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Vítimas relembram 30 anos de massacre que ficou impune em El Salvador

Atualizado em  22 de agosto, 2012 - 06:30 (Brasília) 09:30 GMT
Jesús, que perdeu quatro membros da família no massacre

Jesús diz que perdeu seu pai (na foto), sua mãe, irmão e filho de 4 anos em 21 de agosto de 1982

Em agosto de 1982, em plena guerra civil em El Salvador, a região de São Vicente - um bastião de rebeldes esquerdistas ao norte do país centro-americano - foi alvo de uma forte ofensiva do Exército.

Muitas famílias resolveram fugir, mas as que tinham parentes idosos ou crianças tentaram se esconder em suas casas. Após dias de bombardeio, tropas armadas avançaram por terra contra a região. Na noite de 21 de agosto, às margens do rio Amatitán, em um ponto conhecido como El Calabozo, as tropas enfileiraram centenas de pessoas e dispararam à queima roupa, segundo o relato de sobreviventes.

O número de mortes daquele dia é desconhecido, já que há relatos de que as tropas jogaram os corpos no rio ou os destruíram com ácido. Mas parentes listam pelo menos 200 desaparecidos do massacre, incluindo bebês e idosos, diz relatório divulgado nesta quarta-feira pela ONG Anistia Internacional, para marcar os 30 anos do episódio - cujos responsáveis nunca foram punidos pela Justiça salvadorenha.

"As Forças Armadas chamaram a operação de 'terra queimada', porque queriam acabar com tudo o que viam - pessoas, animais. Mataram vacas, cavalos, galinhas, cachorros, gatos. Não deixaram nada. Queimaram as casas", disse uma sobrevivente, Felicita, em depoimento à Anistia.

Outra sobrevivente, Jesús, disse à ONG que perdeu sua mãe, seu pai, seu irmão e seu filho de quatro anos, todos assassinatos nas margens do rio Amatitán.

"Eu não percebi, mas dizem que eu fiquei a noite inteira chorando. Passei anos e anos tentando lidar com isso. Eu caminhava pela rua e chorava, comia e chorava, todas as refeições", disse.

Guerra civil

O massacre de El Calabozo foi um dos muitos episódios sangrentos da guerra civil que assolou El Salvador entre 1980 e 1992, com um saldo de 75 mil mortos e ao menos 8 mil desaparecidos.

Sobreviventes de massacre de 1982 em El Salvador (Foto: Anistia Internacional)

Sobreviventes dizem que enfrentaram obstáculos ao tentar pedir investigações judiciais

Em janeiro, o governo esquerdista de Mauricio Funes (cujo partido, a Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional, descende da guerrilha) pediu desculpas e iniciou um programa de reparações, em nome do Estado, por outro massacre, ocorrido em 1981 e lembrado como El Mozote, quando soldados mataram 936 civis em uma operação contra a insurgência.

Mas, vinte anos depois do fim da guerra, "quase ninguém foi punido por ter ordenado e levado a cabo as matanças, a tortura e a violência sexual (registradas) no conflito", diz o relatório da Anistia.

No caso de El Calabozo, a ONG afirma que os sobreviventes levaram dez anos para retornar às aldeias arrasadas. Em 1992, alguns deles fizeram um pedido formal de investigação da matança.

"O caso foi encerrado no ano seguinte, apesar de provas e de a Comissão da Verdade da ONU, estabelecida após o conflito, ter documentado o massacre", prossegue a ONG. "Desde então sobreviventes, parentes e ONGs lutam para que haja justiça. Cada vez que o caso foi reaberto, enfrentou algum obstáculo legal."

A advogada de algumas das vítimas, Claudia Interiano, disse à Anistia que muitos dos sobreviventes de 21 de agosto de 1982 já morreram. "Parece que eles (autoridades) estão esperando para que todos morram, para que o problema desapareça."

Outra organização que se queixa da impunidade da guerra civil é a ONG Pró-Busca, que tenta localizar cerca de 600 crianças desaparecidas durante o conflito civil. Ester Alvarenga, diretora da ONG, disse à agência Efe que, apesar dos gestos de "boa vontade" do Estado, pouco se avançou na investigação de desaparecimentos forçados durante os 12 anos de guerra.

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