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Egito sufoca indústria dos túneis clandestinos para Gaza

Atualizado em  21 de agosto, 2012 - 14:00 (Brasília) 17:00 GMT

Uma das respostas do governo egípcio ao assassinato de 16 policiais do país na península do Sinai no dia 5 de agosto foi reprimir a indústria de túneis que servem de acesso clandestino à Faixa de Gaza.

Não está claro se algum túnel chegou a ser destruído, mas a atmosfera na outrora vibrante Rafah, na fronteira entre os dois territórios, está indiscutivelmente mais tranquila, sonolenta até.

"Não teve trabalho nas últimas duas últimas semanas. Sou pobre, não tenho dinheiro", diz o palestino Sagah, no sul de Gaza, um dos milhares que ganham seu sustento transportando mercadorias pelos túneis.

Acredita-se que existam mais de mil deles ao longo da fronteira, a maioria coberta por tendas brancas.

Tanto o Egito como Israel responsabilizam militantes pelas mortes de cinco de agosto e sugerem que eles possam ter usado os túneis para chegar de Gaza ao Egito.

Mas o quanto depende a Faixa de Gaza da indústria de túneis?

A economia do território palestino conta com eles desde que Egito e Israel endureceram o bloqueio contra Gaza em 2007, por conta da eleição do Hamas.

Mapa de Israel

O bloqueio israelense foi aliviado em 2010

Há três anos, lojas e mercados de Gaza estavam repletos de mercadorias contrabandeadas do Egito, de comida a eletrodomésticos, TVs de tela plana a combustível.

Mas a indústria mudou nos últimos anos. Em 2010, após a morte de nove ativistas pró-palestinos a bordo de um navio turco que tentava furar o bloqueio, e em resposta a pressão internacional que se seguiu, Israel aliviou o bloqueio a Gaza

Hoje, quase todos os produtos de supermercados de Gaza são israelenses. Mesmo com o longevo conflito, palestinos de Gaza quase sempre dizem preferir produtos israelenses aos egípcios, por causa de sua qualidade superior.

Economia

Mesmo assim, a indústria de túneis sobreviveu, adaptando-se.

"O volume movimentado é de US$ 700 milhões por ano", diz Omar Shabban, economista baseado no centro de pesquisas Palthink, em Gaza.

Ele calcula que mais de 10 mil pessoas trabalhem nos túneis e diz que a indústria criou milionários, alguns próximos do Hamas.

"Há mais de 1,2 mil túneis que contrabandeiam carros, mais de meio milhão de litros de combustíveis diariamente e mais de 300 mil pacotes de cigarros. O setor da construção de Gaza depende 100% dos túneis", afirma ele.

Pessoas sem documentos também usam os túneis. Israel diz que eles são ainda usados para o envio de armas para Gaza.

Enquanto Israel segue controlando rigorosamente a entrada de materiais de construção no território palestino, afirmando que eles podem ser usados militarmente, o Hamas usa os túneis para conseguir cimento e outros produtos.

Empresários do setor dizem que o movimento aumentou após a queda do presidente egípcio Hosni Mubarak em 2011, proporcionando o boom na construção pelo qual passa Gaza.

Túnel em Gaza

Há mais de mil túneis entre Gaza e a região egípcia do Sinai

Há algo sendo erguido em praticamente toda esquina da cidade de Gaza, como estradas, hospitais, escolas, edifícios comerciais e residências, dando um respiro para sua cambaleante economia.

Interesses

A maioria dos trabalhadores da construção em Gaza diria que faz mais sentido abrir a fronteira com o Egito ao comércio legal. Muitos esperam um acordo entre a Irmandade Muçulmana e o Hamas neste sentido.

Mas há motivos para isto não acontecer, ao menos a curto prazo.

"Se o Egito transformasse Rafah em um fronteira comercial, Israel terminaria imediatamente seu relacionamento com a Faixa de Gaza, tornando-a um problema do Egito", diz Mokhaimer Abu Sada, professor de política da universidade Al Azhar, de Gaza.

"Isto é uma armadilha israelense para o Egito e os palestinos", completa.

É por isto que muitos em Gaza acreditam que o Egito não cumprirá as ameaças de fechar os túneis em definitivo e que ela será reaquecida em breve.

"O Egito não fará isto e o Hamas não aceitaria", diz o economista Shabban.

"Gaza não pode viver sem os túneis. Em uma semanas ou dez dias os negócios vão voltar ao normal."

Com informações de Jon Donnison da BBC News

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