O que o governo do Equador ganha com asilo a Assange

Atualizado em  17 de agosto, 2012 - 14:32 (Brasília) 17:32 GMT
O presidente do Equador, Rafael Correa

Para analistas, razões de Correa para tomar decisão não se limitam a interesse de proteger direitos de Assange

Era a decisão que a maioria esperava, mas no Equador nem todos estão de acordo com ela.

O governo equatoriano disse que outorgou o asilo ao fundador do WikiLeaks, Julian Assange, porque compartilha de seu temor de ser vítima de perseguição política e das possíveis consequências de uma eventual extradição aos EUA.

"Existem sérios indícios de retaliação por parte do país ou dos países que produziram a informação divulgada por Assange, represálias que podem colocar em risco sua segurança, integridade e até sua vida", disse o chanceler do Equador, Ricardo Patiño, ao anunciar a decisão.

"A evidência jurídica mostra claramente que em caso de extradição aos EUA Assange não teria um julgamento justo, poderia ser julgado por tribunais especiais ou militares, e não é inverossímil que receba tratamento cruel ou degradante e seja condenado a prisão perpétua ou à morte", disse.

Um grande número de simpatizantes do fundador da WikiLeaks está convencido do mesmo.

E Assange sabia que poderia contar com o presidente equatoriano, Rafael Correa, entre esses simpatizantes muito antes de entrar na embaixada do Equador em Londres.

Discurso

Segundo o professor Santiago Basabe, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, porém, as razões de Correa para outorgar o asilo a Assange não se limitam ao declarado interesse em proteger seus direitos.

"É preciso entender que (o asilo) é simplesmente a culminação de um processo de negociação que data de muito tempo atrás", disse à BBC Mundo.

"Há esse discurso de que Assange protegeu a liberdade de opinião, fortaleceu a liberdade de imprensa, de expressão", disse.

"E o Equador, respeitoso como é – tudo segundo o discurso oficial – da liberdade de expressão e de imprensa, não faz mais do que refletir esse discurso na concessão de asilo."

Basabe observa que isso tudo ocorre em um momento em que o Equador tem sido duramente questionado em vários foros internacionais, além dos locais, sobre "a forma como o governo compreende o que é democracia".

Para o professor, a intenção original do governo era "limpar a cara, como se diz popularmente, no campo internacional".

No entanto, no Equador nem todos estão convencidos de que a imagem internacional do país será beneficiada com o episódio.

Os meios privados e boa parte dos analistas e "formadores de opinião" – tradicionalmente opositores de Correa – advertiram que o país tem muito pouco a ganhar.

Citam como exemplo o fato de o Equador estar tentando concretizar um acordo comercial com a União Europeia. Muitos creem que uma briga com a Grã-Bretanha e a Suécia não vai ajudar.

Oposição

Fica claro, de qualquer maneira, que a oposição vai tentar utilizar o caso Assange contra Correa, que aposta na reeleição em fevereiro de 2013.

O ex-presidente equatoriano Lucio Gutiérrez, por exemplo, chegou a sugerir que a intenção real de Correa é utilizar as habilidades de hacker de Assange para roubar as eleições.

Segundo Basabe, porém, Correa não tem necessidade de recorrer a estratégias do gênero para permanecer no poder.

Apoio a Assange

Poucos acreditam que Julian Assange conseguirá chegar ao Equador

"As possibilidades de que Correa perca as eleições de fevereiro são bastante baixas", disse, acrescentando que em qualquer caso são muitos os equatorianos que respaldam a petição de asilo de Assange.

E a possibilidade de entrada das autoridades britânicas na embaixada do Equador em Londres para capturar Assange, como advertiu Patiño na última quarta-feira, seguramente ajudará a unir os simpatizantes de Correa e fortalecerá seu discurso nacionalista e anti-imperialista.

"Esta é uma decisão de um Estado soberano, que não pede permissão aos britânicos para reagir", afirmou Rosana Alvarado, deputada da Assembleia Nacional, pertencente ao partido oficialista Aliança País.

"Espero que haja unidade do povo equatoriano para rejeitar qualquer forma de colonialismo", assinalou Paco Velasco, também da Aliança País.

O verdadeiro nível das repercussões da decisão equatoriana dependerá em grande parte da reação dos governos da Grã-Bretanha e da Suécia e – obviamente – dos EUA.

Além disso, depois de tudo, poucos acreditam que o fundador do WikiLeaks conseguirá chegar ao país.

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