foram atingidos por um tiro e uma facada, respectivamente, em tentativas de assalto também na capital colombiana.

Grã-Bretanha: Veteranos de guerra

O remador Nick Beighton também chegou ao esporte de alto rendimento durante seu período de reabilitação, mas financiado pelo Exército britânico. Beighton é um dos seis veteranos da guerra do Afeganistão que estão no Paralympics GB, a equipe da Grã-Bretanha nos Jogos.

Nick Beighton. | Foto: PA

Beighton diz que esporte é válvula de escape de energia para veteranos do Exército

Ele faz parte do programa Battle Back ("Lute de volta", em tradução livre), que encoraja ex-militares feridos em combate a praticar esportes e identifica possíveis talentos para o time paraolímpico, com fundos do governo e de ONGs.

Beighton, que ainda é capitão das Forças Armadas, perdeu ambas as pernas ao pisar em um explosivo improvisado feito por militantes talebãs na província de Helmand, um dos locais mais perigosos do Afeganistão.

A região, que faz fronteira com o Paquistão, é considerada um terreno difícil para a movimentação dos soldados. Lá aconteceu um terço das perdas do Exército britânico durante a campanha afegã. A área está sob controle americano desde 2010.

"Todo mundo tem a sua maneira de lidar com a recuperação, mas para mim o esporte foi vital", disse à BBC.

"Muitos dos homens que estão no Exército precisam de uma válvula de escape para a energia que normalmente jogariam no trabalho e nas operações."

Mas o remador de 30 anos, que participa do remo de dupla desde 2010, diz que a possibilidade de competir em uma Paraolimpíada é mais do que somente gasto de energia.

"Reafirmar que você tem a capacidade de conquistar coisas em um nível maior é essencial (para a recuperação). É quase como me encontrar de novo e descobrir que posso conseguir as coisas se puser isso na cabeça."

Sri Lanka: Conflitos internos

Lal Pushpakumara | Foto: Emma Lynch/BBC

Soldados são encorajados a se tornarem atletas após guerra civil

Ao contrário dos veteranos britânicos, os cinco soldados que fazem parte da equipe de atletismo do Sri Lanka reclamam de falta de incentivo financeiro para participarem de competições internacionais, apesar dos bons resultados.

O saltador PA Lal Pushpakumara, quarto melhor atleta paraolímpico do mundo nos 200m, perdeu a perna esquerda em 2008, ao ser atingido pela explosão de uma mina terrestre plantada pelo grupo separatista Tigres da Liberação do Tamil Eelam.

O conflito entre as forças do governo e os Tigres Tâmeis, que oficialmente durou 26 anos, deixou cerca de 70 mil mortos, segundo dados oficiais.

Pushpakumara, que jogava no time de vôlei do Exército antes do conflito, diz que os veteranos foram encorajados a praticar esportes durante a reabilitação, mas não têm locais e equipamentos adequados para o treinamento, apesar de terem recebido apoio do Ministério do Esporte do país para a viagem a Londres.

"O único equipamento que eu tenho para treinar é minha bengala", disse o ex-soldado à BBC.

DL Lesley Kumara. | Foto: Emma Lynch/BBC

Atletas tem que arcar com custo de equipamentos para treino

Eles recebem o salário base e têm algumas despesas de viagens para as competições cobertas pelo Ministério dos Esportes cingalês.

O corredor UDP Pradeep Sanjaya, quinto melhor do mundo nos 400m de atletas com deficiências de coordenação e controle muscular, também se queixa da falta de incentivo.

"Eu tenho que comprar todo o equipamento, roupas, sapatos e tudo o mais do meu salário", afirma.

De acordo com o governo singalês, quase 22 mil pessoas foram vítimas de minas terrestres no país desde os anos 1980. Grande parte dos refugiados internos também é de portadores de deficiência, porque foram feridos ao tentar fugir do conflito.

Instituições internacionais como o Comitê da Cruz Vermelha se encarregam de financiar o tratamento e as próteses de diversas vítimas.


Paquistão: Pólio

O atleta paquistanês Mudassar Baig teve a perna direita diminuída em relação à esquerda por causa da poliomielite, que adquiriu quando criança. Aos 33 anos, é um dos quatro atletas do país a participar dos Jogos, competindo nos 200m e 400m.

Mudassar Baig. | Foto: AFP

Pólio afeta milhares de crianças no Paquistão

"Eu sempre quis correr como os outros garotos, mas minha deficiência não permitia. Eu prometi a mim mesmo que um dia eu correria e venceria, e esse dia chegará em Londres", afirmou ao jornal Pakistan Today, durante a preparação para os Jogos Paraolímpicos.

A doença, erradicada no Brasil há cerca de dez anos, permanece como um dos principais problemas no Paquistão, onde a própria ONU atua com campanhas de vacinação e conscientização.

Apesar de ser um problema de saúde pública - o Paquistão é um dos três países do mundo onde a doença ainda é endêmica - a ameaça da doença também se torna maior por causa de fatores políticos e até ambientais.

Segundo o governo paquistanês, as campanhas de vacinação têm sido interrompidas nos últimos anos por causa de enchentes e campanhas militares contra os combatentes talebãs.

"Temos vítimas diretas e indiretas, algumas foram afetadas diretamente pelos conflitos e outras têm deficiências por causa do colapso dos sistemas de saúde", diz Claude Tardiff.

Em junho deste ano, o Talebã impediu a vacinação contra pólio em 250 mil crianças em áreas tribais do norte do país, em retaliação contra ataques de aeronaves não-tripuladas americanas.

Baig conta que o que o inspirou foi um filme que viu quando adolescente, sobre um homem que enfrentava dificuldades para ajudar seu país a vencer a guerra.

"Me ensinou que eu deveria lutar e tentar me tornar um modelo de comportamento para a juventude do meu país", disse o atleta.

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