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Brasileiro conta como sua vida cruzou com a do 'nazista mais procurado do mundo'

Atualizado em  18 de agosto, 2012 - 10:17 (Brasília) 13:17 GMT

Brasileiro conta como sobreviveu a campo de concentração

Parte da família de Thomas Venetianer foi mantida em gueto comandado pelo húngaro Laszlo Csatary e depois enviada a Auschwitz.

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O engenheiro naturalizado brasileiro Thomas Venetianer, 75, e Laszlo Csatary, 97, considerado o criminoso nazista mais procurado do mundo e preso há um mês em Budapeste, nunca chegaram a se conhecer pessoalmente. Suas vidas, no entanto, permaneceram indiretamente entrelaçadas desde o extermínio em massa dos judeus ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial.

Vivendo há mais seis décadas no Brasil, Venetianer nasceu em Kosice, no leste da atual Eslováquia. A cidade fazia então parte do território da Hungria, cidade onde o nazista Csatary seria, mais tarde, responsável pelo gueto de onde mais de 15 mil judeus seriam deportados a campos de concetração, incluindo parte da família do engenheiro.

Em julho deste ano, o policial húngaro Laszlo Csatary foi descoberto por repórteres do jornal britânico The Sun vivendo livremente na capital, Budapeste. Ele retornou à Hungria há 17 anos, após ter morado com uma identidade falsa no Canadá entre 1948 e 1995. Csatary havia sido condenado à morte à revelia pela extinta Tchecoslováquia. Há um mês, foi preso e se encontra em prisão domiciliar.

Chefiado por Csatary, o gueto de Kosice foi instalado em uma antiga olaria pouco tempo depois da ocupação nazista da Hungria, em março de 1944.

Segundo relatos de sobreviventes, Csatary tratou cruelmente os judeus do gueto, espancando as mulheres e obrigando-as a cavar trincheiras com as próprias mãos. Venetianer conta que, por pouco, escapou do destino reservado a vários de seus familiares.

Thomas Venetianer | Crédito da foto: Arquivo pessoal

Sobrevivente do Holocausto, Thomas Venetianer posa ao lado da esposa e três dos cinco netos.

"Da família da minha mãe, um tio e uma tia foram mantidos no gueto de Kosice e depois enviados ao campo de concentração de Auschwitz. Do lado do meu pai, os que estavam na cidade e não saíram de lá provavelmente foram mortos", disse Venetianer à BBC Brasil.

O engenheiro só conseguiu se salvar quando fugiu, então com sete anos, acompanhado do pai e da mãe, rumo ao território da antiga Eslováquia, duas semanas antes da invasão alemã.

"Meu pai era um homem à frente de seu tempo. Ele pressentiu a perseguição que sofreríamos na Hungria sob controle alemão e decidiu que tínhamos de abandonar nossa cidade o mais rápido possível", diz.

O engenheiro brasileiro e seu familiares imediatos escaparam das ordens de Csatary, mas não dos horrores da guerra. Poucos meses depois, Venetianer e seus pais foram presos pela Gestapo, a polícia nazista, nas montanhas da Eslováquia.

Prisão

"Tão logo fomos presos, eu e minha mãe fomos levados a uma prisão eslovaca, depois ao campo de concentração de Sered e, por fim, ao de Theresienstadt, na cidade de Terezín, hoje República Tcheca. Já meu pai foi encaminhado ao campo de concentração de Sachsenhausen, num subúrbio de Berlim, na Alemanha", afirmou.

Laszlo Cstary | Crédito da foto: AFP

Criminoso nazista mais procurado do mundo, Csatary foi preso na Hungria

Antigo quartel militar, Theresienstadt ficou conhecido por abrigar a elite intelectual judaica da época. Era um dos chamados "campos modelo" do nazismo, peça de propaganda da ideologia de superioridade racial do regime. As condições, no entanto, eram precárias.

"Convivíamos com a superlotação das celas e falta de condições básicas de higiene. Dormia na mesma cama que a minha mãe. Fazíamos todas as refeições no quarto, que dividíamos com outras sete pessoas. Em um lugar que caberiam 7 mil soldados, os nazistas encarceraram 60 mil judeus", conta.

Dos 140 mil judeus que passaram pelo campo de concentração, 88 mil foram levados e exterminados em Auschwitz, enquanto 33 mil morreram dentro do próprio campo de concentração, segundo dados do museu Theresienstadt.

A libertação do engenheiro brasileiro ocorreria seis meses depois, em meados de maio de 1945, pelo Exército Russo. Com a Alemanha derrotada e a Europa em frangalhos, a volta para casa, em Kosice, durou quase um mês, especialmente por causa das ferrovias destruídas pelo confronto.

"Não havia transportes para todo mundo; os caminhões estavam lotados", acrescenta.

Reencontro

Thomas Venetianer com pais | Crédito da foto: Arquivo pessoal

Foto mostra Venetianer, então com seis anos, ao lado dos pais, Alexander e Alzbeta, antes da fuga.

Venetianer ainda demorou para rever o pai. O reencontro só ocorreria em agosto daquele ano.

Antes disso, conta o engenheiro, seu pai teve de vencer o estado de fragilidade em que se encontrava após o término da guerra. Pesando apenas 42 kg, ele havia sido retirado do campo de concentração nos arredores de Berlim e obrigado a marchar à força junto com outros milhares de prisoneiros sob a mira das armas dos alemães, que já prenunciavam a derrota.

"Nessa caminhada sem destino, quem parasse ou caísse era fuzilado. Já sem forças, meu pai caiu e foi alvejado. Permaneceu assim por três dias até ser resgatado pela Cruz Vermelha", afirmou.

Brasil

Em março de 1948, duas semanas antes da tomada da Tchecoslováquia pelos comunistas, a família decidiu fazer as malas rumo a São Paulo, onde já vivia uma prima de sua mãe.

No Brasil, Venetianer aprendeu o português e, paralelamente aos estudos, vendia tapetes de porta em porta na capital paulista. Apesar das dificuldades, conseguiu se formar em Engenharia Eletrônica pela Universidade de São Paulo (USP) e em Administração pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Judeus em Kosice | Crédito da foto: Arquivo pessoal/Thomas Venetianer

Foto mostra judeus presos no gueto de Kosice, comandado por Laszlo Csatary

Casado com uma húngara naturalizada brasileira, pai de duas filhas e avô de cinco netos, Venetianer está hoje aposentado e presta consultorias a empresas. Também ocupa sua agenda dando palestras sobre o Holocausto e prepara o lançamento de um livro em inglês sobre a história dos judeus eslovacos durante a guerra.

Questionado sobre a detenção de Czatary, diz que "gostaria de vê-lo condenado".

"Mas o tempo, de certa maneira, emudece um pouco o desejo de vingança", afirmou.

"Quando viemos ao Brasil, comecei a ter a dimensão da tragédia. Naquela ocasião, realmente tive desejo de vingança. Hoje em dia, é difícil dizer."

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